Se a divisão interna no PSD nunca tinha estado propriamente escondida, as movimentações intensas dos últimos dias e, sobretudo, a reunião do Conselho Nacional desta quinta-feira apontam agora os holofotes todos para o problema que Rui Rio espera ver resolvido de vez.

Ao anúncio da candidatura de Montenegro, o presidente social-democrata respondeu com uma moção de confiança que será votada na reunião, agendada para quinta-feira às 17h00, no Porto. O presidente da Mesa do Congresso, Paulo Mota Pinto, já começou a delinear como serão os trabalhos do Conselho Nacional extraordinário que vai decidir a continuidade, ou não, da direção de Rui Rio. Como previsto, vão começar depois das cinco da tarde e haverá, sabe o Observador, uma pausa de cerca de uma hora para jantar. Uma novidade face a outros Conselhos Nacionais é que Mota Pinto vai definir uma hora limite para a votação para que esta ocorra até à meia-noite.

Paulo Mota Pinto continua sem abrir o jogo quanto à forma de votação da moção de confiança, numa altura em que já estão anunciados dois requerimentos: um para que a votação seja secreta; outro para que seja nominal, com os votos dos conselheiros a serem conhecidos um por um.

Apoiantes de Rio avançam com requerimento para votação nominal. Críticos ameaçam com recurso a tribunal

Certo é que será o presidente Rui Rio a fazer a primeira intervenção no início do Conselho Nacional, para apresentar a sua moção de confiança. Montenegro não tem assento no Conselho Nacional e, por isso, não irá falar aos conselheiros. Depois disso irão começar as inscrições com intervenções de ambos os lados da barricada.

Ao anúncio do confronto, em contrarrelógio e quase de forma automática, os líderes das distritais reuniram as tropas para as auscultar e perceber como iriam votar a moção. O mesmo aconteceu com vários conselheiros nacionais, que se desdobraram em contactos para decidirem em que sentido vão votar. Cada distrital teve o seu cenário particular. No fim deste rodopio frenético de contactos e encontros, há lideres de órgãos locais que vão votar sintonizados com a estrutura que lideram e outros que vão contrariar a vontade expressa pelas suas comissões políticas distritais.

No entretanto, ao mesmo tempo que Montenegro e os seus apoiantes se têm multiplicado em entrevistas e declarações públicas, Rui Rio – que também vai tendo apoiantes a falar –  recusa despir o fato de líder em funções e avisa que “não vai animar a comunicação social” com questões internas do PSD. A agenda dos últimos dias tem sido particularmente cheia de eventos, visitas a empresas e críticas ao governo.

Rio avisa que não vai “animar a comunicação social” com questões internas do PSD

A distrital de Malheiro e os críticos de Montenegro

Estas posições geram incertezas e baralham as contas que se vão fazendo dos dois lados. Nos últimos dias, houve várias distritais em discussões intensas sobre o momento que o partido vive e, mesmo nas mais pacificadas, houve mais do que uma versão sobre como decorreram os trabalhos. É o caso de Aveiro, cuja distrital é liderada pelo vice-presidente do PSD Salvador Malheiro. O também presidente da Câmara Municipal de Ovar emitiu esta terça-feira um comunicado, a que o Observador teve acesso, onde anunciava que, depois de uma reunião alargada da Comissão Política Distrital, havia um apoio claro à moção de confiança. Não será surpresa para ninguém que Malheiro vote favoravelmente o documento de apoio a Rio. Mas a nota que divulgou rapidamente foi contestada por líderes concelhios que estiveram presentes na reunião.

Ao jornal Expresso, o presidente da concelhia de Espinho, Vicente Pinto, considerou o documento “abusivo”, dizendo que se trata apenas da “perspetiva do presidente da distrital” mas não daquilo que realmente “se passou”. Uma crítica que foi corroborada pelo presidente da Câmara de Vagos e da concelhia local do PSD, Silvério Regalado, que entende que o objetivo do comunicado é o de “manipular o pensamento de algumas pessoas relativamente à opinião da maioria do distrito de Aveiro”.

Apesar das críticas dos dois autarcas, “a reunião foi calma e nada conflituosa“, diz ao Observador o presidente da concelhia de Vale de Cambra, João Carvalho, que esteve presente na reunião. “O comunicado reflete, de facto, o espírito da reunião. Foram apenas duas as intervenções de apoio a Luís Montenegro. E nem sequer foram de um apoio declarado, é preciso que se sublinhe isso. Foram duas mensagens para manifestar solidariedade”, matiza. No total, na reunião, houve pouco mais de dez intervenções. Excetuando as de Vicente Pinto e Silvério Regalado, todas foram pró-Rio.

