Estados Unidos da América

Trump admite declarar emergência nacional para fazer muro. Nova-iorquinos consideram “shutdown” um ataque de raiva do Presidente

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Trump assegura que não reabre o governo enquanto não receber o financiamento do muro. Nova-iorquinos consideram a paralisação do governo um ataque de raiva do Presidente dos EUA.

O Presidente norte-americano, Donald Trump, aproximou-se na quinta-feira de declarar uma emergência nacional nos EUA

SHAWN THEW/EPA

O Presidente norte-americano, Donald Trump, aproximou-se na quinta-feira de declarar uma emergência nacional nos EUA, a propósito da disputa que mantém com os democratas sobre o financiamento da construção de um muro na fronteira com o México. A pressão está a aumentar para procurar uma saída para o impasse, que dura há três semanas e já provocou o encerramento de vários serviços governamentais, deixando centenas de milhares de trabalhadores sem salário.

Durante uma visita a McAllen e Rio Grande, no Estado do Texas, para reforçar o que considera ser uma crise de drogas e crimes, o republicano Trump garantiu: “Declararei a emergência nacional”, num cenário em que não consiga a aprovação pela Câmara dos Representantes, dominada pelos democratas, do financiamento do muro, estimado em 5,7 mil milhões de dólares (4,9 mil milhões de euros).

Cerca de 800 mil funcionários públicos, mais de metade dos quais mantêm-se no ativo, não vão receber o cheque salarial na sexta-feira e Washington está próximo de estabelecer um novo recorde de duração de shutdown na história do país, que se situa em 21 dias. Estes marcos, juntamente com os efeitos crescentes nos parques nacionais, nas inspeções alimentares e no conjunto da economia, estão a incomodar cada vez mais republicanos no Congresso.

Questionado sobre a situação dos funcionários públicos que vão ficar sem salário, Trump respondeu que se sentia mal “pelas pessoas que têm familiares que foram assassinados” por criminosos que entraram na fronteira.

Donald Trump tem estado a avaliar com os advogados da Casa Branca e os seus aliados o uso dos poderes presidenciais de emergência para avançar de forma unilateral e construir o muro, independentemente das objeções do Congresso.

“Ou ganhamos (a disputa com os democratas), ou fazemos um compromisso — porque penso que um compromisso é uma vitória para todos — ou vou declarar uma emergência nacional”, afirmou Trump, antes de partir da Casa Branca para a fronteira. Não está claro como se pode alcançar um compromisso e não há indícios de que esteja algum em preparação.

Trump assegura que não reabre o governo enquanto não tiver o dinheiro para o muro. Os democratas dizem que favorecem medidas para reforçar a segurança fronteiriça, mas opõem-se ao muro. Não há negociações em curso no congresso.

Durante a visita a um posto fronteiriço, em McAllen, Trump viu mesas cheias com pilhas de armas e estupefacientes. Tal como quase todos os estupefacientes traficados através da fronteira, estes tinham sido apreendidos pelos agentes nos pontos oficiais de passagem de fronteira, disseram-lhe, e não nas áreas remotas para onde pretende estender o muro. Mesmo assim, declarou: “Um muro funciona… Nada como um muro”.

Durante a estadia de Trump na zona fronteiriça, o México reagiu com desinteresse ao evento. O presidente mexicano, Andrés Manuel López Obrador, qualificou como “assunto interno” dos EUA o tema do muro.

Nova-iorquinos consideram shutdown “ataque de raiva” de Trump e muro EUA/México “inútil”

Alguns nova-iorquinos classificam a ideia de construir o muro na fronteira com o México de “cruel”, “inútil” ou “essencial” e consideram que a paralisação parcial do Governo resulta de um “ataque de raiva” do Presidente dos EUA.

Cinco pessoas, em declarações à agência Lusa em Nova Iorque, criticaram com palavras fortes a paralisação parcial do Governo dos Estados Unidos (shutdown), que dura há 21 dias, e Donald Trump, enquanto uma outra deu opiniões favoráveis sobre a mesma e o muro, principal razão de discórdia entre o Presidente e o Congresso. Para os nova-iorquinos, que dizem estarem a ser afetados diretamente pela paralisação de serviços públicos, o shutdown é culpa da administração Trump.

