Fyre, o festival de luxo que, em abril de 2017, prometeu uma experiência única numa ilha das Bahamas, começou por se revelar um fiasco para depois ser classificado como fraude. Em janeiro deste ano, o documentário “Fyre — The Greatest Party that Never Happened”, da Netflix, trouxe ao de cima todos os detalhes sórdidos do projeto megalómano do rapper Ja Rule e do empresário Billy McFarland. Depois de prometerem acomodações luxuosas e comida gourmet, atrativos que justificavam o facto de os bilhetes custarem entre 1.000 e 12.500 dólares (entre 875 e 10.934 euros), o cenário com que os cerca de 7.000 festivaleiros se depararam foi, no mínimo, diferente — uma organização precária, tendas usadas em campos de refugiados e sandes de queijo.

Mas uma das faces mais intrigantes do caso é precisamente a campanha de marketing feita em torno do festival. Kendall Jenner e Bella Hadid, duas das supermodelos do momento, deram a cara pelo Fyre — a primeira terá recebido 250.000 dólares (quase 220.000 euros) por uma publicação de Instagram em que anunciava a venda dos bilhetes e um código promocional, enquanto a segunda chegou mesmo a aparecer num vídeo promocional daquele que seria um formato inédito de festival numa paisagem paradisíaca. Como elas, também Hailey Baldwin, Emily Ratajkowski, o anjo da Victoria’s Secret Elsa Hosk e Alessandra Ambrosio se associaram ao evento.

Emily Ratajkowski e Bella Hadid entre as modelos que apareceram no vídeo promocional do festival

Segundo o site Women’s Wear Daily (WWD), o investimento terá ultrapassado os 5,2 milhões de dólares, mais de 4.500.000 euros. A investigação em torno do caso, cuja visibilidade aumentou exponencialmente com a estreia do documentário, teve novos desenvolvimentos na última segunda-feira. A pedido do responsável pelo processo de insolvência da Fyre Media, empresa responsável pela organização do festival, um juiz de Nova Iorque assinou várias intimações endereçadas a pessoas que se acredita terem recebido dinheiro da produtora.

“O administrador teve de obter toda a informação relacionada com as ligações financeiras [da Fyre Media] com terceiros”, lê-se nos documentos do tribunal. As intimações são especialmente importantes, segundo os mesmos documentos, “para conseguir um completo entendimento das razões pelas quais estas transferências foram feitas”. A WWD fala em 24 pessoas, nenhuma delas paga abaixo dos 90.000 dólares (cerca de 79.000 euros). Kendall Jenner será uma delas, com as empresas IMG Models, que recebeu 1,2 milhões de dólares (à volta de um milhão de euros), e DNA Model Management, responsáveis pelo agenciamento das restantes modelos, também na mira do tribunal.

No final das contas, clientes e investidores perderam à volta de 26 milhões de dólares (cerca de 22.700.000 euros), segundo o The Guardian. Embora, em 2017, a Federal Trade Comission tenha advertido celebridades e influenciadores para a necessidade de identificarem publicações e conteúdos pagos, a verdade é que não há como responsabilizá-los pelo produto ou, neste caso, pelo evento.

Ainda assim, Bella Hadid foi a primeira envolvida na promoção do Fyre Festival a pronunciar-se sobre o caso. “Inicialmente, acreditei que isto poderia ser uma experiência surpreendente e memorável para todos nós, por isso é que concordei em fazer uma promoção… sem saber o desastre que estava por vir… Lamento imenso e sinto-me mal porque não pude estar lá. Se soubesse que seria este o resultado, todos vocês teriam sabido também”, escreveu a modelo no Twitter, numa publicação entretanto eliminada.

Depois do escândalo do Fyre Festival e de, em julho do ano passado, ter sido considerado culpado por um esquema fraudulento de venda de bilhetes, Billy McFarland foi condenado, em outubro, a seis anos de prisão. Enquanto isso, o processo de insolvência da sua empresa, a Fyre Media continua em curso.