O mais difícil no drum & bass sempre foi dançar. Acertar na dança. Tentar sincronizar as pernas com os batimentos, que pareciam gostar de nos trocar as voltas, quase fazer tropeçar. Quem já foi a uma festa de drum & bass sabe do que aqui se fala, sabe que este género pede gente bem preparada, atletas da noite, que não sucubem na primeira hora e meia, ter o hábito de fazer exercícios cardio. Sim, vendo bem as coisas, uma noite de drum & bass pode ser comparada com uma corrida, uma maratona de dança e resistência. E bem sabemos como o suor, num espaço relativamente pequeno, pode fazer subir a temperatura.

Este ambiente que aqui retratamos não foge muito àquele que se vivia na segunda metade dos anos 90, quando a CoolTrain Crew apareceu em Lisboa, a disseminar em Lisboa e Portugal este estilo que inundava as pistas de dança de todo o mundo, a ocupar bares do Bairro Alto, a fazer gente saltar. É essa energia, com a sua necessária atualização, que se vai sentir esta quinta-feira no Lux Frágil, numa noite a que decidiram chamar “The Rebirth Of Cool” e que além da CoolTrain Crew junta ainda MC Knowlodje e o DJ Fabio, uma lenda do drum & bass britânico.

Vamos ao nomes, quando a coisa arrancou, os seus fundadores – que são aqueles que vão invadir os dois pisos do Lux – eram Johnny, Tiago Miranda, Dinis, Nuno Rosa, Rui Murka e Vítor Belanciano. Gente que vinha de sítios bem distintos e que se encontrou nas ruas apertadas do então centro da vida noturna lisboeta que era o Bairro Alto. “O Bairro Alto foi o embrião de tudo. Foi aí, nas suas noites, em diversos bares que todos se conheceram. Eu tinha trabalhado em lojas de discos e era DJ dos Três Pastorinhos, além de ter organizado as primeiras noites de drum & bass com DJs britânicos em Portugal. O Tiago Miranda vinha de Braga, onde fez parte de várias formações rock, tornando-se um dos DJs mais conhecidos do Captain Kirk – um espaço que marcou o Bairro Alto do meio dos anos 90 – o mesmo sucedendo com o Rui Murka ou o Dinis, que também operava no Nova, além de manter um percurso como ator, tal como o Vítor Belanciano, que então se iniciava no jornalismo, ou o Nuno Rosa”, conta-nos Johnny.

Primeiro no Bairro Alto. Depois, o resto

Convém dizer que, à época, quem mandava na noite nacional era o house e o techno. Não apenas nas maiores discotecas do país, mas também nas festas de grandes dimensões, aquelas a que por norma apelidamos de raves, e que começaram a aparecer no início dos anos 90, timidamente, em Portugal. E era essa paisagem que este coletivo pretendia alterar, ou, pelo menos, acrescentar profundidade, adicionar mais cores à perspetiva. Isto tudo para dizer que o Bairro Alto começava a não ser suficiente: “A meio dos anos 90 predominavam as sonoridades do house e do techno. Os DJs que formaram a CoolTrain Crew operavam isoladamente nos bares do Bairro Alto, onde se podiam ouvir sonoridades alternativas, como o drum & bass que na altura se impunha globalmente, ou sons influenciados pelo jazz, e havia essa ideia de levar essa música a outros pontos do país, a grandes festas e a festivais. Pareceu-nos que se nos juntássemos, tal seria mais fácil e exequível. E assim aconteceu”, explica Johnny.

A CoolTrain Crew na imprensa da altura

Antes disso, antes de terem espaços emblemáticos como o Pacha, em Ofir, ou a Kadoc, em Albufeira, ou mesmo a mítica passagem por um Sudoeste (1998) cujo cartaz continha nomes como PJ Harvey ou Portishead, a CoolTrain Crew estabeleceu-se no Ciclone, o bar em Santos que nasceu no lugar do importantíssimo clube de rock Johnny Guitar e que era propriedade de Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés, e de Alex Cortez, dos Rádio Macau. E estabeleceu-se com raízes algo raras para a noite de então. Por um lado era esta ideia de estar num sítio que não o Bairro Alto ou a 24 de Julho, obrigar as pessoas a rumar a outras zonas de Lisboa; por outro a ideia de residência, de noite com curadoria, onde um certo conceito, como hoje tanto vemos, se fixa num certo bar, com uma determinada periodicidade.

