Rádio Observador

Genética

Nobel de ascendência portuguesa sabia dos planos para editar bebés e torná-las imunes ao VIH. Opôs-se, mas não denunciou

O cientista que modificou geneticamente duas gémeas para serem imunes ao VIH contou os planos a Craig Mello, Nobel da Medicina em 2006, bisneto de açorianos. Mello opôs-se, mas não denunciou.

Craig Mello (esq.) ganhou o Nobel da Medicina em 2006 e era conselheiro de He Jiankui (dir.)

Getty Images

Craig Mello, o Nobel da Medicina de ascendência açoriana, sabia dos planos do cientista chinês He Jiankui para modificar a informação genética de duas bebés e torná-las imunes ao vírus da imunodeficiência adquirida (VIH), mas nunca os denunciou. Uma troca de e-mails a que a Associated Press teve acesso prova que Craig Mello, conselheiro de He Jiankui, se opôs à experiência sugerida pelo cientista chinês. No entanto, manteve segredo sobre ela. E pode ter tido um papel mais ativo do que admitiu em primeiro lugar.

Em abril do ano passado, He Jiankui — cujo paradeiro permanece desconhecido — enviou um e-mail a Craig Mello com a mensagem: “Sucesso!”. No e-mail, o cientista chinês contava ao Nobel da Medicina que havia uma mulher grávida de duas raparigas geneticamente modificadas para serem imunes ao VIH, o vírus da sida. Craig Mello respondeu: “Fico feliz por si, mas prefiro não me manter informada sobre isto. Você está a arriscar a saúde da criança que está a editar. Eu simplesmente não entendo por que é que está a fazer isto. Desejo à sua paciente uma boa sorte para uma gravidez saudável”.

Mais tarde, Craig Mello voltou a sublinhar que não estava de acordo com a experiência que He Jianku estava a conduzir:

Só quero que saiba como me sinto em relação ao uso do CRISPR [ferramenta de edição genética] em humanos. Acho que está a correr um grande risco e não quero que ninguém pense que aprovo isto. De qualquer modo, os indivíduos modificados, espero que eles não assumam que são resistente ao VIH, embora possam ser”.

O investigador também aproveita para partilhar as preocupações que tinha com He Jiankui: “Não sei de nada, mas é possível que o [gene] CCR5 tenha outras funções de que não saibamos, por isso há um risco de o paciente ser deficiente de alguma forma”. Depois, fez um pedido de desculpas: “Peço desculpa por não poder apoiar mais este esforço. Eu sei que tem boas intenções”, conclui Craig Mello.

No entanto, os e-mails sugerem que o papel de Craig Mello pode ter sido mais profundo do que essas mensagem sugerem: foi o Nobel da Medicina que apresentou o cientista chinês a um colega para obter conselhos sobre “riscos pediátricos de transmissão de VIH para uma terapia que ele [He Jiankui] está a contemplar”, diz a Associated Press, citando um e-mail a que teve acesso.

Mais tarde, He Jiankui respondeu ao investigador a dizer que “tinha recebido a mensagem”: “Pensei que estaria interessado em aprender mais sobre edição do genoma de embriões. Não lhe darei mais novidades no futuro”, prometeu o cientista chinês. E acrescentou: “A razão médica para editar geneticamente o CCR5 é para agir como uma ‘vacina contra o VIH’ para os bebés, para dar proteção vitalícia contra infeções com VIH. Não é urgente, mas é útil”.

Apesar de saber das intenções de He Jiankui, e de como essas intenções tinham chegado a bom porto, Craig Mello continuou a ser conselheiro do cientista chinês na empresa Direct Genomics até pouco depois de as experiências terem chegado a público. Saiu em dezembro, quando as bebés já tinham nascido e o debate em torno do assunto rebentou. Agora, também Craig Mello está a ser alvo de críticas por ter protegido He Jiankui mesmo sabendo que a edição genética em humanos é proibida: “Parece que houve muitas oportunidades perdidas”, lamentou Leigh Turner, especialista em bioética da Universidade de Minnesota, à Associated Press.

Questionado sobre o assunto pela Associated Press, Craig Mello disse não querer prestar declarações. Mas num comunicado enviado pela universidade, o cientista tinha dito que não sabia que He Jianhui tinha “interesse pessoal” em editar genes humanos. Craig Mello também tinha afirmado que não sabia que He Jiankui que tinha meios para levar essas experiências a cabo e que as discussões que os dois mantinham sobre o tema eram “hipotéticas e amplas”. Estes e-mails desmentem-no.

Craig Mello ganhou o Nobel em 2006 pela descoberta da interferência de ARN, um mecanismo exercido por moléculas semelhante ao ADN, mas mais simples, que impede que alguns genes sejam copiados. Os bisavós, Eugénio Castanho de Melo e Maria da Glória Barracôa, eram açorianos, naturais da freguesia da Maia, na ilha de São Miguel, mas emigraram para os Estados Unidos no início do século XX. Craig nasceu em New Haven, no estado do Connecticut, e tem 59 anos.

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