A repressão dos protestos antigovernamentais da última semana na Venezuela provocou 35 mortos e 850 detidos, de acordo com um balanço esta segunda-feira divulgado por diversas ONG. “Temos o número comprovado, com nome, apelido, morada e supostos responsáveis de 35 pessoas assassinadas no contexto das manifestações em todo o país”, disse em conferência de imprensa Rafael Uzcátegui, diretor do Programa venezuelano de educação-ação em direitos humanos (Provea).

Estes dados foram recolhidos no Observatório venezuelano de conflitualidade social (OVCS) e indicam que Caracas é o local com maior número de vítimas mortais (dez), seguido do estado de Bolívar (sul, limítrofe com o Brasil) com oito, e do estado Portuguesa (centro), com quatro.

“Na totalidade são pessoas das zonas populares, o que indica que estão a ser reprimidas as comunidades mais desprotegidas do nosso país. Para mais, todas as pessoas faleceram em consequência de disparos de armas de fogo”, sublinhou Uzcátegui.

O Provea assinalou como “principal responsável” das mortes os efetivos das designadas Forças de ação especiais (FAES), um corpo de segurança do Estado que opera nas zonas pobres numa “lógica de guerra e lógica de extermínio”, segundo a ONG. “Estão a obrigar que os familiares aceitem a falsificação da causa do falecimento e do organismo responsável”, assegurou.

Por sua vez, a ONG Foro Penal, que lidera a defesa dos que são considerados presos políticos pela oposição, sustentou que a maioria das detenções tem ocorrido nas zonas pobres, onde se terão registado a maioria dos protestos desde a passada segunda-feira. “Desde o dia 21 de janeiro até hoje, contabilizámos 850 detenções de pessoas que se manifestaram”, assegurou Alfredo Romero, diretor do Foro.

O advogado assinalou que apenas em 23 de janeiro, quando centenas de milhares de venezuelanos de manifestaram contra o Governo de Nicolás Maduro, registaram-se 696 detenções. A ONG também referiu que entre os detidos se incluem 77 menores, alguns com 12 anos de idade. Romero disse que as detenções correspondem a uma “ordem emitida por Nicolás Maduro”.

As manifestações ocorrem na sequência da decisão do parlamento da Venezuela em não reconhecer o novo mandato presidencial de Maduro, que tomou posse em janeiro, na sequência de eleições onde estiveram ausentes as principais forças da oposição.

O presidente do parlamento, Juan Guaidó, autoproclamou-se na quarta-feira presidente do país, após o Supremo Tribunal ter considerado que o hemiciclo, dominado pela oposição, é “inconstitucional”. Neste cenário, a Venezuela enfrenta uma crise política que já levou vários países europeus, incluindo Portugal, a lançarem um ultimato ao Presidente Nicolás Maduro para convocar eleições no prazo de uma semana. Caso Maduro não o faça, Portugal, Espanha, Alemanha, França e Reino Unido vão reconhecer Juan Guaidó, presidente do parlamento venezuelano, como chefe de Estado interino, com poder para conduzir o processo eleitoral.