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Gary Neville, o último jogador a confessar ter sofrido depressão no futebol: “Perdi tudo em seis meses”

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"Se há 20 anos falasse em saúde mental num balneário, era gozado", revelou o ex-Manchester, dizendo que "não queria a bola" e "esteve quatro semanas sem fazer absolutamente nada".

Gary Neville foi adjunto da seleção inglesa durante vários anos e depois treinou o Valência

Getty Images

Ederson, Buffon, Ferdinand, Carrick. Em comum têm o facto de serem — ou terem sido — jogadores de futebol nas melhores ligas do mundo e em alguns dos clubes mais bem sucedidos da Europa. Mas o brasileiro, o italiano e os dois ingleses são também apenas quatro dos jogadores de futebol que recentemente decidiram revelar que, num dado momento da carreira, sofreram de depressão. Ederson chegou a pensar deixar o futebol; Buffon contou que sofreu um ataque de pânico antes de um jogo; Ferdinand explicou que “era capaz de beber dez pints” e depois “passar para a vodka”; e Carrick garantiu que estava “totalmente dormente”. Esta terça-feira, foi a vez de Gary Neville, histórico capitão do Manchester United e da seleção inglesa, contar a sua própria história.

Em entrevista ao podcast Blank, o atual comentador da Sky Sports falou sobre o tempo em que “perdeu tudo em seis meses”. Foi em 2000, na reta final da temporada com o Manchester United e depois do mau resultado da seleção inglesa no Campeonato da Europa da Bélgica e da Holanda, conquistado pela França. “Tive um mergulho massivo. Terminei uma relação de sete anos e tive culpa nos dois golos que sofremos contra o Vasco da Gama, no Brasil, no Mundial de Clubes. E fomos eliminados aí. Foi mesmo antes do Campeonato da Europa de 2000, com o Kevin Keegan. As pessoas provavelmente nem se lembram. Fui abaixo. Entrava dentro de campo distraído, a pensar noutras coisas”, explicou o antigo jogador, agora com 43 anos.

“Não queria a bola, não tinha confiança, não acreditava em nada, não sabia de onde é que o meu próximo jogo iria acabar. Não sabia de onde é que o meu próximo bom passe iria sair. Perdi tudo em seis meses e precisava muito das férias de verão depois do Europeu”, acrescentou Neville, irmão do também ex-jogador Phil Neville, atual selecionador da seleção feminina de Inglaterra.

O antigo lateral direito explicou ainda que só revelou à família e aos amigos mais próximos que consultou um psicólogo nesse período de seis meses “há cerca de três anos”, porque na altura teve medo de que tudo fosse entendido como uma fraqueza. “Agora cuidamos mais dos jogadores e os jogadores também têm mais consciência. Se há 20 anos falasse em saúde mental ou depressão num balneário, seria gozado e diziam-me para seguir em frente. Naquela altura, contar aos meus colegas e dizer-lhes que estava a ser acompanhado por um psicólogo seria visto como uma fraqueza — na vida e não só no futebol”.

Gary Neville com David Beckham, em fevereiro de 2000

Gary Neville, que fez mais de 400 jogos pelo Manchester United e nunca representou qualquer outro clube ao longo de quase 20 anos de carreira, foi adjunto de Roy Hodgson na seleção inglesa de 2012 e 2016, tendo estado presente no Mundial do Brasil e na qualificação para o Europeu de França, e depois chegou a orientar os espanhóis do Valência entre dezembro de 2015 e março de 2016. O antigo lateral explicou ainda ao podcast que a ideia de contar a Alex Ferguson, então treinador dos red devils, que estava com os níveis de confiança em baixo nunca lhe passou pela cabeça. “A ideia de falar com um patrão — no futebol ou noutro trabalho qualquer — e dizer que estou muito mal e que a minha confiança está em baixo… É ele que escolhe a equipa! Por isso não me senti confortável. Então perguntas a ti mesmo: ‘Com quem é que eu falo?’. E a pessoa em quem mais se confia num clube de futebol é o médico. Ele disse-me para ir ver alguém e eu fui. Nunca o vi como um psicólogo, via-o como alguém em quem podia confiar e com quem podia falar e que me ia ajudar a ter noção das minhas emoções e dos meus pensamento e a compartimentá-los”, explicou Neville.

O estado de espírito do inglês começou a melhorar depois do verão de 2000, com o recomeço da competição e o início da nova temporada, após “quatro semanas sem fazer absolutamente nada”.

19 anos depois de “perder tudo em seis meses”, Gary Neville é agora dono de uma parte do Salford City, num projeto pouco comum que envolve outros nomes do futebol do início deste século e do Manchester United: em 2014, Paul Scholes decidiu comprar o clube de infância, o Salford City, e convidou Ryan Giggs, Gary Neville, Phil Neville e Nicky Butt para adquirirem também eles um fatia de 10% do emblema inglês. Os cinco jogadores venderam depois os restantes 50% do Salford a Peter Lim, o empresário que é também sócio maioritário do Valência: na semana passada, David Beckham anunciou que se iria juntar aos antigos colegas de equipa de Old Trafford e comprou 10% das ações de Lim.

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