O deputado federal do Rio de Janeiro Jean Wyllys anunciou esta quinta-feira que vai desistir do novo mandato e deixar o Brasil após receber ameaças de morte, situação que se arrasta desde o homicídio da vereadora Marielle Franco.

“Preservar a vida ameaçada é também uma estratégia da luta por dias melhores. Fizemos muito pelo bem comum. E faremos muito mais quando chegar o novo tempo, não importa que o façamos por outros meios! Obrigado a todas e todos vocês, de todo coração”, escreveu esta quinta-feira Jean Wyllys, deputado do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), no Twitter.

Segundo a imprensa brasileira, desde o homicídio da vereadora do PSOL Marielle Franco, em março do ano passado, que Wyllys tem vivido sob escolta policial, tendo recebido com frequência ameaças de morte. Marielle Franco, vereadora e defensora dos direitos humanos, foi assassinada na noite de 14 de março de 2018, quando viajava de carro pelo centro do Rio de Janeiro, depois de participar num ato político com mulheres negras.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o deputado informou que está neste momento no exterior e que não pretende voltar ao Brasil, anunciando que decidiu abandonar a vida pública.

O [ex-Presidente do Uruguai] Pepe Mujica, quando soube que eu estava a ser ameaçado de morte, disse-me: ‘Rapaz, cuide-se. Os mártires não são heróis’. E é isso, eu não me quero sacrificar”, justificou Wyllys

De acordo com o deputado, as recentes informações de que familiares de um ex-polícia militar, suspeito de chefiar a milícia investigada pela morte de Marielle, trabalharam para o filho do Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, ajudaram a tomar a decisão de deixar o país.

“Apavora-me saber que o filho do Presidente contratou no seu gabinete a esposa e a mãe do sicário”, afirmou Wyllys. “O Presidente que sempre me difamou, que sempre me insultou de maneira aberta, que sempre utilizou a homofobia contra mim. Esse ambiente não é seguro para mim”, acrescentou.

Segundo a imprensa brasileira, Wyllys tornou-se no primeiro deputado parlamentar assumidamente gay a apoiar assuntos relacionados com a comunidade LGBT (sigla de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais ou Transgêneros) no Congresso Nacional brasileiro.

A assessoria de Jean Wyllys afirmou à plataforma de notícias G1 que há uma campanha “muito pesada” contra o deputado, que dissemina conteúdo falso sobre ele na internet, associando-o a casos de pedofilia, ao casamento de adultos com crianças e à mudança de sexo em casos infantis.

Wyllys queixa-se ainda da falta de liberdade no Brasil: “Como é que eu vou viver quatro anos da minha vida dentro de um carro blindado e sob escolta? Quatro anos da minha vida onde não vou poder frequentar os lugares que eu frequento?”, apontou.

Questionado acerca do local que escolheu para viver fora do Brasil, Jean Wyllys optou por não revelar, afirmando apenas que pretende dedicar-se à vida académica. Em abril de 2016, aquando da votação do impeachment de Dilma Rousseff, então chefe de Estado, Wyllys cuspiu na cara de Jair Bolsonaro, assumindo-se como um dos principais adversários do ex-capitão do exército na Câmara dos deputados.

O deputado do PSOL, que é homossexual assumido, disse que vinha sendo ofendido de forma reiterada, através de comentários homofóbicos, por parte de Jair Bolsnaro.