Ao longo dos 12 anos em que representou o Manchester United, entre 2002 e 2014, Rio Ferdinand nunca foi propriamente alguém capaz de gerar unanimidade na crítica. Quando chegou a Old Trafford por 46 milhões de euros vindo do Leeds United (que dois anos antes pagara menos de metade pelo seu passe ao West Ham), naquela que foi a transferência mais cara na Premier League, era visto como um jogador demasiado caro; depois, quando já se tinha sagrado campeão europeu e mundial pelos red devils, era tido como um central que cometia erros proibidos; por fim, com 14 títulos alcançados e a braçadeira de capitão, era um defesa sem as características necessárias para o futebol que entretanto tinha evoluído. Hoje, com a devida distância temporal, há essa percepção transversal de que foi de facto um dos grande símbolos da seleção inglesa nas últimas décadas. E, em paralelo, tornou-se uma figura unânime com uma difícil história de vida onde tem superado revés atrás de revés.

“Quantas Guinness era capaz de beber numa boa noite? Costumava passar a marca quando era mais novo, era capaz de beber oito, nove, dez pints… E depois passava para os vodkas. Era capaz de estar o dia todo a beber, depois acordava e voltava ao mesmo quando era mais novo. Digo sempre às pessoas que me perguntam se me arrependo de alguma coisa no futebol que não teria bebido álcool”, admitiu em entrevista ao The Guardian sobre os primeiros tempos de carreira. “Havia uma cultura diferente, de loucos. No West Ham havia a cultura de beber depois dos jogos. Futebol, álcool, discotecas. Tenho algumas lacunas dessa altura, perguntam-me sobre alguns jogos e resultados e nem me consigo lembrar”, acrescentou, numa rotina que deixou cair em Manchester. “Aí não fazia isso durante a época mas nas férias eram duas semanas a beber”, admitiu.

“Sei que tive sorte, tinha condições naturais que me permitiram passar esse período da minha vida. Cheguei a um ponto onde tive de tomar uma decisão e ser mais profissional”, confessou, numa espécie de alerta para a nova geração de jogadores. Se já quando era profissional percebeu essa necessidade de ter uma vida mais regrada, a própria vida e as experiências pelas quais teve de passar fizeram com que olhasse de outra forma para os excessos, para a saúde e para o bem estar: em 2015, perdeu a mulher e mãe dos três filhos com um cancro, aos 34 anos; em 2017, perdeu a mãe, de 58 anos, também com cancro. Hoje, além do estilo de vida saudável, dá também a cara pelo DNA kit, que permite um melhor conhecimento que cada pessoa tem sobre si para a partir daí fazer os exercícios e ter a alimentação mais apropriada para ter uma vida mais saudável.

Rio Ferdinand foi distinguido com o prémio de melhor documentário nos Virgin TV British Academy Television Awards (Jeff Spicer/Getty Images)

“Conseguia ver as fibras do meu corpo quando jogava porque era demasiado magro”, diz como introdução para o que conseguiu mudar em termos físicos – inicialmente com a ideia de poder tornar-se um pugilista, aspiração que caiu por terra por lhe ter sido vetada a licença necessária para entrar em combates. “Queria ganhar peso, ganhar massa muscular e depois aguentar isso mas cheguei demasiado rápido a um limite. Estava sempre a bater na minha cabeça e a pensar: ‘O que se passa?’. Descobri que comia muitos hidratos de carbono e não a proteína suficiente. Agora a minha dieta está muito mais equilibrada, estou com 101kg mas confortável. Quando jogava tinha 85kg. Também comecei a trabalhar mais a potência em vez da resistência no ginásio”, explica sobre a importância que o produto que hoje promove pode ter para o conhecimento próprio do corpo.

Depois de sair do Manchester United, Rio Ferdinand tornou-se comentador de futebol mas foi no percurso extra desporto que ganhou o maior reconhecimento, não só no trabalho com a comunidade de escolas a prisões mas também, ou sobretudo, no documentário que gravou para a BBC One sobre a sua vida depois da morte da mulher, “Being Mum and Dad” (escreveu um livro sobre o tema com a jornalista Decca Aitkenhead). “Não sabia como falar com os meus filhos, não sabia em que assuntos tocar. Começava conversas, tentava perceber como se sentiam e mandavam-me calar, iam-se embora, a conversa ficava por ali”, contou na altura do lançamento, em que falou também da importância de um jarro onde todos colocavam memórias de Rebecca. “Foi como se nos tivesse libertado, foi um momento lindo vê-los a falar felizes e a sentirem-se bem com a mãe deles em vez de ser um momento triste e negativo. Isso transformou a escuridão em luz”, acrescentou.

Central falhou Europeu de 2004 por castigo mas esteve no Mundial de 2006, onde caiu nos quartos com Portugal (Clive Mason/Getty Images)

O antigo central e agora comentador abordou também o momento atual da seleção inglesa, comandada por Gareth Southgate, que terminou o último Mundial no quarto lugar e apurou-se para a Final Four da Liga das Nações – algo que a geração de Ferdinand nunca conseguiu alcançar. “Quando se olha para a nossa equipa na altura, a verdade é que tínhamos alguns dos melhores médios mundiais nessa altura como Scholes, Gerrard, Lampard, Beckham, Hargreaves ou Carrick mas nunca tivemos um treinador que conseguisse encontrar uma formação onde todos coubessem e conseguissem ter o melhor rendimento. Jogávamos num 4x4x2 ou num 4x4x1x1 muito rígido. Depois tivemos uma série de equipas sem grandes jogadores. Os atletas têm de ser bem orientados, têm de acreditar naquilo em que estão a trabalhar e é isso que acontece agora”, destacou.