Primeira Liga NOS

A vitória chegou por feeling. Mas o feeling também dá trabalho (a crónica do V. Guimarães-Benfica)

Samaris sentiu problemas, Conti teve falhas, Castillo passou ao lado. O individual não foi brilhante, o coletivo continua a brilhar. V. Guimarães fez tudo, Benfica ficou com o resto. E ganhou (1-0).

Gabriel teve uma bola de génio a virar o jogo para André Almeida, lateral assistiu e Seferovic fez o golo que deu a vitória ao Benfica

HUGO DELGADO/LUSA

“Muito bom ver-te de volta, Manecas”. Mais de dois meses depois, Samaris voltou a ser utilizado no Benfica. Outrora peça fulcral dos encarnados, o grego que está em final de contrato desceu ao terceiro lugar da hierarquia dos jogadores utilizados à frente da defesa com a chegada de Alfa Semedo e andou a ver o seu nome dia-sim-dia-não na porta de saída. Na última terça-feira, houve “futebol”. Que é como quem diz houve imprevisibilidade, momento e presença no momento certo à hora certa. O azar de Fejsa foi a “sorte” do helénico, que rendeu o sérvio ao intervalo para segurar a vantagem pela margem mínima em Guimarães para a Taça de Portugal. Jogou 45 minutos, assinalados por Luisão no Instagram com a frase supracitada, e ganhou lugar no onze.

Aquilo que muitas vezes é descrito de forma sucinta como “troca por troca” ou “entra A, sai B” atira para uma simplicidade que, na verdade, nunca existe. Cada peça é mais do que uma peça. Tem características únicas, ganha uma vida própria durante o jogo. E se Samaris não é propriamente um Fejsa a nível de posicionamentos e compensações, também é diferente na agressividade sobre o portador e na intensidade de pressão. Uma coisa á certa: o sucesso ou insucesso do Benfica em Guimarães iria passar e muito pelo rendimento do grego, até por pisar os mesmos terrenos de uma das novidades de Luís Castro, André André, e por ter em algumas ocasiões os movimentos mais interiores de Tozé, outro dos regressos. Aliás, foi por isso que Gabriel esteve mais vezes em linha com o grego no meio-campo do que costuma fazer com Fejsa, onde joga mais à frente. Mas se há aspeto que se destaca neste “novo Benfica” é a forma como o brasileiro também ganhou vida própria com o sistema.

Não foi uma tarefa fácil. Nem para Samaris, nem para Gabriel. Aliás, para o primeiro até foi correndo da pior forma, com alguns problemas a nível de primeira fase de construção e apenas dois duelos ganhos nos primeiros dez que teve. No entanto, não esteve sozinho. Esta noite em Guimarães houve o “Manecas”, houve o Gabriel, houve o André, houve o João. Bruno Lage falou esta semana na construção de uma identidade no Benfica, assente num novo modelo de jogo com diferenças táticas e conceptuais, mas essa mesma ideia só traz frutos pelo espírito de entrega, entreajuda e sacrifício de uma equipa que aceitou os momentos em que teve de sofrer sem bola, acreditou que podia chegar ao golo sem abdicar dos dois médios centro sem tanta capacidade de levar a bola até às unidades ofensivas (como Pizzi faria) e ganhou a aposta com um golo de Seferovic aos 81′. Os encarnados estão mais fortes na defesa e nas transições, não sofrem golos e permitem menos oportunidades; depois, é feeling.

Ficha de jogo

V. Guimarães-Benfica, 0-1

18.ª jornada da Primeira Liga

Estádio Dom Afonso Henriques, em Guimarães

Árbitro: Tiago Martins (AF Lisboa)

V. Guimarães: Douglas; Sacko, Osório, Pedro Henrique, Rafa Soares; Wakaso, Joseph (João Carlos Teixeira, 69′); Tozé, André André (Ola John, 85′), Davidson e Guedes (Welthon, 58′)

Suplentes não utilizados: Miguel Silva, Florent, Frederico Venâncio e Mattheus Oliveira

Treinador: Luís Castro

Benfica: Vlachodimos; André Almeida, Jardel, Conti, Grimaldo; Samaris, Gabriel, Pizzi (Rafa, 62′), Cervi; João Félix (Gedson Fernandes, 90+1′) e Castillo (Seferovic, 71′)

