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Slack. Como a aplicação que quer acabar com o email se prepara para entrar em bolsa

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A empresa deve entrar em bolsa este ano através de listagem direta. Estratégia beneficia acionistas mais antigos e trabalhadores. A aplicação tem 10 milhões de utilizadores e quer acabar com o email.

O Slack permite a empresas comunicar internamente através de uma aplicação para telemóveis e computadores

ERIC BARADAT/AFP/Getty Images

O Slack deu início ao processo para entrar em bolsa ainda este ano. A empresa foi criada para “matar o email“: disponibiliza uma plataforma de mensagens, partilha de documentos e colaboração para a comunicação interna de empresas. Tem 10 milhões de utilizadores ativos, 85 mil empresas a pagar por serviço ilimitado e uma avaliação de 7 mil milhões de euros.

O Wall Street Journal avança que o Slack se deve lançar no mercado bolsista através da cotação direta das ações, um método pouco usual que também foi utilizado pelo Spotify para entrar em bolsa, em 2018. Em vez de pagar a grandes bancos e investidores para mediar a entrada em bolsa da empresa, e garantir estabilidade na cotação da mesma, o Slack vai permitir que os acionistas da empresa vendam diretamente ao público. O método garante, em princípio, lucros mais imediatos para os trabalhadores da empresa e investidores iniciais, que estariam proibidos de vender ações durante vários meses se se tratasse de uma entrada em bolsa tradicional. Para a startup, implica que não há um aumento de capital com a entrada em bolsa, por não serem emitidas ações, e há um maior risco de grandes flutuações no valor da empresa — o Slack quer entrar em bolsa com uma avaliação de 10 mil milhões de euros.

Quando o Slack chegou ao mercado, em 2013, não havia falta de plataformas alternativas para trocar mensagens. O Skype, lançado em 2003, dominava o espaço de trabalho. A troca de mensagens através da Internet era uma ideia antiga (em 1988, antes de haver World Wide Web já existia o Internet Relay Chat). Com o crescimento das redes sociais as mensagens pessoais passaram a estar associadas às plataformas de partilha (o Facebook, por exemplo, lançou o Messenger como serviço autónomo).

Mas o Slack quis tornar-se num pilar central dos espaços de trabalho na era digital. Em 2015, o presidente e fundador da empresa, Stewart Butterfield, definia metas altas: o Slack devia mudar o mundo profissional como a Microsoft mudara a tecnologia pessoal, e devia fazê-lo enquanto ultrapassava o volume de negócios do Facebook. Hoje, em termos financeiros, o Slack continua longe do Facebook — teve receitas de mil milhões de euros no ano passado, contra os 55 mil milhões de euros do Facebook no mesmo período — mas encurtou a distância para a Microsoft quando se fala de impacto prático.

Da lista anual da Forbes de 100 melhores empresas do mundo, 65 usam o Slack. Há várias organizações a utilizar esta aplicação em grande escala, da NASA à Starbucks. Para as empresas, o serviço custa todos os meses 5 a 10 euros por utilizador. O que diferencia o Slack de outras plataformas de troca de mensagens é a fluidez: o sistema foi construído para organizar informação. Slack é o acrónimo de Searchable Log of All Communication and Knowledge, ou seja, Registo Pesquisável de Todo o Conhecimento e de toda a Informação, em português.

Por dia, um trabalhador médio recebe 122 emails e o Slack quer substituir esse método de comunicação, abolindo a noção de uma caixa de entrada. Os grupos de trabalho são organizados em canais, por equipa ou por projeto, e cada mensagem enviada num canal pode ser transformada num post com respostas diretas, organizadas como um grupo de Facebook. Podem ser partilhados ficheiros e fotografias e é possível marcar os colegas diretamente para chamar a atenção de alguém. E a aplicação integra crescentemente outros serviços: o Slack está construído para ser a casa de toda a comunicação dentro de uma empresa, e para o fazer articula-se com aplicações estabelecidas como o Google Drive, o Asana ou a Adobe Creative Cloud.

De uma cabana no Canadá para o Flickr, que vendeu por 22 milhões à Yahoo

O homem por detrás da startup, Stewart Butterfield, tem um percurso pouco habitual entre os empreendedores tecnológicos. Cresceu numa cabana no Canadá, porque o pai fugiu dos Estados Unidos da América para não ter de lutar na Guerra do Vietname. Teve água corrente aos quatro anos, eletricidade aos cinco e um computador aos sete anos, quando se mudou para Vancoover. Estudou filosofia em Cambridge antes de entrar na bolha tecnológica e lançou um website de partilha de fotografias, o Flickr, que vendeu à Yahoo por 22 milhões de euros em 2005. Deixou a liderança da empresa três anos depois para se dedicar à família e cuidar do seu “crescente rebanho de alpacas“.

Este filósofo-CEO quer dar consciência social à ferramenta de comunicação que desenvolveu. “Acho que como espécie não estamos equipados para lidar com o poder destas ferramentas, como também não estamos equipados para lidar com calorias infinitas. É assim que as pessoas ficam com diabetes”, afirma em entrevista à Time, Continua: “Vamos todos ter diabetes cognitivos e emocionais por pensarmos demasiado com pessoas que não estão perto de nós fisicamente“. O Slack tem opções automáticas que definem as horas em que o trabalhador deixa de receber notificações da aplicação, é o Do Not Disturb Time (Tempo sem Preocupações). Servem para impedir uma lógica de trabalho constante e diminuir a tensão nas comunicações profissionais (dar slack, folga).

Pela frente, o Slack tem agora dois gigantes tecnológicos: o Facebook lançou uma plataforma profissional, o Workplace, em 2016. Em 2017 — depois de, segundo o Business Insider, ter ponderado tentar comprar o próprio Slack — a Microsoft lançou o Teams, para competir no mesmo espaço. E se o esforço do Facebook parece ter falhado ao fim de dois anos (tem menos de 1% do mercado), o Microsoft Teams segue à frente do Slack (com 23% do mercado, para os 15% do Slack), de acordo com os dados da Spice Works para 2018.

Prestes a entrar em bolsa, Stewart Butterfield, disse em declarações ao San Francisco Business Insider, que se sente protegido pelo percurso dos rivais: “Alguns dos melhores exemplos da história, começando com a Microsoft em frente à IBM, que era a maior e mais poderosa corporação do mundo na altura” mostram-lhe que “a startup pequena e focada, com boa tração e com clientes, pode vencer contra um gigante estabelecido”. Conclui que “quanto maior se é menos eficaz é cada dólar”.

Como a caracteriza o próprio presidente e fundador, o Slack tem uma abordagem “oportunista” na busca de dinheiro. Desde 2013, conseguiu reunir mais de mil milhões de euros em investimento privado. O valor está acima das despesas do Slack, sugerindo que a startup está a acumular fundos para se defender de possíveis flutuações de mercado. Pelo caminho tornou-se num unicórnio, ao ter uma avaliação de mercado acima dos mil milhões de dólares.

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