Habituado a acompanhar todos os fenómenos de violência — e, até, de terrorismo —, José Manuel Anes olha para os casos dos últimos dias, desde os confrontos no Bairro da Jamaica aos desacatos da madrugada desta terça-feira, em Odivelas e Setúbal, como episódios que vão extinguir-se sem grandes consequências. Dá, aliás, como exemplo o que aconteceu há 10 anos, no Bairro da Bela Vista, quando se registaram três dias de violência — com um ataque direto à esquadra localizada no bairro — por causa da morte de um dos jovens moradores. Na altura, o conflito parecia ganhar grandes proporções, mas também acabou por desaparecer.

Em entrevista ao Observador, distingue, ainda assim, os confrontos na Avenida da Liberdade, na sequência de uma manifestação contra a violência policial, dos atos de violência que aconteceram horas depois, com caixotes do lixo queimados e cocktails molotov arremessados contra a esquadra da Bela Vista. Sobre esses, diz que “é um patamar superior de luta” e sublinha que é preciso ter muito cuidado a lidar com situações semelhantes, sobretudo na ação da polícia.

O criminalista insiste que a intervenção das forças de segurança “tem de ser muito profissional e fria”, pondo de lado as emoções que, tantas vezes, servem de rastilho a mais violência, lembrando que é perigoso “deitar fósforos para ambientes que podem explodir”. Admite que isso possa ter acontecido no Bairro da Jamaica no domingo, com um excesso de força policial, e diz que compreende os agentes da polícia, que “são insultados e provocados permanentemente”, mas concorda que esses agentes têm um dever especial de saber reagir em situações do género.

O problema, segundo José Manuel Anes, é que as polícias não têm formação específica e têm de agir em bairros com um “caldo cultural” que potencia situações de revolta e que nunca foram alvo de uma estratégia abrangente e dedicada para as evitar.

Como devemos olhar para o que aconteceu nos últimos dias? Apenas como episódios violentos esporádicos, sem outro significado?
Já houve aqui há uns anos uma ação violenta contra a esquadra da Bela Vista, em 2009. Aquilo que é mais significativo são os episódios desta madrugada [de terça-feira], porque os outros casos, digamos, é a população que reage, considera-se vítima de violência policial — o que, depois de ontem na Avenida da Liberdade e na Baixa, é bastante difícil que eles mantenham e sustentem esse racismo da PSP, quando eles fazem aquele vandalismo de atirar pedras, de atirar aqueles objetos estridentes que levam para o futebol. Pode ter havido algum excesso na primeira intervenção no Bairro da Jamaica, no Seixal, mas, atenção, não há santos e demónios de um lado e de outro respetivamente. Digamos que há responsabilidades de parte a parte. Agora, de facto, dentro das comunidades há aqueles indivíduos que estão sempre prontos para apanharem algum pretexto para se vitimarem. E isso é realmente inacreditável. Depois de tudo o que aconteceu na Avenida da Liberdade e hoje [terça-feira], particularmente, com aquela tática de guerrilha urbana, de atirar cocktails molotov contra a esquadra [do Bairro da Bela Vista], é evidente que não digo que isto seja todo um movimento organizado, não é.  São aquelas relações de solidariedades da Bela Vista, com Jamaica, com Cova da Moura, que, facilmente, se estabelecem com um telemóvel. De qualquer maneira, eu acho que o principal foi o episódio desta madrugada, que é um patamar superior de luta, como se dizia nos velhos tempos. Agora, quanto aos 200 e 300 que estiveram lá [na Avenida da Liberdade], bem… isso também é um motivo de festa, em que as pessoas gostam de se manifestar dessa maneira, vitimizando-se e atacando a polícia.

Quando diz que é um motivo de festa é porque entende que estes momentos são aproveitados mais para uma demonstração do que para um protesto?
Sim. Vêm de todo o lado, vitimizam-se e atiram umas pedras e uns petardos à polícia e, de facto, saem daqui como heróis que se vão apresentando como vítimas.