Braga replica luta nacional: José Manuel Fernandes vs. Hugo Soares

O eurodeputado José Manuel Fernandes chegou à última reunião alargada da distrital de Braga, que aconteceu na sexta-feira, com uma posição predefinida. Sabe-se agora que vai apoiar Rio e a sua moção de confiança. Neste encontro, pretendia oficializar perante as estruturas locais o seu incontornável apoio ao líder eleito em janeiro de 2018. Isso não o impediu de ouvir os dirigentes e autarcas sociais-democratas da região, incluindo o apoiante mais acérrimo de Luís Montenegro, o deputado Hugo Soares.

Hugo Soares lembra que Rui Rio não tem exclusivo da escolha dos candidatos eleitorais

O líder da distrital bracarense catalogou o avanço do ex-líder parlamentar do PSD como um ato legítimo, embora tenha criticado o seu fundamento. “O PSD não pode estar refém da sondagemcracia, terá dito aos que o ouviam. “Se houver uma moção de censura será um autêntico golpe de estado”, acrescentou. Recorde-se que, à data, Montenegro já tinha feito o seu anúncio mas Rui Rio ainda não tinha anunciado que ia apresentar uma moção de confiança.

O apoio de José Manuel Fernandes a Rui Rio foi claro. Mas nem todos estavam com o líder do PSD de Braga. Hugo Soares pediu a palavra para defender Luís Montenegro e atacar o líder do partido. “Fiz o que tenho feito sempre: falei com liberdade e dei a minha opinião nos órgãos próprios do partido”, conta ao Observador. Mas o ex-líder da JSD foi mais longe e atacou o eurodeputado social-democrata por ter a decisão já tomada sem ter ouvido os militantes que o elegeram para o cargo. “Achei que não devia ter aparecido com a decisão fechada“, argumenta.

Os apoiantes de Rio presentes na reunião garantem que Hugo Soares fez uma espécie de ameaça a José Manuel Fernandes, avisando-o que a sua atitude “ia ter consequências”. Algo que nega de forma veemente. “Isso é uma mentira pegada. Não disse nada disso. Critiquei o líder do meu partido, disse que achava mal a distrital não ser ouvida mas não ameacei ninguém. Sou amigo do José Manuel Fernandes e nunca diria uma coisa dessas”, concluiu.

O deputado bracarense não foi o único a criticar a opção de José Manuel Fernandes e, consequentemente, o rumo seguido por Rui Rio à frente do PSD. A crítica veio de dentro da própria direção da distrital e de um cargo elevado na estrutura: João Granja, primeiro vice-presidente da distrital de Braga, que deixou duras críticas a Rui Rio, manifestou o seu apoio a Luís Montenegro e deixou em evidência que esta distrital não rema para o mesmo lado, terminando com uma crítica a José Manuel Fernandes por não ter tido em conta a divisão de opiniões na estrutura.

Braga surge assim como uma réplica quase a papel químico daquilo que é a divisão interna no partido a nível nacional. Há, no entanto, um fator sobre este distrito que as fontes ouvidas pelo Observador sublinharam. É que o conselheiro nacional Carlos Eduardo Reis, que liderou a segunda lista mais votada para o Conselho Nacional no congresso de fevereiro, também é de Braga. Mais concretamente de Barcelos. Ainda não assumiu o sentido de voto e garante que essa decisão só será tomada na noite desta quarta-feira. A influência que este social-democrata tem recai sobretudo sobre os membros que integraram a sua lista, mas ninguém põe de parte a possibilidade de poder vir a arrastar com ele o votos de outros conselheiros nacionais nortenhos.

As estruturas locais e os líderes desavindos

O pressuposto de ouvir as estruturas locais é também o de entender as suas dores. Mas na hora da decisão final, quem vota é o líder da distrital. Nada, além da eventual palavra de compromisso, veicula a posição maioritária de uma distrital ao sentido de voto do seu líder. Em particular se o voto for secreto. Isto é o que pode acontecer em Santarém. O líder João Moura reuniu a Comissão Política Distrital no sábado, dia 12, e voltou a promover um encontro, desta vez alargado, na segunda, 14. Em ambos os casos, o líder do PSD-Santarém encontrou um apoio maioritário a Rui Rio. Nessa reunião, a indicação que deu aos presidentes de câmara e aos presidentes de concelhias foi precisamente a de que ia viabilizar a moção de confiança.

