O material roubados dos paióis de Tancos, em junho de 2017, tinha características letais, podia ser usado em atos terroristas e constituía, por isso, um perigo para a segurança nacional. As conclusões e alertas fazem parte de um parecer que o então chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA), Pina Monteiro, levou à primeira reunião da Unidade de Coordenação Antiterrorista (UCAT), a 30 de junho de 2017 — apenas dois dias depois do assalto, conforme conta o Diário de Notícias.

Este primeiro encontro entre polícias e militares, que terá durado cerca de uma hora, é um dos factos que serão avaliados na comissão de inquérito parlamentar ao furto de Tancos que inicia os seus trabalhos esta terça-feira. Trabalhos que vão arrancar com uma visita dos deputados aos paióis de Tancos de Santa Margarida (para onde foi transferido todo o material que estava na base roubada).

Entre as várias situações que os parlamentares irão escrutinar estão as informações que circularam entre as diferentes forças de autoridade, as decisões tomadas durante o processo e o nível de conhecimento partilhado pelas várias partes envolvidas, desde as chefias militares até à própria tutela da Defesa nacional, na altura liderada por José Azeredo Lopes (entretanto substituído por João Gomes Cravinho).

A primeira reunião de alto nível, recorda o DN, foi convocada por Helena Fazenda e contou com o então diretor do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), Amadeu Guerra (recém-empossado procurador-geral distrital de Lisboa), dos dois procuradores titulares do inquérito (João Melo e Vítor Magalhães) e ainda de representantes da GNR, da PJ, da PSP, do SEF e dos serviços de informações.

Embora todos os participantes concordassem com a gravidade do furto, houve alguns pontos em que não houve consenso. De acordo com os dados recolhidos pelo DN, Pina Monteiro alertou para um potencial terrorista, reforçado pelo facto de o país, cada vez mais procurado por turistas, ser um alvo fácil. Embora publicamente o ex-CEMGFA viesse a desvalorizar os perigos associados ao furto do material de guerra, na mesma reunião declarou não ter provas que pudessem sustentar a sua teoria, tarefa essa que caberia ao Sistema de Informações de Segurança (SIS) e Sistema de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) que também estiveram na reunião.

A teoria de motivações terroristas na origem do furto, também defendida pelo diretor do DCIAP, acabou por ser uma das linhas de investigação seguidas pela então procuradora-geral da República Joana Marques Vidal e reconfirmada pela atual titular do cargo, Lucília Gago. Já a Polícia Judiciária, a Polícia de Segurança Pública e as secretas mantiveram-se mais cautelosas na avaliação das motivações e dos perigos.