Poucos sabiam que estava doente. Poucos sabiam que tinha pouco tempo de vida. A 1 de fevereiro de 2014, há cinco anos, Luis Aragonés morreu pouco depois das seis da manhã numa clínica no centro de Madrid. A notícia, que apanhou de surpresa o mundo do futebol no geral e Espanha em particular, tornou-se ainda mais misteriosa quando foi conhecida a causa de morte. O treinador espanhol, que morreu aos 75 anos, sofria de leucemia há vários meses. Mas poucos sabiam.

Até porque apenas dois meses antes, em dezembro de 2013, Aragonés tinha garantido que ainda não tinha pendurado o bloco de notas. “A idade vai-nos retirando a todos, mas eu estou no ativo. Não me retiro”, afirmou naquela altura, acrescentando até que tinha um convite para treinar uma seleção. Quando morreu, já não treinava há quase cinco anos. O último clube que ouviu a frase “ganhar, e ganhar, e ganhar, e voltar a ganhar, e ganhar, e ganhar, e ganhar, e isso é o futebol, senhores”, a fórmula motivadora que repetiu a todos os jogadores que treinou, foi o Fenerbahçe. Chegou à Turquia no verão de 2008, na ressaca da conquista do Campeonato da Europa com a seleção espanhola, e prometeu o título nacional; ficou em quarto lugar e acabou despedido no verão seguinte.

Luis Aragonés foi o homem que criou uma dinastia espanhola nos principais torneios de seleções e que deu o pontapé de saída para algo que nunca tinha sido feito: a conquista de dois Europeus consecutivos e do Mundial intercalar pela mesma seleção nacional. O treinador, conhecido como o Sábio de Hortaleza – o bairro de Madrid onde nasceu –, garantiu uma identidade própria a uma equipa que não vencia qualquer competição de seleções desde 1964, ano em que organizou e conquistou o Campeonato da Europa (com jogadores como Jesús María Pereda, Amancio Amaro e Ignacio Zoco). “Gostaria de que a seleção tivesse um nome, uma identidade. Tal como o Brasil é a canarinha ou a Argentina é albiceleste, gostaria de que Espanha fosse La Roja“, desabafou Aragonés pouco depois de assumir o comando técnico da seleção espanhola. Fê-lo em 2004, na ressaca do Europeu realizado em Portugal em que Espanha não foi além da fase de grupos (num grupo foram apurados Grécia e a Seleção Nacional, as duas equipas que acabariam por disputar a final): substituiu Iñaki Sáez, que se demitiu no seguimento da fraca campanha no Euro, e foi imediatamente criticado por deixar cair das convocatórias nomes quase intocáveis como Michel Salgado ou Raúl. Introduziu um jogo baseado na posse de bola e na eficácia, nos primórdios daquilo que mais tarde ficou conhecido como tiki taka e que Pep Guardiola tão bem aproveitou no Barcelona, e rapidamente deixou claro que o objetivo de Espanha era vencer todos os jogos – não necessariamente golear em todos os jogos, não necessariamente marcar mais do que um golo, apenas não sofrer, marcar um e ganhar.

Aragonés a ser atirado ao ar pelos jogadores, nas comemorações da conquista do Europeu, já em Madrid

