Começou logo a abrir com uma goleada em Cardiff – e com números como já não se viam desde os tempos de Alex Ferguson (5-1). Seguiu-se mais um triunfo convincente na receção ao Huddersfield, que não deu também goleada por pouco (3-1). E como não há duas sem três, mais uma vitória com goleada em Old Trafford frente ao Bournemouth (4-1). Os triunfos continuaram e só mesmo os números foram mais modestos (Newcastle, 2-0; Reading, 2-0, neste caso para a Taça de Inglaterra). Contas feitas, aquele que era visto como um simples caretaker do Manchester United depois da saída de Mourinho arriscava fazer história.

Era preciso recuar até Sir Matt Busby para encontrar um arranque igual. E se quando falamos de Ferguson, também ele Sir, nem precisamos de explicar a dimensão elevada do que está em causa, neste caso falamos de alguém que, após jogar no Manchester City e no Liverpool, orientou os red devils durante 24 anos. Isso mesmo, quase um quarto de século, entre 1945 e 1969, com a conquista de cinco Campeonatos, duas Taças, cinco Supertaças e a Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1968 à frente da equipa que tinha George Best, Bobby Charlton ou Brian Kidd que venceu o Benfica de Eusébio, Coluna, Simões, Torres e José Augusto. Mais um triunfo, o sexto, permitiria superar esse arranque de um dos mais carismáticos líderes do clube, ao nível do também escocês que chefiou a equipa entre 1986 e 2013 e que teve como avançado Solskjaer durante 11 temporadas.

O problema, pensava-se, era o calendário. Porque o calendário trazia uma deslocação a Wembley para defrontar o Tottenham, naquele que era o jogo grande da jornada. E porque o calendário, nos próximos dois meses, trazia além desse duelo desta tarde outra deslocação a Londres mas agora para defrontar o Arsenal (dia 25) na Taça de Inglaterra; a eliminatória dos oitavos de final da Champions com o PSG (12 de fevereiro e 6 de março); as receções ao Liverpool (24 de fevereiro) e ao Manchester City (16 de março); e mais uma ida a Londres para jogar com o Arsenal, desta feita a contar para o Campeonato (9 de março). E o que dizia o norueguês perante este cenário? Que treinar estes jogadores em Old Trafford era um privilégio.

“Tivemos uma grande semana de treinos no Dubai, com tempo para corrigir alguns princípios e aspetos táticos. Quando se assina contrato pelo Manchester United, ficamos ansiosos com estes jogos, como ir a Wembley para jogar uma final ou para defrontar o Tottenham, uma grande equipa que parece estar a voar. Será um grande desafio para os rapazes. Estamos a jogar contra um dos melhores avançados do mundo, um Son que tem estado impressionante, um Eriksen que é dos melhores organizadores que existem. Temos de defender mas também atacar com equilíbrio, protegendo bem o espaço nas costas”, comentou sempre com aquele sorriso de miúdo de tão feliz que anda – afinal, como jogador já era conhecido como o Baby-faced Assassin, pela forma como surgia muitas vezes como suplente utilizado para decidir sempre com cara de quem não faz mal a ninguém.

Frente ao técnico apontado por muitos como a principal opção dos red devils para a próxima temporada (Mauricio Pochettino, embora o Telegraph deste domingo trazer um exclusivo onde explica o porquê de Gareth Southgate, selecionador inglês, começar a ganhar também força), Solskjaer foi sobretudo humilde e deu uma lição a quem colocava dúvidas entre um arranque com o hype do momento ou o mérito de alguém que como treinador passou apenas pelo Molde e pelo Cardiff. E foi essa humildade, na forma de abordar a partida, que permitiu o golo de Marcus Rashford quase em cima do intervalo: com toda a equipa atrás da linha do meio-campo, Trippier teve de travar a marcha, perdeu a bola e Pogba lançou em profundidade para a finalização do internacional inglês, um perigo constante no ataque a par de Lingaard e Martial. E por falar em Pogba, para se perceber o que mudou desde a saída de Mourinho, o jogador fez quatro golos e quatro assistências… em cinco encontros.

No segundo tempo, e depois de ter feito apenas uma defesa no decorrer dos 45 minutos iniciais, foi tempo de De Gea. Sir De Gea. Ou pelo menos São De Gea, um dos melhores guarda-redes da atualidade que está a poucos meses de terminar contrato (e tudo aponta para que a próxima vez que assine um vínculo esteja a garantir um autêntico Euromilhões para a sua conta bancária) e que encheu a baliza do Manchester United com nove (!) intervenções de nível, em voo ou com os pés quase como se fosse um elástico guardião de futsal. Pelo meio é certo que Lloris evitou o 2-0 a Paul Pogba que poderia ter terminado o encontro mas houve quase sempre Tottenham na etapa complementar. Tottenham e De Gea, o jogador que aguentou toda uma equipa.

Começou com uma defesa por instinto com os pés a remate de Harry Kane numa transição (49′). Pouco depois, foi Dele Alli a tentar, encontrando outra vez pela frente o espanhol (50′). Uns minutos para respirar, nova carga com artilharia cheia. Com Alli a tentar através de jogada individual (66′), com Alderweireld a aproveitar um canto para testar os reflexos do internacional (70′), com Alli a ser solicitado por Eriksen mas a acertar de novo na muralha vestida esta tarde de verde (74′). Mais uns minutos para respirar, ataque final. Com Kane a ver De Gea evitar o empate com o pé (86′), com Llorente a ganhar na área mas a rematar à figura (89′). Um autêntico show quando o Manchester United já não tinha capacidade de saída e que valeu mais três pontos aos red devils, cada vez mais próximos dos lugares cimeiros e dentro da luta, pelo menos, da Champions.