“Celebrar Serralves” é o mote do plano de atividades programadas para 2019, ano em que se comemoram os 30 anos da fundação e os 20 anos do museu. Após um período conturbado, marcado pela demissão do diretor artístico do museu João Ribas em setembro, Serralves parece ter motivos para festejar. Ainda sem data prevista para a nomeação do novo diretor do museu, Ana Pinho, presidente do conselho de administração da Fundação de Serralves, afirmou esta manhã que se trata de “uma programação muitíssimo ambiciosa, totalmente centrada no aniversário”, pensada “para homenagear o passado e antecipar o futuro”. Eis alguns dos destaques do que não pode perder.

Casa do Cinema de Manoel de Oliveira

Projetada pelo arquiteto Siza Vieira e com abertura prevista para abril, o projeto, cujo protocolo de construção foi assinado em novembro de 2013, é, segundo o diretor António Preto, “a concretização de um desejo antigo” do cineasta portuense, que desapareceu em em abril de 2015, aos 106 anos. Ocupando a antiga garagem do Conde de Vizela, o espaço terá uma sala de cinema com uma programação regular, onde todos os filmes serão legendados em inglês, duas salas para exposições, espaços para conferências e serviço educativo e ainda acesso ao acervo documental do realizador. A exposição permanente propõe “um percurso abrangente através da obra do realizador”, cujo desafio de mostrar cinema num contexto expositivo faz com que esta mostra tenha, segundo o diretor, “uma componente tecnológica muito acentuada, que permite proporcionar uma experiência imersiva e interativa ao visitante”.

AFP/Getty Images

A primeira mostra temporária irá “refletir as múltiplas representações da casa na obra de Manoel de Oliveira, tendo como ponto de partida o filme ‘Visitas ou Memórias e Confissões’, realizado de 1982.” Marcada para outubro, a segunda exposição temporária é uma retrospetiva dedicada ao cineasta francês com origem norte-americana Eugène Green, que “apresentará uma instalação composta por filmes inéditos, especificamente concebidos para Serralves”.

O diretor desta nova morada dedicada à sétima arte destacou ainda a relação do cinema com a arquitetura no ciclo Carta Branca a Álvaro Siza, onde o arquiteto irá selecionar filmes centrados nas representações da casa do cinema. António Preto realçou também o cinema de animação e ao livre e a publicação de um catálogo bilingue sobre a obra do cineasta, em parceria com a Cinemateca Portuguesa.

Os regressos de Joana Vasconcelos, Paula Rego e Pedro Cabrita Reis

Depois de dar nas vistas no Palácio de Versalhes, em 2012, participar na Bienal de Veneza, em 2013, e ter sido a primeira portuguesa a expor no Museu Guggenheim Bilbao, em 2017, Joana Vasconcelos regressa a Serralves 19 anos depois. “I’m Your Mirror” é a exposição que poderá ver no Museu de Serralves de 14 de fevereiro até ao final de junho, uma retrospetiva da artista com trabalhos produzidos desde 1997. Joana cria imagens marcantes, com um grande impacto visual e numa grande escala, onde a luz, o som, as cores e o movimento são protagonistas. Na sua produção artística há referências à cultura popular portuguesa, alusões à história de arte e um desarmante sentido de humor. Joana aborda questões reais como a exploração das mulheres, as migrações ou os impactos do colonismo.

Em ano de aniversário, a Fundação de Serralves irá expor aquela que é considerada a coleção de arte contemporânea mais importante em Portugal, uma forma de recordar e celebrar a programação e refletir sobre as transformações da arte entre 1989 e 2019. Entre setembro e novembro a exposição é dedicada a Paula Rego, que passou por Serralves em 2004. As obras realizadas nos anos de 1960 até à atualidade serão um dos pontos de partida de uma mostra monográfica.

Pedro Cabrita Reis realizou uma das primeiras exposições no Museu de Serralves em 1999. O artista regressa de outubro de 2019 a janeiro de 2020 com uma mostra em nome próprio, concebida especificamente para este espaço, que traduz a relação da sua prática artística e a sua reflexão sobre a função dos museus.

Homenagem a Álvaro Siza Vieira

Estela Silva/LUSA

Para comemorar os 20 anos do Museu de Serralves, entre setembro de 2019 e janeiro de 2020 haverá uma homenagem ao autor do edifício, um dos mais reconhecidos arquitetos do mundo. “(In)Disciplina” é uma exposição original e crítica sobre o percurso criativo de Siza Vieira, e o modo como opera em relação à disciplina de arquitetura, partindo de apontamentos pessoais, escritos ou desenhados, entre 1950 e 2010. A mostra exibe 30 “projetos indisciplinados” de edifícios e conjuntos urbanos (construídos ou não), documentados por diferentes cadernos, desenhos, textos, fotografias, entrevistas em vídeo ou maquetas de trabalho.

O Parque como palco

São 18 hectares de um património natural que este ano terá, segundo Ana Pinho, presidente do conselho de administração da Fundação de Serralves, “novas valências que permitirão uma visitação diferente”. Exemplo disso é a criação de uma quinta urbana experimental e do Tree Top Walk, um percurso feito em madeira, num nível elevado face ao solo junto à copa das árvores, que facilita a observação e estudo da vegetação.

JOSÉ COELHO/LUSA

Dando continuidade ao ciclo Grandes Exposições do Parque está o artista dinamarquês Olafur Eliasson, conhecido sobretudo pelas suas instalações de grande escala, compostas por materiais elementares como luz, agua, humidade ou temperatura. Interessado pelas relações entre o homem e a natureza, a arte e a sociedade, o seu trabalho é uma intervenção no espaço público, recorrentemente apresentado ao livre. Este ano é desafiado a trabalhar no Parque de Serralves e o resultado estará à vista entre julho e a dezembro.

A britânica Tacita Dean, que inaugura a 29 deste mês uma exposição de filmes, Joan Jonas, pioneira da videoarte e performance, ou os talentos emergentes Horário Frutuoso ou Nora Turato são outros nomes presentes no programa. Em 2018 Serralves atingiu resultados históricos com mais de 945 mil visitantes, um crescimento de 13% face ao ano anterior.