O analista da CNN Stephen Collinson chama-lhe “um esforço teatral” de democratas e republicanos. O objetivo, aponta, não é mais do que “tentar dar a imagem de que estão a fazer tudo o que podem para restaurar os vencimentos de 800 mil trabalhadores do governo federal”, que estão sem receber há mais de 30 dias devido ao “shutdown”, isto é, à paralisação decretada pelo governo de Trump face ao impasse registado quanto a políticas de imigração. A que se refere Stephen Collinson? A um “compromisso bipartidário” apresentado conjuntamente pelo líder da maioria republicana, Mitch McConnell, e pelo líder da minoria democrata no senado, Chuck Schumer, que garantem que vão levar a votos esta quarta-feira duas leis para resolver o impasse. Charles P. Pierce, analista da Esquire, descreve-as assim: “É só teatro”.

O movimento de tentativa de resolução da paralisação que tem impedido o pagamento a funcionários públicos do governo — incluindo funcionários de agências como a NASA e o FBI — traduz-se em duas propostas de lei distintas, uma apresentada pelo Partido Democrata, outra apresentada pelo Partido Republicano.

Os republicanos vão levar a votos um diploma que oferece proteção temporária a crianças ilegais no país — os chamados “dreamers” (em português, sonhadores), que ficariam temporariamente a salvo de uma deportação imediata dos EUA — em troca dos 5,7 mil milhões de dólares (5 mil milhões de euros), necessários para construir o muro na fronteira com o México.

No mesmo dia em que vai ser votada o diploma dos republicanos para terminar o “shutdown”, os democratas vão apresentar uma proposta em sentido diferente, embora (alegadamente) com o mesmo fim: pretendem  que os funcionários públicos voltem a receber vencimento enquanto o impasse sobre as políticas de imigração não se resolve.

À espera de um milagre (e de um salário) no shutdown de Trump

As duas leis têm um problema: enquanto os democratas deverão vetar uma proteção temporária de migrantes menores de idade em troca da construção de um muro na fronteira com o México (com que nunca concordam), Trump já afirmou no passado não estar disposto a terminar a paralisação decretada sem resolver o impasse na resolução do que diz ser um grave problema de fronteira. Ao contrário do que já aconteceu, desta vez os republicanos (que têm a maioria no senado) vão permitir que a proposta de resolução temporária de um problema grave de funcionalismo público vá a votos. No entanto, só uma reviravolta faria com que Trump e o partido republicano viabilizassem uma proposta que já criticaram.

“Não há maneira de sairmos desta confusão?”

No senado, durante a conferência conjunta com o líder republicano Mitch McConell, o democrata Chuck Schumer defendeu a proposta do seu partido: “As pessoas perguntam: não há uma maneira de sairmos desta confusão? Não há uma maneira de aliviarmos o fardo de 800 mil trabalhadores públicos que não estão a ser pagos? Não há uma forma de permitir que os serviços do governo abram primeiro e só depois discutirmos o que devemos fazer para garantir a segurança das nossas fronteiras? Bom, agora há uma forma”.

O republicano Mitch McConell, por sua vez, disse: “A oportunidade de acabar com tudo isto está mesmo à nossa frente… e tudo o que tem de acontecer é que os democratas concordem que é altura de colocarem o país à frente das políticas, optem por um ‘sim’ como resposta e votem no sentido de colocar este problema para trás das costas”.

Trump oferece acordo sobre imigração para acabar com “shutdown”. Democratas rejeitam

Na CNN, Stephen Collinson traçou uma previsão negra quanto ao resultado da votação dos dois diplomas, dizendo que “com todo o barulho e insultos, toda a gente dos dois lados sabe que o par de leis do senado vai quase de certeza esbarrar em linhas vermelhas dos partidos”. A não ser que haja “uma capitulação milagrosa do Presidente ou dos oponentes democratas, nada do que acontecerá nos próximos dias deverá fazer com que o impasse se resolva (…). Assim que a coreografia terminar, e cada lado matar a solução preferida do adversário, são poucas as hipóteses de que uma junção de líderes chave na Câmara dos Representantes dominada pelos democratas e no senado controlado pelos republicanos permita encontrar uma fuga ao impasse”.

Um sindicato que representa agentes do FBI já pediu uma resolução urgente da paralisação, afirmando que esta afeta a capacidade da agência de segurança de conduzir operações e levar a cabo investigações. O presidente do FBI Tom O’Connor pediu ao Congresso e a Donald Trump que financiem os agentes do FBI, porque “o fracasso no financiamento do FBI mina operações essenciais, tais como as designadas a combater crimes contra crianças, crimes de droga e de gangues e crimes de terrorismo”.