Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional venezuelana, revela em artigo de opinião publicado no The New York Times que teve “reuniões clandestinas” com membros das forças armadas e das forças de segurança — e confirmou a ideia já avançada anteriormente de que será dada amnestia a todos os militares, exceto aqueles que venham a ser condenados por crimes contra a humanidade. “A maioria daqueles que estão no serviço militar concordam que os problemas do país chegaram a um ponto inadmissível”, argumenta Juan Guaidó.

Há uma escassez grave de medicamentos e comida, um número crescente de crianças estão a sofrer de malnutrição e doenças que tinham sido erradicadas voltaram a aparecer. Temos uma das maiores incidências de crime de homicídio em todo o mundo, o que é agravado pela perseguição brutal do governo aos seus opositores. Esta tragédia provocou o maior êxodo de pessoas na história da América Latina, com três milhões de venezuelanos a viverem fora do país.”

O presidente da Assembleia Nacional recusa a ideia de que se tenha “autoproclamado” chefe do Estado. “Não foi por minha decisão que assumi a posição de Presidente naquele dia, mas por respeito à Constituição”, cujo artigo 233º define que à falta de um chefe do Estado eleito, o poder passa para a Assembleia Nacional até que possa haver eleições livres e transparentes. O texto é escrito em inglês, num jornal norte-americano, mas dirige-se, logo no título, aos “venezuelanos”: “a nossa força estará na união”.

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Guaidó, que argumenta que mais de 50 países reconheceram a Assembleia Nacional como principal autoridade neste momento, reconhece que para que a transição possa ser feita com “o mínimo de derramamento de sangue” será necessário o “apoio dos contingentes militares chave”. “O tempo de Maduro está a acabar, mas para gerir a sua saída com o mínimo de derramamento de sangue, toda a Venezuela tem de se unir para impor um fim definitivo para este regime”, escreve Juan Guaidó, pedindo, para isso, o “apoio de todos os governos, instituições e indivíduos pró-democráticos, por todo o mundo”.

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Num texto onde assume um tom muito pessoal, Guaidó diz que ainda estão alojadas no seu corpo balas que o atingiram durante “protestos pacíficos” em 2017 — “um pequeno preço a pagar, quando comparado com os sacrifícios feitos por muitos compatriotas”, incluindo pelo fundador do partido de Guaidó, Leopoldo López, que está preso há cinco anos.  O presidente da Assembleia Nacional lembra, também, os amigos que perdeu e as dificuldades que viveu nas chuvas torrenciais que mataram milhares de pessoas poucos meses depois da subida ao poder por Hugo Chavez. Essa foi uma das experiências que, diz, lhe deu a “resiliência” que está a empregar neste processo.

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Juan Guaidó aparece, também, esta quinta-feira, numa entrevista ao espanhol El País (feita por telefone). Em declarações onde agradece o apoio do Parlamento Europeu, cujo presidente considerou Guaidó o “nosso interlocutor”, o presidente da Assembleia Nacional venezuelana defende que “na Venezuela não há risco de uma guerra civil”, porque “90% das pessoas no país querem a mudança”.

Mas Guaidó reconhece que “existe o risco de violência” — aliás, essa violência já está a existir. “Mataram dezenas de jovens na última semana. Mais de 140 em 2017”, acusa o presidente da Assembleia Nacional, que diz que o país vive numa ditadura e que, “se a usurpação cessar, por exemplo, amanhã, será iniciado um processo de transição e em seis, nove, no máximo 12 meses haverá eleições livres no país”.

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