“Havia essa intenção de começar algo de novo num lugar virgem em termos de drum & bass e derivados, onde seria possível passar música toda a noite pelos membros do coletivo. E, sim, de facto, não havia essa lógica de curadoria de um espaço. Existiam algumas noites onde se sabia ao que se ia em antecipação, como as sessões de sábado do DJ Vibe no Kremlin, ou do Rui Vargas no Frágil, mas eram exceções. No caso do Ciclone a ideia foi recalcada do que acontecia em alguns países europeus, em particular no Reino Unido, onde era vulgar haver noites dedicadas ao jungle/drum & bass”, enquadra Johnny.

Então e afinal quem eram os artistas de drum & bass que faziam a diferença? Que música é que a CoolTrain gostava de passar nas suas noites? Pergunta bem, estimado leitor, pergunta bem. A grande maioria dos produtores e DJs favoritos desta rapaziada vinha do Reino Unido: Goldie, 4 Hero, Alex Reece, Ed Rush, Omni Trio ou Roni Size. E se eventualmente ainda hoje desconhece alguns destes nomes, imagine o que isso significa para a segunda metade da década de 90. As possibilidades tecnológicas estavam bastante distantes das atuais, o mercado da música não estava tão democratizado, não havia YouTube, ou seja, ainda se saía à noite para ouvir coisas novas, para ir perguntar ao DJ “que disco é este? onde o arranjo?”. Johnny reafirma esta ideia: “Sim, o drum & bass era desconhecido para a maioria das pessoas. De alguma forma, para os membros da CoolTrain, o drum & bass era o seguimento natural de uma série de tipologias – dub, funk, hip-jop, jazz – que todos eles abordavam nas suas sessões solitárias. Essa fisicalidade, assente no poder dos graves – que viria depois a originar tantas outras ramificações, do big beat ao dubstep – era ao mesmo tempo desconcertante e familiar, para quem ouvia aquela música pela primeira vez e a dançava. E claro que essa aura de surpresa e de novidade – para algumas pessoas era mesmo algo radicalmente novo – foi importante para a aceitação da proposta.”

A segunda vida e o regresso

Todo e qualquer coletivo tem um prazo de validade. Estes seis fundadores da CoolTrain, uma vez atingida a sua missão, foram bailar para outros pólos, ainda que mantendo sempre uma ligação à música. A segunda reencarnação da CoolTrain Crew só teve a exceção de Johnny, que foi o impulsionador desse capítulo dois, convidando gente com o Riot ou Branko, que vieram a formar os Buraka Som Sistema e a Enchufada. “A separação nunca foi discutida. Aconteceu. Como já se disse, o coletivo era apenas uma das variáveis da vida de cada um. A partir de determinada altura, aquilo que nos havia feito reunir havia sido conquistado. O vírus do drum & bass havia sido disseminado. E cada um seguiu o seu percurso, como era desejo de cada um, com a música no seu centro. Eu continuei a ser DJ e a percorrer a boémia lisboeta. O Tiago Miranda continuou por múltiplos projetos como músico (Loosers, Gala Drop, Pop Dell Arte), editor, produtor (Tiago, TNT Subhead) e DJ. O Nuno Rosa também, tendo formado ao lado de Tiago, os Dezperados. O Dinis é ator, mas continua a sua ação como DJ, o mesmo sucedendo com Rui Murka, agente de nomes como DJ Ride, e sobra ainda o Vitor Belanciano, que é jornalista”, esclarece Johnny.

Esta “The Rebirth of Cool” no Lux é, por isso, muito aconselhável – só para não escrever “obrigatório”, mas agora já está. Quer seja na sua primeira ou segunda vida, quer seja em drum & bass ou em seus afluentes ou desvios, o que importa é aquilo que a CoolTrain fez pela noite lisboeta e nacional. “A CoolTrain pretendeu ser um impulsionador de vontades, um catalisador de coisas relevantes que estavam a acontecer em Lisboa mas que ainda tinham pouca visibilidade. Ou seja, por um lado é uma realidade concreta feita de DJs e pessoas que operam com a música, por outro é uma ideia que vai além desse mero grupo de pessoas. É nisso que acreditamos. O meio dos anos 90 foi uma época fundadora para a cultura de música de dança em Portugal. A CoolTrain teve aí um papel também. Por um lado, a noite do Lux pretende celebrar isso; por outro, trata-se de mostrar que existe uma continuidade em toda a história da música feita com ‘baixo & bateria’”, conclui Johnny. Devemos uma dança à CoolTrain Crew.

Mais informação sobre a noite Rebirth of the Cool no Lux aqui