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No Mundial de 2006, que Itália acabou por vencer, Aragonés levou a seleção espanhola até aos oitavos de final, onde o golo inaugural de David Villa não chegou para fazer frente aos três de Franck Ribéry, Patrick Vieira e Zinedine Zidane e evitar a vitória francesa. Seguia-se o Euro da Áustria e da Suíça, em 2008. Depois de duas derrotas nos dois primeiros jogos da qualificação, o nome, a manutenção e o lugar de Luis Aragonés foram colocados em risco: após duas eliminações em fases ainda embrionárias das fases finais, em 2004 e 2006, era impensável que Espanha não estivesse no Euro. A seleção espanhola acabou por conseguir apurar-se e após vencer todos os jogos da fase de grupos bateu Itália, Rússia e a Alemanha na final para chegar ao título que escapava há mais de 40 anos. E para isso, muito terá contado a superstição do selecionador: com uma aversão quase inexplicável à cor amarela e confrontado com a inevitabilidade de jogar com o equipamento alternativo, amarelo, na meia-final com a seleção russa, Aragonés recusou proferir o nome da cor e referiu-se sempre ao equipamento como sendo mostarda. Amarela, mostarda ou roja, a verdade é que a camisola da seleção espanhola chegou naquele ano ao topo do futebol mundial e abriu portas ao legado do sucessor Vicente del Bosque, que com um herdado tiki taka e uma reforçada confiança, conquistou o Mundial 2010 na África do Sul e o Euro 2012 na Polónia e na Ucrânia.

Foi precisamente para comemorar os dez anos dessa conquista histórica na final do Ernst-Happel-Stadion, em Viena, onde Fernando Torres marcou aos 33 minutos e anulou uma seleção alemã que tinha Ballack, Klose e Podolski, que a Federação espanhola partilhou no passado mês de dezembro um documentário sobre a campanha da La Roja no Euro 2008. O filme, feito a partir de dez horas de gravações que pertenciam a Jesús Paredes, braço direito de Aragonés, mostra as palestras, as conversas e os raspanetes do selecionador aos jogadores e revela arestas que compõem a ideia que o futebol tem do treinador: alguém que não passa ao lado de ninguém. “Luis, o sábio do êxito”, deixa perceber que Luis Aragonés tinha uma confiança imensa na equipa que orientava e acreditava que se o sucesso não fosse alcançado, a responsabilidade seria exclusivamente sua. “Vocês formam um grupo e já vos disse isso. Se não estou na final com esta equipa, sou uma merda. Organizei uma merda de equipa. Agora a única coisa que vos peço é que joguem, que se divirtam a jogar, mas a marcar”, disse o treinador na última palestra antes de um dos jogos decisivos do Campeonato da Europa.

Foi “um jogador muito mau mas muito preparado”, como se descreveu, e passou dez anos ao serviço do Atl. Madrid. Quando saltou de dentro das quatro linhas para o banco técnico, treinou os colchoneros em quatro ocasiões distintas (além de Betis, Barcelona, Espanhol, Sevilha, Valência, Oviedo, Maiorca e Fenerbahçe) e conquistou um Campeonato, três Taças do Rei e uma Supertaça espanhola no Vicente Calderón. Aragonés é uma lenda no Atleti assim como o é na seleção espanhola, e é por isso que esta sexta-feira, dia em que assinalam cinco anos da sua morte, foi recordado pelo clube, pela Federação e por dezenas de jogadores que em comum têm a utilização de uma palavra: “inesquecível”. No Twitter, o Atl. Madrid garantiu que o treinador estará “sempre nos corações” de todos aqueles que apoiam o clube; Casillas agradeceu por tudo aquilo que o mister lhe deu; e Fernando Torres, marcador do golo que valeu a vitória no Euro 2008, escreveu: “Cinco anos depois, sempre na minha memória. Obrigado, Luis”.

Luis Aragonés morreu há cinco anos mas deixou para trás um legado que teve em Del Bosque e Guardiola dois fiéis discípulos. O filho, também Luis, garante que o pai teria gostado de morrer no banco, a cheirar a relva e a ver golos. “Houve um momento em que deixou de separar a vida do futebol. O meu pai, quando falava, fazia-o sobre o futebol e a vida”, contou ao ABC. O sábio Aragonés só queria “ganhar, e ganhar, e ganhar, e voltar a ganhar, e ganhar, e ganhar, e ganhar”. Porque “isso é o futebol, senhores”. Mas esqueceu-se de que na vida, que deixou de separar do futebol, nem sempre é possível ganhar.