Era o primeiro dia de duas semanas pelas quais haviam esperado demasiado tempo. Hakeem Al-Araibi, um jogador de futebol a atuar na Austrália, e a mulher tinham acabado e aterrar em Banquecoque, a capital da Tailândia, para duas semanas de uma lua-de-mel adiada pelo estatuto de refugiado do atleta nascido e torturado no Bahrain. Era a primeira vez que Hakeem saía da Austrália, país para onde fugiu em 2014. Nesse dia 27 de novembro de 2018, Hakeem foi preso assim que pôs os pés no aeroporto da capital tailandesa. Dois meses depois, continua preso na Tailândia.

Mas é preciso recuar um pouco para perceber a história desde o princípio. Hakeem, abertamente crítico do Governo do Bahrain e da política de direitos humanos aplicada no país, foi preso pela primeira vez em 2012, acusado de vandalizar uma esquadra da polícia durante um protesto – crime que sempre negou. Na altura, a viver e a jogar no Qatar, esteve detido durante três meses e terá sido submetido a tortura. Em conversa com a CNN – em que falou sozinho numa sala, separado por uma parede da pessoa que está do outro lado do telefone –, contou que acabou por ser libertado quando as autoridades descobriram que, na hora da destruição da esquadra, o defesa central estava a jogar em direto na televisão. A libertação, contudo, nada mais foi do que uma espécie de canto do cisne. Cerca de dois anos depois da detenção, as acusações de vandalismo condenaram-no a dez anos de prisão e Hakeem Al-Araibi fugiu quase de imediato para a Austrália.

As demonstrações de apoio por parte dos adeptos do Pascoe Vale durante os jogos têm sido constantes

Na Austrália, conseguiu de forma temporária um visto de asilo político e em 2017 foi-lhe concedido o estatuto de refugiado. O Pascoe Vale, clube de Melbourne onde jogava à altura da detenção na Tailândia, é já a quarta equipa que o internacional pelo Bahrain representa no país: antes, jogou no Green Gully, no Goulburn Valley Suns e no Preston Lions. Há quatro anos a viver na Austrália e com o estatuto de refugiado a protegê-lo há mais de um, Hakeem achou que tinha chegado a hora de voltar a viver uma vida quase normal e decidiu ir passar a lua-de-mel à Tailândia. A decisão, como se percebeu depois, foi pouco ponderada. Após ser preso no aeroporto, Hakeem foi levado para um centro de detenção onde permaneceu durante duas semanas – a mulher, cujo nome e nacionalidade são desconhecidos, escolheu ficar com ele e dormiu na cela partilhada com outros 60 reclusos. Foi transferido para um centro prisional a 11 de dezembro, dia em que se despediu da mulher, já que a partir daqui não pôde ser acompanhado.

Atualmente, sabe-se que a detenção de Hakeem Al-Araibi por parte das autoridades tailandesas se deveu a um red notice por parte da Interpol, um mandado de captura internacional, que está relacionado com a pena de prisão que o jogador de 25 anos não chegou a cumprir: contudo, estes red notice não são normalmente aplicáveis a refugiados. Apesar dos esforços por parte do executivo australiano, principalmente do ministro dos Negócios Estrangeiros, a detenção de Hakeem foi prolongada por mais 60 dias – para que as autoridades consigam processar a extradição do jogador para o Bahrain. “Eu conheço o meu marido e ele não fez nada de errado. Está a ser castigado por criticar os abusos no Bahrain e estou devastada pelo que vai acontecer se ele não for libertado e autorizado a regressar à Austrália. Não consigo dormir, não consigo respirar, sabendo aquilo que o espera”, escreveu a mulher do jogador, que entretanto voltou a Melbourne por “razões de segurança”, num artigo de opinião publicado no The Guardian.

Craig Foster junto à sede da FIFA, em Zurique, onde reuniu com a direção do organismo para delinear uma estratégia para libertar Hakeem

No mesmo texto, partilhado a 18 de janeiro, a mulher de Hakeem agradece a “todos os meios de comunicação social, organizações de direitos humanos, equipas de futebol e funcionários de alto nível que defenderam publicamente a causa” do jogador”. Na próxima segunda-feira, Hakeem será presente a tribunal e terá de declarar se vai obedecer ao pedido de extradição para o Bahrain ou desafiá-lo. A iminência de um regresso ao país de origem acelerou a campanha de solidariedade internacional que já se tinha criado à volta do jogador de futebol e que considera agora “uma absoluta emergência” a libertação daquele que consideram ser um preso político. Craig Foster, antigo jogador da seleção australiana que chegou a representar o Portsmouth e o Crystal Palace no final dos anos 90, tornou-se o líder do movimento que pretende agitar a FIFA, as autoridades internacionais e os líderes de vários países de forma a obter a saída de Hakeem da prisão – e evitar o regresso ao Bahrain. “Isto é uma retaliação do Governo e da família real do Bahrain e todos os australianos estão a dizer que não vão aceitar isto”, explicou Foster à CNN.

“Este é o derradeiro teste. É o caso que vai provar se as gigantescas implicações políticas e económicas que podem ser extraídas do Médio Oriente têm alguma influência naquilo que é um caso muito básico da lei dos refugiados”, acrescentou o antigo jogador da seleção australiana. Na passada segunda-feira, Craig Foster, acompanhado pelo diretor-executivo da World Players Association, reuniu com elementos da FIFA em Zurique para garantir que o organismo que regula o futebol a nível mundial está a fazer tudo aquilo que pode para conseguir a libertação de Hakeem. Foster tem reunido com outras organizações desportivas e de defesa dos direitos humanos, como é o caso do Comité Olímpico Internacional, da Amnistia Internacional e da Human Rights Watch, que juntas estão a pressionar o Governo tailandês e o regime do país.

Além do medo de regressar ao Bahrain, que o mantém acordado durante a noite “a pensar até doer a cabeça”, Hakeem Al-Araibi só pensa nas saudades que tem da mulher. “Estou a chorar por dentro, tenho muitas saudades dela, estávamos juntos todos os dias. Não há um único dia em que não tenha saudades dela. Amo-a muito e preocupo-me muito com ela”, desabafou o antigo jogador. Já a mulher, que garante que não vai esquecer a imagem do marido no último dia em que o viu, “com a roupa da prisão, de cabeça rapada e sem barba”, só faz um pedido: “Ajudem-me a salvar o meu marido”.