No final da temporada 2013/14, Helena Costa foi escolhida para treinar a equipa de futebol do Clermont Foot, da 2.ª divisão francesa. E caso tenha relido a frase anterior e pensado que falta uma palavra, sim: a treinadora portuguesa foi contratada para orientar uma equipa de futebol masculino. A história teve eco em Portugal, mas também no resto da Europa, já que Helena Costa era a primeira mulher a treinar uma equipa francesa profissional e também a primeira a orientar uma equipa da 1.ª ou 2.ª divisão das principais ligas europeias.

O negócio acabou por cair. Em junho de 2014, Helena Costa demitiu-se e acusou o clube francês de “total amadorismo” e “falta de respeito” depois de o presidente do Clermont Foot ter contratado vários jogadores sem a consultar e afirmou que é “treinadora e não uma jogada de marketing”. Atualmente, a treinadora portuguesa faz parte do departamento de scouting do Eintracht Frankfurt, cargo que já tinha exercido no Celtic em anos anteriores. A ida de Helena Costa para França, ainda que não se tenha concretizado, colocou Portugal e a Europa a pensar na possibilidade de uma mulher treinar uma equipa de homens.

Na Alemanha, o inédito passo pioneiro aconteceu no passado mês de dezembro. Imke Wübbenhorst, antiga jogadora que chegou a ser internacional pelas sub-19 da seleção alemã — e integrou a equipa que se sagrou campeã da Europa da categoria em 2006 —, assumiu no final do ano o comando técnico da equipa masculina do BV Cloppenburg, que alinha no quinto escalão do futebol alemão. Depois de representar o clube enquanto jogadora e de ter orientado a equipa feminina na época passada, Wübbenhorst foi a escolhida para substituir Olaf Blanke, que se mudou para o rival direto Delmenhorst.

Ora, tal como aconteceu em 2013 com Helena Costa, Imke Wübbenhorst foi alvo de uma atenção desmedida por parte da comunicação social alemã, desportiva e não só — a verdade é que a treinadora é a primeira mulher a orientar uma equipa masculina num escalão tão elevado na Alemanha. Entre entrevistas menos ou mais monótonas, menos ou mais interventivas, surgiu uma que foi simplesmente insólita. Na semana passada, em conversa com o jornal Die Welt, a treinadora foi questionada sobre se grita ou avisa de alguma forma os jogadores de que está prestes a entrar no balneário, “para que estes tenham tempo de se vestir”, argumentou o jornalista. Incomodada com a pergunta, Wübbenhorst respondeu de forma irónica: “Claro que não. Sou uma profissional. Escolho a minha equipa com base no tamanho do pénis”.

O diálogo publicado no Die Welt ganhou relevância nacional e internacional de forma quase imediata e está a ser interpretado como uma prova de que, mesmo com a entrada das mulheres num mundo considerado de homens, certos preconceitos continuam a existir. Noutra entrevista, a alemã de 30 anos comentou o assunto e contou ainda outra história, em que um dos adjuntos que encontrou no BV Cloppenburg — e que fazia parte da equipa técnica anterior — se recusou a preparar o treino por não querer “espalhar cones para uma mulher”. “Foi uma decisão fácil deixar de olhar para o género quando é hora de contratar alguém. Só olhamos para a qualidade”, explicou, garantindo que o mais provável é que a equipa técnica do clube integre mais mulheres se estas se mostrarem mais qualificadas para as funções requeridas.

O caso de Imke Wübbenhorst recorda um outro, de novembro, quando o jornalista Tim Struby decidiu escrever um longo artigo sobre a presença de mulheres nos bancos técnicos de equipas da NBA para o site SB Nation. O jornalista falou com treinadoras e treinadores, jogadoras e jogadores e tentou desenhar um retrato da forma como uma mulher vê o facto de treinar homens e da maneira como esses homens percecionam ser orientados por mulheres. Entre as qualidades e as virtudes, os pontos positivos e os benefícios, Tim Struby tropeçou nos problemas. E percebeu que a presença de mulheres nos bancos técnicos das equipas da NBA não é assim tão consensual nem tão descomplicada. À conversa com um veterano treinador de basquetebol que não quis dar a cara, o jornalista entendeu que o tópico do assédio sexual e da sexualização das treinadoras assistentes ainda é uma questão premente.

“Não pode haver uma treinador bonita, os jogadores iam passar a vida a tentar dormir com ela. A NBA continua a ser um ecossistema muito sexista. Já ouvi como os jogadores falam das mulheres. Tenho uma filha e, às vezes, sinto-me constrangido. Mas não é algo de agora, não é algo que tenha piorado com o passar do tempo. A sociedade sempre teve homens com problemas com trabalhar com mulheres e muitos jogadores teriam problemas com isso”, disse aquele que será o treinador de uma das principais equipas da NBA.