Gabriel Rumbell, de 35 anos, diz que o shutdown, sendo “absolutamente terrível”, é um “estratagema” e resulta de “um ataque de raiva” de Trump, que não consegue satisfazer as suas vontades e usa “o lamentável poder que tem para levar o país a ficar parado”.

Informático de profissão, Gabriel Rumbell acredita que o único motivo por que Trump continua com esta “crise” é para “apaziguar” os seus apoiantes. “Ele fez campanha com a ideia de um muro e se ele não construir um muro para apaziguar a sua base, vai parecer estúpido”, afirma.

De entre as seis pessoas entrevistadas pela Lusa nas ruas de Nova Iorque, o advogado Alan Bannister foi o único que deu uma opinião positiva quanto ao shutdown. A razão: “quanto menos tempo o Governo passa em funcionamento, menos dinheiro gasta”. Um muro “é essencial para proteger as fronteiras”, diz Alan Bannister, acrescentando que se os Estados Unidos não conseguirem proteger o território, deixam de ser uma “nação soberana”.

Bannister considera que os 5,7 mil milhões de dólares (4,9 mil milhões de euros) que Trump pede para a construção são uma “ninharia”, se comparados com os gastos que o Congresso destina a coisas desnecessárias à população. O advogado defende o financiamento para o muro e é da opinião que todas as pessoas que querem entrar nos EUA têm de ser rastreadas: “Eu pergunto-me porque continuamos a ter controlos de passaporte no JFK (aeroporto de Nova Iorque), se não temos um muro numa fronteira ainda maior, por onde as pessoas podem simplesmente entrar despercebidas e não verificadas”, explica.

Robert Laird, empregado de um café de Nova Iorque, diz que a falta de acordo há mais de 20 dias faz parecer que “Trump não quer terminar ou que nem sabe realmente o que é o shutdown ou como pode ter começado”. Para Robert Laird, a administração do país devia reunir esforços para levar mais tecnologia para as fronteiras, mas construir um muro ou outro tipo de barreiras é “estúpido e sem sentido”.

A professora Petty Hill considera que a decisão de travar qualquer pagamento a serviços federais até que o Congresso aprove o financiamento para o muro é uma ação “terrivelmente imprudente por parte da administração Trump”, que “está a prejudicar milhares de funcionários federais que não estão a ser pagos, mas que são esperados nos locais de trabalho”. A opinião da professora sobre o muro é que essa ideia “é cruel, é estúpida e é inútil” e de que “não vai fazer nada quanto ao problema das drogas” e dos imigrantes ilegais. O shutdown está a provocar o encerramento de parques naturais e até de pesquisas científicas financiadas pelo Governo, relembra Petty Hill.

A mesma opinião é partilhada por Jackie Morgan, que trabalha no setor da hotelaria e turismo, e que testemunha que as férias de muitos clientes estão a ser afetadas e os parques naturais não estão abertos ao público. “Pessoalmente, a minha vida não tem sido impactada, mas li e encontrei várias pessoas que não podem ir aos trabalhos e que não têm recebido os seus ordenados”, diz a agente de relações públicas de companhias de hotelaria.

“Se não receberes o teu ordenado durante mais de duas semanas, não podes pagar a renda”, explica Jackie Morgan, que vê no muro uma “razão ridícula” para o impasse que está a haver. Na opinião de Jackie, “Trump devia recuar e aceitar os acordos que o Congresso e a Câmara dos Representantes estão a fazer”.

Também Arin Hollingsworth, estudante de 18 anos, considera, em declarações à Lusa, que paralisar o Governo “não é uma boa jogada” e não representa uma ação adequada para a libertação de fundos: “não tem provado ser útil até agora”, diz.

O estudante afirma que tem visto efeitos do shutdown através dos amigos, que estão entre os que estão sem trabalhar há vários dias, porque trabalham com o Governo federal e têm estado “suspensos” no processo. O Governo federal dos EUA está encerrado desde 22 de dezembro, sem previsões de reabertura, o que põe em causa o pagamento de salários a cerca de 800 mil funcionários públicos.

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