Angola

Tailandês julgado em Angola diz que cheque de 50 mil milhões de dólares é verdadeiro

Raveeroj Ritchchoteanan, arguido no caso da burla que começou a ser julgada na quinta-feira, diz que cheque apresentado ao Estado é verdadeiro. Arguido tailandês está detido desde fevereiro em Luanda.

A próxima sessão está marcada para terça-feira, com continuação da audição do réu Raveeroj Rithchoteanan, em instância da defesa

AMPE ROGÉRIO/LUSA

Autor
  • Agência Lusa

O arguido tailandês Raveeroj Ritchchoteanan, presidente da empresa que pretendia investir em Angola 50 mil milhões de dólares, afirmou esta sexta-feira, num tribunal em Luanda, que o cheque apresentado ao Estado angolano é verdadeiro.

Raveeroj Ritchchoteanan, o presidente do Conselho de Administração da empresa Centennial Energy Thailand, detido em Luanda em fevereiro de 2018 começou a ser julgado, na quinta-feira, com outros nove arguidos, três dos quais seus compatriotas, quatro angolanos, um eritreu e um canadiano, pela alegada tentativa de burla ao Estado angolano.

Na sessão desta sexta-feira, em que estava prevista a audição de Raveeroj Ritchchoteanan e da sua mulher, a ré Monthita Pribwai, igualmente de nacionalidade tailandesa, terminou apenas com as suas declarações, respondendo ao longo de seis horas às perguntas dos juízes e do representante do Ministério Público.

Por não falar português, o réu respondeu as questões em inglês, que eram traduzidas para o juiz, mas as dificuldades apresentadas pelo primeiro intérprete obrigaram a que o magistrado o substituísse, o que também contribuiu para a longa sessão de julgamento.

O réu, de 52 anos, disse que veio a Angola convidado pelo cidadão canadiano Pierre René, prófugo, que em 2017 se deslocou a Banguecoque, Tailândia, propondo-lhe que fosse investir no país africano, com muitas oportunidades de negócios.

Segundo o réu, Pierre René contou-lhe que era natural dos Camarões, que tinha vivido um ano em Angola e viajado pelo país inteiro, tendo constatado que precisava de investimentos em projetos sociais, nomeadamente nas áreas da saúde, educação, habitação, entre outras.

O arguido explicou ainda que Pierre René lhe disse que um cidadão angolano, cujo nome não revelou, lhe solicitou que arranjasse pessoas interessadas em investir em Angola, acrescentando que o país tinha realizado eleições e o novo Presidente, João Lourenço, havia feito promessas de construção de infraestruturas para melhorar as condições de vida da população.

De acordo com Raveeroj Ritchchoteanan, naquela altura chegou a questionar Pierre René sobre como tinha chegado até ele, tendo este respondido que tinha sido por intermédio de um banqueiro.

Instado pelo juiz a explicar a existência de dois cheques no processo, um no valor de 50,2 mil milhões de dólares (44,1 mil milhões de euros) e o segundo de 50 mil milhões de dólares (quase 44 mil milhões de euros), o réu explicou que o primeiro foi emitido, por exigência de Pierre René, para fazer prova da sua capacidade financeira e o segundo para investimento em Angola.

Em contrapartida, como contou o réu, exigiu ao empresário canadiano que lhe apresentasse uma carta-convite do Estado angolano, sobre a sua pretensão de que fosse investir em Angola, salientando que, ainda em Banguecoque, Pierre René lhe apresentou duas cartas, uma do Fundo de Apoio Social (FAS) e outra da Unidade Técnica Para o Investimento Privado (UTIP), cujo ex-presidente, Ernesto Norberto Garcia, é igualmente réu neste julgamento.

Em Angola, Raveeroj Ritthchoteanan disse que conheceu, em novembro de 2017, altura em que chegou ao país, a ré Celeste de Brito, empresária angolana, descrita na acusação do Ministério Público como colega e amiga de Pierre René e o elo de ligação do grupo às autoridades angolanas, e também Norberto Garcia e o general José Arsénio — ambos em prisão domiciliária –, bem como o cidadão eritreu Million Isaac Haile, detido há quase um ano.

Nas suas declarações, o réu adiantou que já em Angola, por razões de segurança, tendo em conta o elevado valor do cheque que trazia, abriu uma conta no Banco de Negócios Internacional (BNI), que mais tarde veio a ser suspensa por invalidade do visto de permanência no país e pela falta de certificado da empresa que criou.

Questionado pelo juiz se a quantia de 50 mil milhões de dólares deveria ser transferida para a conta que abriu no BNI, o arguido negou categoricamente, afirmando que o banco angolano não tem capacidade financeira para essa quantia.

Sobre uma carta do BNI, em que dá conta de que o Banco das Filipinas não confirma a autenticidade do cheque, Raveeroj Rithchoteanan também não reconhece autenticidade à mesma, por se tratar de uma cópia e não o original, considerando-a “inaceitável”. O réu chegou mesmo a questionar em audiência por que razão o BNI o quer acusar e criar problemas, reafirmando que aquele documento não é aceitável.

Relativamente ao cheque no valor de 99 mil milhões de dólares (87 mil milhões de euros) encontrados no quarto do hotel, na altura da detenção do grupo, Raveeroj Rithchoteanan confirmou que é seu e que se destinava a investimentos em outros países.

Além de Raveeroj Rithchoteanan, estão a ser julgados os réus Monthita Pribwai, 28 anos; Manin Wantchanon, 25 anos; Theera Buanpeng, 29 anos, todos tailandeses, detidos há quase um ano; Celeste de Brito, 45 anos; Christian de Lemos, 49 anos, angolanos, igualmente detidos; Norberto Garcia, 51 anos, ex-diretor da UTIP e antigo porta-voz do MPLA, partido no poder, José Arsénio, 62 anos, general das Forças Armadas Angolanas, ambos em prisão domiciliária; o eritreu Million Usaac Haile, 29 anos, também detido, e o canadiano André Louis Roy, 65 anos, que responde em liberdade.

A próxima sessão está marcada para terça-feira, com continuação da audição do réu Raveeroj Rithchoteanan, em instância da defesa.

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