Ainda assim, os opositores de Rui Rio acreditam que o apoio dado pelo presidente e pelo vice-presidente do PSD não condicionam totalmente João Moura. Um social-democrata conhecedor da estrutura de Santarém, que não quis ser identificado diz, no entanto, que “independentemente do facto de a votação ser de braço no ar ou secreta, ele vai votar contra”. Até porque a influência de Miguel Relvas na sua eleição ainda terá sido considerável. O ex-ministro de Passos apoiou Santana Lopes nas diretas do ano passado e é assumido apoiante de Montenegro.

Vem aí a contagem de espingardas. Quem tem voto na batalha do ‘impeachment’ de Rio?

Pode vir a ser uma das surpresas da noite, mas para já João Moura não é, para os apoiantes de Rui Rio, um voto a menos. Inicialmente ligado à onda conspirativa, uma associação entretanto desmentida pelo próprio, o líder da distrital de Santarém tem tentado manter-se discreto nesta guerra. O Observador sabe que, nas reuniões que manteve com a estrutura que lidera, Moura aconselhou aos presentes nos encontros que, independentemente do lado que apoiem, não manifestem publicamente a sua preferência.

O cenário de ter um líder a votar de forma contrária à tendência maioritária da sua distrital pode vir a ser verificado em Coimbra. “Se o voto for secreto, Maurício Marques votará de uma forma, se não o for vota de outra”, garante ao Observador um antigo apoiante de Santana Lopes e atual crítico de Rui Rio, que tem ajudado nas contas de mercearia daqueles que pedem a queda do presidente do partido. O Observador tentou contactar o líder da distrital da cidade dos estudantes para o confrontar com esta previsão, mas até ao momento não obteve respostas.

Também em Faro e em Viana do Castelo, conforme avançou o Expresso esta terça-feira, os líderes das distritais pareciam mais inclinados para votar contra a moção de censura, mas aquilo que encontraram nas reuniões que mantiveram com as suas estruturas foi uma maioria pró-Rio. Algo que pode fazer estes dois votos passar para o outro lado da balança. Independentemente disso, assegura um apoiante de Rui Rio ao Observador, estas pequenas conquistas de votos não podem ser entendidas como apoios convictos. “Esta moção de confiança não pode deixar de obrigar o líder a fazer uma reflexão sobre a sua estratégia”.

O excel que não é a praia de Montenegro e os deputados que não querem chegar à guerra depois de ela fechar

O voto de Bruno Vitorino é o voto de Setúbal

Caso diferente é o de Setúbal. “Não houve propriamente uma reunião formal, foi um convívio que se tornou em trabalho”, começa por explicar ao Observador o deputado Bruno Vitorino, líder da distrital setubalense. O dirigente social-democrata tem evitado revelar publicamente em quem vai votar, embora todas as posições que tem assumido desde que Rui Rio é lider do partido o coloquem mais próximo dos opositores do que do lado dos apoiantes. O mais recente exemplo foi o facto de ter pedido a demissão de Salvador Malheiro depois de o vice-presidente do PSD ter chamado “azelha” a Luís Campos Ferreira, na sequência de uma entrevista em que o ex-deputado criticava o presidente laranja.

Líder do PSD/Setúbal pede demissão de Salvador Malheiro por “mandar bocas arrogantes”

No entanto, recusa que estas posições insinuem o que quer que seja sobre o seu sentido de voto. “As minhas afirmações colocam-me como alguém que gosta muito do PSD e que está preocupado com o seu futuro”. Nesse sentido, entende que uma “clarificação é importante, porque todos já tinham percebido que o momento político não era bom”.

O voto, defende, deve ser secreto. “Por uma questão de respeito pela liberdade dos conselheiros nacionais e de princípio, até porque acredito que o PSD ainda é um partido democrático”, avançou. Apesar de assumir uma postura crítica perante a estratégia seguida pelo líder do PSD e de fazer elogios a Luís Montenegro, que considera ter tido “coragem ao anunciar que estava disponível para avançar“, recusa dar mais detalhes. “Não vou revelar para já o meu sentido de voto, mas a minha comissão política deu-me liberdade para votar como entender”, assegurou.