Suplentes não utilizados: Svilar, Alfa Semedo, Zivkovic e Salvio

Treinador: Bruno Lage

Golo: Seferovic (85′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Conti (50′), Sacko (70′), Rafa Soares (77′), André André (84′), André Almeida (84′) e Wakaso (90+5′)

Samaris não foi a única novidade de Bruno Lage. Aliás, nem sequer foi a maior. A entrada de Conti para o lugar do castigado Rúben Dias era esperada, a troca de Cervi por Zivkovic era possível mas a aposta em Castillo na frente de ataque em vez de Seferovic acabou por ser a grande surpresa no onze inicial – e o chileno que parecia ter guia de marcha neste mercado de inverno face à pouca utilização já não entrava num onze inicial há cinco meses. Do lado do V. Guimarães, dois regressos importantes para a estratégia de Luís Castro: André André e Tozé, jogadores que têm feito a diferença também nos jogos com os “grandes”. Se o Benfica procura ainda a melhor identidade num novo modelo com Bruno Lage, os minhotos sabem o que querem do jogo desde setembro, quando começaram a subir de rendimento com Luís Castro. Desta vez, o arranque começou morno.

Até à meia hora, houve apenas dois lances de relativo perigo junto das balizas, ambos para os encarnados: primeiro foi João Félix, a receber de André Almeida que subiu para criar superioridade e a rematar para defesa segura (12′); depois foi Pizzi, na sequência de uma boa recuperação com saída rápida até à tentativa de meia distância para desvio do brasileiro para canto (27′). Os visitados até tiveram uma ligeira vantagem na posse de bola mas o Benfica foi conseguindo ter transições mais objetivas rumo ao último terço. Nesse momento, Douglas teve um choque na área e acabou por ficar caído, num momento aproveitado por ambos os treinadores para chamarem Joseph e João Félix ao banco e fazerem algumas correções em termos posicionais.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do V. Guimarães-Benfica em vídeo]

Coincidência ou não, o melhor de Benfica e V. Guimarães saiu nesse período até ao intervalo: os encarnados encontraram aí a melhor fase para conseguirem trocar bola em velocidade no último terço adversário, ganhando alguns cantos e tendo uma chance flagrante quando Castillo rematou na área mas Osorio, abnegado, desviou pela linha de fundo num carrinho sempre arriscado (41′); os minhotos ganharam a superioridade que lhes falhava à entrada da área e foram testando a meia distância na sequência de segundas bolas que caíram na terra de ninguém por André André (36′, por cima) e Tozé (44′, defesa de Vlachodimos). Nos descontos, e na melhor jogada dos visitados no primeiro tempo, Sacko conseguiu ver a diagonal de Alexandre Guedes na zona entre central e lateral mas o remate de avançado foi de novo travado pelo guarda-redes grego (45+1′).

O segundo tempo começou com características de jogo parecidas mas uma nuance em termos de evolução do jogo: empurrado por uma massa adeptos que voltou a dar show nas bancadas, o V. Guimarães aproveitou a incapacidade do Benfica no corredor central, sobretudo a nível de construção, e foi assumindo mais jogo no meio-campo contrário ainda que sem criar as chances para visar a baliza de Vlachodimos. Luís Castro lançou Welthon no lugar de Guedes, Bruno Lage respondeu com Rafa em vez de Pizzi na direita mas os problemas dos dois conjuntos para encontrar alternativas para visar a baliza continuavam sem solução à vista – a ponto de não ter havido sequer um remate enquadrado na primeira meia hora da segunda parte.

Os técnicos voltaram entretanto a mexer. O V. Guimarães parecia querer mais, abdicando de Joseph pela criatividade de João Carlos Teixeira; já o Benfica queria sobretudo melhor, com Seferovic a render Castillo que, em mais de 70 minutos, conseguiu apenas uma vez combinar com o endiabrado João Félix. E a posse sem baliza dos visitados acabou mesmo por ser castigada pela eficácia dos encarnados: num lance que começa com um grande passe de Gabriel a rasgar a defesa contrária, André Almeida fez mais uma assistência (sexta de bola corrida, o recorde no Campeonato a par de Pizzi) e o suíço só teve de encostar ao segundo poste para o 1-0 (81′). Foi a ferros mas o conjunto de Bruno Lage somou mais um triunfo, o quarto consecutivo, que acaba por premiar o killer instinct de uma equipa que teve a humildade para sofrer antes de conseguir dar a estocada final.

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