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O PCP está pronto para ir a jogo e já deu o tiro de partida para a corrida ao Parlamento Europeu. Na apresentação oficial de João Ferreira como cabeça de lista da CDU, que aconteceu esta tarde, no Teatro Capitólio, em Lisboa, a coligação quis dar um primeiro sinal de força e falou diretamente para o eleitorado de esquerda. Num discurso em que criticou fortemente a União Europeia e as suas instituições, que tornaram “as políticas da troika em doutrina”, João Ferreira apresentou o programa com que vai a votos e reafirmou que a CDU é contra o Tratado Orçamental, contra o Euro, contra as imposições dos Programas de Estabilidade, a NATO, o militarismo e o mercado único. Mas a favor de uma “outra Europa”.

Apesar de todas estas oposições, desengane-se quem acreditar que a coligação se apresenta como uma força anti-europeísta. “Para a CDU, a alternativa à União Europeia não é a autarcia, o isolamento. Muito pelo contrário, são novas formas de cooperação na Europa, baseadas na soberania e na igualdade de direitos dos Estados, orientadas para o desenvolvimento social e económico, para a reciprocidade de vantagens, para a promoção dos valores da paz e da solidariedade”, adiantou. No fundo, uma outra Europa, diferente daquela defendida e promovida “por PS, PSD e CDS”. “As águas estão bem separadas”, considerou.

A sala lisboeta revelou-se pequena para o número de pessoas que esta tarde quiseram assistir à apresentação oficial do cabeça-de-lista da CDU às eleições europeias de maio. Muitas dezenas tiveram de assistir de pé no exterior do recinto a mais de uma hora de discursos – repartidos entre Heloísa Apolónia, do PEV, Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, e o próprio candidato, o protagonista da festa, João Ferreira. De todos, foi o eurodeputado que gerou reações mais entusiastas e que agarrou a atenção de toda a sala.

Fazendo uma defesa do trabalho que os representantes da CDU no Parlamento Europeu fizeram nos últimos cinco anos, o também vereador da Câmara Municipal de Lisboa fez questão de voltar a colar o PS à direita. Além de ter colado os socialistas ao PSD e ao CDS fez uma referência indireta ao Aliança definindo o novo partido como uma força política “igualmente velha, mas com novos embrulhos”, embora nunca tenha nomeado o partido de Santana Lopes.

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O Bloco de Esquerda, como já vem sendo tradição, também não mereceu qualquer referência. Para a CDU, falar de esquerda é falar de PCP e PEV. Exemplo disso foram as várias referências que João Ferreira fez à situação nacional, para colher os louros dos avanços da “geringonça” e para criticar as restrições “do governo minoritário do PS”.

Aliás, sobre esta experiência governativa, João Ferreira retirou e anunciou três conclusões: a primeira conclusão “é a de que foi ao arrepio das orientações da União Europeia que se registaram avanços”. Para isso, defende, é necessário “nunca esquecer que várias medidas foram alvo de críticas, de ameaças e de tentativas de bloqueio por parte da União Europeia” A segunda conclusão “é a de que, apesar disso, as políticas, as orientações e as imposições da União Europeia, especialmente as associadas ao Euro, estão a entravar a resposta a problemas estruturais do País e as justas aspirações da população”. A terceira é a de que é necessário que haja “uma mudança de fundo na política nacional, que exige confrontar e enfrentar as políticas e as imposições da União Europeia”.

Num ano de eleições legislativa e europeias, o candidato da CDU alertou ainda para o perigo das fake news – a que chamou “falsos dilemas” -, e deu uma autêntica aula sobre aquilo que o PCP, em particular, pensa da Europa e da integração de Portugal no projeto europeu.

Nos seus discursos, Jerónimo de Sousa e Heloísa Apolónia elogiaram amplamente o trabalho do eurodeputado, apresentaram-no como sendo “a melhor escolha” e fizeram apelos ao voto na CDU, pedindo um reforço de mandatos, colocando assim as ambições lá no topo.