Escolas

Em Beja e Faro, uma em cada cinco crianças chumba no primeiro ciclo

Os dados mais recentes (de 2013 a 2017) até são melhores do que os de ciclos letivos anteriores, onde um em cada quatro alunos chumbava no 1º ciclo. Em Braga acontece o contrário: 9 em cada 10 passam.

Os dados referentes à inclusão social dos alunos passarão este ano a desempenhar um papel chave na forma como as escolas e o sucesso escolar são avaliados

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Os dados surgem num novo indicador estatístico apresentado pelo Ministério da Educação no portal Info Escolas e são suscetíveis de causar preocupação: nos distritos de Faro e Beja, só 78% dos alunos que entraram no primeiro ciclo no ano letivo 2013/2014 concluíram o ensino básico sem chumbar nenhum ano. São os distritos com maior percentagem de retenções.

Os dados, avançados na edição desta quinta-feira do Público e confirmados pelo Observador,  referem-se aos alunos cujos quatro primeiros anos de escolaridade aconteceram entre esse ano letivo 2013/2014 e o ano 2016/2017 — o período temporal mais recente apresentado no portal online. Traduzidos, significam que dos alunos que frequentaram o primeiro ciclo em escolas de Faro e Beja nesses quatro anos, apenas 22%, um em cada cinco conseguiu completar o ensino básico sem qualquer chumbo.

Nos anos anteriores, os dados nestes distritos eram ainda piores: em Faro, quer entre 2011/2012 e 2014/2015 quer entre 2012/2013 e 2015/2016 apenas um em cada quatro alunos (75%) conseguiu completar os quatro anos sem retenções. Em Beja, o mesmo valor regista-se entre os anos letivos 2014/2015.

No primeiro ciclo, só é possível reter um aluno entre o 2º e o 4º anos. Ou seja, o primeiro ano do ensino básico está imune a retenções.

O Ministério da Educação passará a avaliar as escolas dando um peso diferente a indicadores como as notas, a taxa de retenções e o perfil socioeconómico dos alunos que as frequentam (@ Hugo Amaral/OBSERVADOR)

Quando o Ministério de Educação compara os alunos das escolas destes dois distritos com alunos com o mesmo perfil socioeconómico, mesmo aí os dados apontam para insucesso escolar superior à média. Entre 2013 e 2017, em todo o país, a taxa de chumbos de alunos de escolas portuguesas que têm um perfil socioeconómico semelhante aos alunos de Beja é de 17% — um valor inferior aos 22% registados nas escolas do distrito. Em Faro, a média de retenções também é superior à média nacional de alunos com um perfil socioeconómico semelhante aos que frequentaram as escolas do distrito algarvio. Com esse perfil, registaram-se chumbos durante o primeiro ciclo de 16% dos alunos, entre 2013 e 2017, um valor significativamente inferior aos 22% de retenções registados em escolas de Faro.

No pólo oposto (de sucesso escolar) encontram-se as escolas do distrito de Braga, refere o jornal Público, onde 89% dos alunos inscritos no primeiro ciclo em 2013 concluíram-no sem retenções em 2017, tendo 11% — aproximadamente um em cada dez — chumbado pelo menos um ano. O valor é superior ao da média nacional do país em alunos com perfis socioeconómicos semelhantes, já que em Portugal, no mesmo período, registou-se uma taxa média de 16% de retenções em alunos com este perfil, face aos 11% registados nos distritos de Braga.

A Direcção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) e o Ministério da Educação dão uma grande importância à influência do contexto socioeconómico dos alunos no sucesso escolar registado pelas escolas. Esta quarta-feira, 16 de janeiro, soube-se que a inclusão passará a ser um indicador chave para avaliar a qualidade das escolas. A informação foi reforçada com declarações do secretário de Estado da Educação, João Costa, que disse que os rankings “não dizem rigorosamente nada” sobre a qualidade das escolas já que algumas “premeiam práticas de retenção para os alunos nem sequer chegarem aos exames”, “premeiam práticas de seleção de alunos à entrada” e “dizem muito mais sobre a condição socioeconómica dos alunos, e sobre o contexto em que a escola está inserida, do que propriamente sobre o trabalho que é feito na escola”.

Outra alteração na avaliação das escolas, que deverá entrar em vigor em maio, passará pelo alargamento de uma avaliação que inclua a inclusão social como elemento nevrálgico em escolas privadas com financiamento do Estado e em escolas de ensino profissional.

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...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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