“Não podemos voltar as costas ao futuro”. A frase é do ministro do Ambiente e foi proferida esta quarta-feira no programa “Negócios da Semana”, da SIC Notícias. Instado a comentar as declarações que proferiu sobre a perda de valor dos carros a gasóleo a médio prazo, quatro a cinco anos, João Matos Fernandes afirmou: “Portugal não pode nem vai ficar de fora dessa transformação, está numa posição magnífica para estar na liderança dessa transformação”.

Em relação à perda de receita fiscal que originaria o fim da utilização dos veículos a combustão para o Estado (mais de cinco mil milhões de euros), um tema até aqui pouco discutido, Matos Fernandes acedeu que seria uma perda significativa. Sugeriu que há outras fontes de receita possíveis, não respondeu diretamente, mas pareceu não descartar que a perda pudesse ser compensada com mais impostos e menos subsídios sobre os veículos elétricos do que os atuais, ao dizer que o sistema de fiscalidade deve depender no futuro mais de fatores quantitativos — como o número de quilómetros percorridos — do que o grau de emissões poluentes do veículo:

A mobilidade tem de ter um sistema de fiscalidade que esteja cada vez mais associado ao quilómetro e aos espaço que é ocupada. Só dessa forma é que damos racionalidade a todo o modelo e isso só é comparável se todos os veículos na equação forem comparáveis”, apontou.

Até 2030, o ministro de António Costa tem um desejo ou objetivo (não ficou claro qual seria): “Um terço dos automóveis ligeiros que circulam em Portugal serem automóveis elétricos”. Matos Fernandes acredita que “daqui a quatro ou cinco anos um veículo elétrico custará provavelmente menos do que custa um veículo a combustão”. Mais: “Já hoje, para as empresas — que recuperam o IVA — a diferença é mínima. Os valores até podem pender já hoje para um automóvel elétrico”.

Afirmando, ainda assim, que “não há nenhuma razão” para que as oficinas dos automóveis a combustão “deixem de o ser” — isto é, de produzir automóveis como os que produzem –, Matos Fernandes foi questionado sobre a dificuldade dos portugueses em carregar as baterias dos veículos elétricos, face às poucas opções para carregamento. “Quem não tem garagem tem de o carregar na rua ou no posto de trabalho”, apontou.

Um dia cheio e com muitas declarações

Horas antes de estar no programa de economia e entrevistas da SIC Notícias, o ministro do Ambiente já tinha comentado e explicado as suas (polémicas) declarações. Explicou porquê, em declarações prestadas à margem de uma apresentação sobre neutralidade carbónica na Universidade de Coimbra: segundo ele, a redução do valor de mercado desses automóveis deve-se à mudança do setor para alternativas mais amigas do ambiente.

João Pedro Matos Fernandes foi de Lisboa a Coimbra de carro elétrico e parou uma vez pelo caminho para carregar o automóvel, conta a TSF. “Os carros elétricos têm cada vez mais autonomia e por isso é possível fazê-lo. Já fui até Vila Real de carro elétrico. Não estou aqui para enganar ninguém: há muitas deslocações que faço, nomeadamente quando se afastam de Lisboa e do Porto, principalmente da A1 e da estrada para o Algarve, onde ainda não consigo ir de carro elétrico”, disse o ministro durante o evento.

No entanto, diz que achou “avisado fazer este aviso”: “Aquilo que eu quis dizer não foi contrariado por ninguém. Muito provavelmente, daqui a quatro ou cinco anos, quem tiver um carro a diesel vai ter um valor mais baixo na sua troca”, sublinhou João Pedro Matos Fernandes. E defendeu-se, evocando presidentes de empresas de automóvel, outros políticos e estudos científicos, conta a TSF.

Matos Fernandes durante uma visita à zona de intervenção de limpeza do fundo do rio Tejo, em 2018. @ ANTÓNIO JOSÉ/LUSA

“Temos todos os estudos que estão no Roteiro Nacional de Carbono, temos o facto de um ano antes de o ministro dizer isto em Portugal o número de carros a diesel ter reduzido a venda em 10%. Tenho as palavras do presidente do Automóvel Club da Holada que no ano passado disse que era obrigação dele avisar os associados que o valor de retoma desses carros ia baixar. Tenho as palavras da senhora comissária da indústria, que há menos de um ano disse que o diesel é uma tecnologia a descontinuar”, argumentou o ministro do Ambiente.

E continuou: “Tenho as palavras de Volvo, que diz que 2019 será o último ano em que fabricará carros a diesel. Tenho as palavras da Volkswagen, que diz que em 2026 não fará mais veículos a combustão. Tenho as palavras do presidente da Renault, que diz que os clientes perguntam-lhe o que vão fazer com os carros a diesel”.

Para João Pedro Matos Fernandes, as declarações que fez ao Negócios e que sublinhou à TSF não prejudicam a indústria portuguesa porque ainda pode apostar em novos componentes. No entanto, o ministro reconhece que, sendo assim, há que reforçar a rede de abastecimentos de carros elétricos.