Se o filme “Roma” tem feito o seu caminho, a caminhada de Yalitza Aparicio não lhe fica atrás. Ironia das ironias, em tempos de muros, fronteiras e shutdown, uma mexicana de 25 anos arrisca-se a ganhar o Óscar de Melhor Atriz e a infernizar ainda mais a marcha do presidente Trump (entretanto apontado ao prémio de Pior Ator, porque já se sabe que isto anda tudo ligado). Não será fácil, reconheça-se, deixar para trás a favorita Olivia Colman, mas quanto à indicação, essa já ninguém lha tira.

Aos 25 anos, é a primeira atriz de origens indígenas a receber uma nomeação para a cobiçada estatueta pelo papel em “Roma”, uma produção Netflix, plataforma de streaming que acaba de se juntar à The Motion Picture Association of America, que representa os maiores estúdios de cinema de Hollywood. É também a segunda mexicana, depois de Salma Hayek, pelo papel de “Frida”. Dois dados que justificam a reação estrondosa no Twitter quando recebeu a notícia.

Não é para menos. Quando dizemos atriz, convém lembrar que esta foi uma novidade em toda a linha para a jovem natural de Tlaxiaco, Oaxaca, filha de pai mixteco e de mãe triqui, que a criou sozinha. Yalitza estudava para dar aulas na sua terra natal quando Cuarón palmilhava a região em que cresceu em busca de alguém que desse vida a Liboria “Libo” Rodríguez, a ama que cuidou do realizador desde os nove meses, num regresso às memórias da década de 70. Mas em bom rigor, o que só contribui para a lenda, quem devia ter ido ao casting para o papel era a sua irmã, entretanto demasiado grávida para engrossar a fila de candidatas ( e ainda assim demasiado curiosa para ficar sem saber como estas coisas funcionam, razão para ter enviado uma desconfiada Yalitza no seu lugar) Acabou por ser mesmo ela a tentar a sorte, episódio recuperado pelo The New York Times. O resto, é história.

“Foi como um sonho tornado realidade, sem que eu desse conta disso. Viajar por diferentes partes do mundo era um desejo antigo. No passado, fizera apenas viagens pela escola, a estados próximos de Oaxaca”, recordou recentemente a atriz à Variety, partilhando ainda a sua surpresa face à escolha de Cuarón.

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Em janeiro, Aparicio chegou à capa da Vogue Mexico, numa versão bem mais glamourosa que o contexto de “Roma”, mas ainda assim em sintonia com as suas raízes. Na longa-metragem que viaja pelas origens do realizador, é Cleo, a empregada que trabalha numa casa da classe média e que cuida de crianças, uma das partes que mais a contagiou — apesar de ver dificultada a sua permanência no ensino, já revelou que gostava de continuar a dar aulas.

“A agenda dela está cheia. Tem viajado muito por causa da temporada de prémios e este mês é-lhe impossível dar entrevistas”, esclarece a agente Adriana Caballero, em resposta ao nosso contacto. Facto é que as solicitações começaram logo em 2018, quando a longa-metragem a preto e branco de Cuarón mobilizou a crítica. Em novembro, a Yalitza que se apresentava em Londres, frente ao jornalista The Guardian, era já “toda ela uma estrela”, sem esquecer, porém, as origens modestas e uma rotina que passava por dividir uma casa com apenas um quarto com o resto do clã.

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A cena da praia foi uma das mais difíceis, admitiu, por não saber nadar. Mas o nervosismo de falar perante uma plateia de desconhecidos, rodeada de câmaras, antecipou-se a qualquer maré. Desafios para uma amadora que encontrou na mãe, e no seu próprio trajeto, uma das maiores fontes de inspiração. “A minha vida é muito similar à da Cleo. Somos ambas pobres e gostávamos de ir para a Cidade do México para melhorar a vida das nossas famílias”, partilhou nessa entrevista ao jornal britânico, recordando como a mãe ainda faz limpezas e como Yalitza costumava ajudá-la em pequena para que pudesse despachar o serviço mais cedo.

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Num abrir e fechar de olhos, Yalitza passou a conviver com o assédio das câmaras e objectivas. No seu país é uma das mais recentes celebridades, e qualquer passo é monitorizado por programas da especialidade. Uma produção em Tijuana, paredes meias com a realidade dos migrantes, chegou para fazer notícia. Para já, Yalitza está no topo do mundo, mesmo que para ela isso signifique apenas trepar ao cimo do Empire State Building, mais um check na lista de desejos de quem nunca ultrapassara a fronteira do México.