Isso significa que são episódios inconsequentes, sem que seja natural esperar-se que continuem?
Na minha análise, isto é inconsequente porque, entretanto, os serviços de informações do Estado e os serviços de informações da polícia também vão ter mais atenção ao fenómeno e vão, enfim, travar o assunto. Eu creio que isto fica por aqui. Aliás, como aconteceu há 10 anos: também houve aqueles episódios na Bela Vista e depois acabou.

Na altura desse episódio na Bela Vista, começou a falar-se nas ZUS — Zonas Urbanas Sensíveis. Eram estes bairros mais complexos que mereciam uma estratégia diferente e um olhar diferente por parte das autoridades. Estes episódios mostram que essa intervenção diferenciada talvez não esteja a funcionar?
Eu penso que não está. Deixou-se cair porque eu penso que ter-se-á chegado à conclusão de que isto foi uma questão pontual, como resposta àquele caso e eventualmente acontecerá o mesmo agora.

E isso é um erro?
Eu penso que nas Zonas Urbanas Sensíveis devia haver mais cuidado, mais intervenção social e ação sociológica. Os ingleses aprenderam muito com essa estratégia de criar confiança nessas populações, sobretudo nos dirigentes dessas associações locais, que é muito importante, e estabelecer um diálogo, uma negociação com eles. Isso é extremamente importante. De tal modo que os ingleses deram-nos esta lição: em vez de estar a infiltrar gente nestas comunidades mais problemáticas, eles criaram relações de confiança com elas, de forma a gerar informações a partir da própria comunidade. São elas que dizem, são elas que dão indicações. E essa é a situação ideal, sem dúvida.

Se, como diz, não há anjos e demónios em nenhum dos lados, se olharmos para as imagens da primeira intervenção no Bairro da Jamaica, mesmo que só retratem uma parte do que aconteceu, vemos uma abordagem da polícia muito musculada e mais violenta. Tem sido esta a contrapartida à falta dessa estratégia mais abrangente?
Cada vez que eles são chamados para uma cena dessas naqueles bairros, eles já vão ali com algum parti pris. Eu compreendo a polícia, porque eles são ali insultados e são provocados permanentemente.

Mas as forças policiais não têm um dever especial de saber lidar com os insultos e as provocações?
Têm. Têm essa obrigação. Mas para isso é preciso que sejam formados nessa atuação, específica nesses bairros. Sem dúvida nenhuma.

E isso também está a falhar, quando deveria integrar aquela estratégia para as Zonas Urbanas Sensíveis?
Eu acho que sim, completamente. Tem de haver, porque nós não podemos ter nem um bocadinho que seja a mais [de força policial] porque logo incendeia aquele ambiente e temos de ter muito cuidado.

Portugal continua a ter estes bairros, em que o contexto económico e social é particularmente difícil e onde, facilmente, subsistem estes fenómenos. Isto vai perpetuar-se? Deveria ser encontrada uma forma de contrariar este cenário e não só na relação com a polícia?
Essas condições de que falou são um caldo de cultura para episódios de revolta contra as autoridades, contra a sociedade. E, ao mesmo tempo, criam condições para que, às vezes, as intervenções policiais excedam aquele mínimo que devem ter para apenas conter o fenómeno de violência, de vandalismo. Logo, acho que é mais um episódio que, penso eu, é limitado, mas que reforça que tem de haver uma revisão dos processos para que não se ultrapassem aqueles limites e não se crie mais sentimento de indignação da parte das comunidades.

Essa indignação, segundo as próprias comunidades, está relacionada com sentimentos de racismo por parte das autoridades. Afasta totalmente a possibilidade de que haja, de facto, racismo nas polícias portuguesas?
Há racismo nas forças policiais na quantidade e na percentagem que há na sociedade — que é pouca. Mas, às vezes, isso pode ser o suficiente para criar situações complicadas, sem dúvida nenhuma. Aqui há tempos, um elemento das forças de segurança foi detetado em movimentos de extrema-direita, próximos de Mário Machado, portanto isso pode acontecer. Mas nós temos de travar e minimizar todo este fenómeno, porque senão estamos a deitar fósforos para ambientes que podem explodir. Tem de haver muito cuidado, tem havido algum, mas às vezes a situação emocional sobrepõe-se. A intervenção policial tem de ser muito fria e não emocional. Tem de ser muito profissional, fria e não pode ser emocional.