O primeiro objetivo é parar para pensar. E dessa reflexão, talvez nasçam soluções. Mas soluções para o quê? Para a “Educação e os Desafios para o Futuro”, uma conferência que o Conselho Nacional de Educação (CNE) organiza durante dois dias, esta terça-feira e quarta-feira, em Lisboa, para falar sobre um tema que é cada vez mais alvo de análise e reflexão de quem pensa a educação.

Este encontro é de carácter eminentemente científico, como explica a presidente do CNE. Nos diferentes painéis estão diferentes personalidades, portuguesas e internacionais, que pensam e trabalham com tecnologia de ponta, e pensam a educação há vários anos, explicou Maria Emília Brederode na conferência de imprensa onde foi apresentada esta iniciativa, na passada quinta-feira.

“Vivemos um período verdadeiramente histórico, com alterações profundas no comportamento humano”, sublinha João Cravinho, que preside à comissão que organiza a conferência. “Com a Inteligência Artificial nós somos a matéria-prima da revolução em curso”, defende o antigo deputado socialista.

E essa questão, a da Inteligência Artificial, será uma das que estará em debate logo neste primeiro dia da conferência. Antes disso, Cees Hamelink, um académico holandês reconhecido pelo seu trabalho em comunicação, fará aquilo que Cravinho considera ser “uma tese geral do futuro da educação”.

O tema da sua intervenção será ‘Defender a Dignidade Humana’. Aqui há uns anos, este título não diria nada às pessoas, mas hoje toda a gente percebe o que isto significa”, sustenta. E a dignidade humana leva João Cravinho de volta aos grandes temas da conferência, a Inteligência Artificial, a supercomputação e as biociências.

“A Inteligência Artificial põe em causa todos os paradigmas civilizacionais e leva-nos à incerteza. E a incerteza do futuro tem de afetar obrigatoriamente a educação.” Por isso mesmo, João Cravinho rejeita a ideia de que o futuro da educação possa passar simplesmente por introduzir tecnologia na sala de aula, mas, em contrapartida admite que ela também não deve ser vista como inimiga do homem. “É preciso que o homem se habitue a trabalhar com a máquina. Há coisas em que a máquina será o nosso principal aliado e não o nosso principal inimigo.”

O que João Cravinho acredita ser fundamental na educação, para se poder fazer face aos desafios do futuro, é fugir às ideias e às fórmulas do passado. “Devemos encarar a educação ao longo da vida como uma matéria obrigatória”, diz, acrescentando que hoje “ninguém é capaz de antecipar o que é uma boa preparação” para o futuro mercado de trabalho.

Por isso mesmo, esta formação ao longo da vida, numa altura em que homens e máquinas competirão pelos mesmos empregos, não deve ser encarada apenas como um acumular de conhecimentos académicos clássicos. Deverá ter, na sua opinião, uma componente forte de ética, valores e moral, no fundo aquilo que separa o homem da máquina. Abaixo terá de ser deitado o “velho conceito de que há um período de formação, um período de vida ativa e um período de reforma”. No futuro, não muito longínquo, não haverá uma separação clara entre essas áreas.

No que toca à biotecnologia e genómica, temas que estarão a debate no segundo dia da conferência, Cravinho acredita que uma das grandes preocupações atuais da sociedade são “os homens artificiais, já que esta será, graças às biociências, uma espécie nova no universo, entre o homem e a máquina”. Aqui, uma vez mais, lembra a importância da ética. “Nenhuma forma de escravatura será tão cruel como esta”, se a humanidade não se souber preparar para esta realidade.

O futuro do trabalho também será um dos assuntos em debate, já que está será umas das áreas mais afetadas pela Inteligência Artificial. Cravinho lembra que no espaço de uma década a capacidade de previsão da Inteligência Artificial tornou-se cada vez “mais barata e precisa” e a margem de erro de uma máquina é hoje menor do que a humana.

A margem de erro humana é de 5%, da máquina, em 2010, era de 28%. Em 2015 igualou a humana e em 2017 a sua margem de erro já era metade da nossa. Em sete anos, as máquinas inteligentes tornaram-se muito mais precisas do que os humanos. Antigamente, o robot era o inimigo do Charlie Chaplin, hoje é inimigo do homem”, sustenta, numa alusão à competitividade no mercado laboral.

Para ultrapassar esta questão, é preciso não só que o homem se habitue a trabalhar lado a lado com o robot, como aprender, através da Educação, a não ser ultrapassado pela máquina.

“A supercomputação pode prever soluções. Mas o que valoriza a solução de um problema é a capacidade de julgamento que depois se traduz num plano de ação. E essa é uma capacidade humana. É preciso que o homem tenha uma enorme capacidade de julgamento para ver e olhar sem enviesamentos e isso resulta de uma educação que não lhe pode ensinar o ABC de uma única forma”, defende João Cravinho, referindo-se a esta como uma visão mais holística da Educação.

No final da conferência, em jeito de resumo, Maria Emília Brederode explicou algumas das ideias que serão discutidas nesta conferência: “A educação tem de estar no centro de tudo, a educação tem de ser para todos, permanente, tem de estar em toda a parte e tem de incluir as chamadas soft skills.”

A ressalva vem de João Cravinho. “Não se espantem se na conferência ouvirem dizer o contrário daquilo que foi dito aqui. A ideia é essa, é refletir, discutir diferentes ideias.”

A conferência “A Educação e os Desafios do Futuro” —  o programa pode ser consultado aqui — decorre nesta terça-feira e quarta-feira no Auditório 2 da Fundação Gulbenkian, em Lisboa. A sessão de abertura será às 14h30 e será presidida por Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República. No dia seguinte, às 17h15, o encerramento caberá ao primeiro-ministro, António Costa. Entre os oradores estarão também antigos presidentes do CNE, como David Justino e Ana Maria Bettencourt.