“O Culpado”

Asger Holm, um polícia de serviço no turno noturno do equivalente dinamarquês do nosso 112, recebe uma chamada de socorro de uma mulher que foi raptada pelo ex-marido e está em movimento numa carrinha, algures em Copenhaga. Apesar de não poder deixar o seu posto, Jakob vai fazer tudo o que está à sua mão, e inclusive quebrar algumas regras, para a conseguir salvar e acudir aos seus dois filhos ainda pequenos que ficaram abandonados em casa. Só que o caso tem contornos ainda mais graves e complexos do que parece à primeira vista, tal como a presença do polícia naquele posto não é apenas fruto de uma rotina profissional. Selecionado pela Academia de Hollywood para representar a Dinamarca como candidato ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, este filme que assinala a estreia de Gustav Moller na realização nunca sai do mesmo sítio e nunca abandona a sua personagem principal (estupendo trabalho de Jakob Cedergren), mas consegue instalar uma expectativa dramática, um clima de crescente angústia e uma tensão emocional e psicológica, de roer as unhas até ao sabugo. Se quer ver um sólido, cerrado e surpreendente filme de “suspense”, não precisa de ir mais longe. Os americanos, que não perdem uma, já estão a preparar um “remake” de “O Culpado”, com Jake Gyllenhaal no papel principal.

“Maria, Rainha da Escócia”

Esta fita sobre o conflito político e religioso entre a protestante Isabel I de Inglaterra e a sua prima católica Maria da Escócia, que acabaria com o encarceramento e a decapitação desta, é um exemplo tão sinistro quanto absurdo da aplicação ao cinema histórico da agenda politicamente correta agora em voga. Assim, em nome da “diversidade”, na Inglaterra do século XVI há negros entre os nobres escoceses e os membros do Conselho de Estado de Isabel I, que tem uma aia asiática. Como há ainda que satisfazer o lóbi LGBTQ, arranja-se um trovador italiano “gay” para o séquito da rainha Maria, que é barbaramente assassinado pelos homofóbicos senhores escoceses. E o #metoo não pode ficar de fora, logo, Isabel e Maria, duas das rainhas mais poderosas da história da monarquia britânica, são transformadas numas frágeis coitadas que até nem são inimigas, mas se veem manipuladas e iludidas pelos homens que as rodeiam. Como se toda esta grosseira falsificação da História não bastasse, a realizadora, Josie Rourke, vinda do teatro, não tem a menor noção do que significa fazer um filme, Saoirse Ronan e Margot Robbie andam perdidas nos dois papéis principais e “Maria, Rainha da Escócia” resulta num disforme, pesado e chatíssimo pastelão. Recomenda-se, como antídoto, e com o mesmo tema, “Duas Rainhas”, realizado em 1971 por Charles Jarrott e interpretado por Vanessa Redgrave e Glenda Jackson.

“Glass”

Depois de “O Protegido” (2000) e de “Fragmentado” (2016), M. Night Shyamalan encerra aqui a sua trilogia de super-heróis alternativos. “Glass” pega onde “Fragmentado” largou, com David Dunn (Bruce Willis), que entretanto se tornou num justiceiro urbano com a ajuda do filho, agora crescido, a tentar encontrar Kevin, o homem das 23 personalidades (James McAvoy), que através da mais dominante e perigosa, A Besta, raptou quatro raparigas adolescentes. Dunn consegue descobrir o seu esconderijo, libertar as prisioneiras e subjugar A Besta, mas acabam ambos por ser capturados pela polícia e, por coincidência, internados no hospital psiquiátrico onde se encontra também, há muitos anos, o vilão Elijah Price/Mr. Glass (Samuel L. Jackson), perito em “comics” de super-heróis e assassino de massas amoral. Lá, o trio é submetido ao escrutínio da Dra. Ellie Staple (Sarah Paulson), uma psiquiatra empertigada e inabalavelmente racional, especializada em, tratar pessoas com ilusões de grandeza, que julgam ter poderes especiais e ser super-heróis (ou super-vilões). Para ela, Dunn, Kevin e Mr. Glass não passam de megalómanos auto-iludidos. “Glass” foi escolhido como filme da semana pelo Observador, e pode ler a crítica aqui.