A Ordem dos Médicos denunciou, a administração do hospital não desmentiu. A urgência pediátrica do Garcia de Orta, em Almada, corre o risco de fechar durante o período noturno por falta de médicos, estando atualmente a funcionar “em cima da linha vermelha”, disse o bastonário da Ordem à agência Lusa. Miguel Guimarães indicou que o número de pediatras nos quadros do Garcia de Orta é “insuficiente e compromete a qualidade e segurança” dos serviços prestados às crianças que vão à urgência.

Já o presidente do conselho de administração do Hospital Garcia de Orta, em Almada, explicou à Lusa que a falta de pediatras se deve ao fim de contrato de nove médicos, que saíram para o setor privado. “Isto é uma situação que derivou da cessação de contrato com nove médicos, dos nossos 38 pediatras. Isto aconteceu num quadro de enorme escassez de profissionais desta especialidade em todos os serviços públicos do Serviço Nacional de Saúde, mas também no setor privado e estes nove médicos praticamente foram todos para o setor privado, certamente por condições contratuais mais atraentes”, esclareceu Joaquim Ferro.

Contudo, o responsável adiantou que o hospital já está a avançar para a contratação de novos profissionais.

O presidente do conselho de administração não comentou a afirmação de que a urgência pediátrica corre o risco de fechar, mas avançou que já estão a desenvolver medidas para “combater a situação a curto prazo”, o que passa pelo reforço de meios e uma melhor articulação com os centros de saúde do concelho.

O bastonário da Ordem dos Médicos, o presidente da secção regional do Sul e outros elementos da Ordem visitaram em janeiro o Garcia de Orta e reuniram-se com profissionais e também com a administração. A visita ocorreu depois de a Ordem ter recebido denúncias que apontavam para as dificuldades sentidas na área da pediatria quanto à falta de médicos.

Para o bastonário, Miguel Guimarães, “não existem as condições adequadas de segurança clínica” ao nível da urgência de pediatria e os médicos estão a “assumir uma responsabilidade enorme ao estarem sozinhos no serviço”.

O bastonário indica que a equipa de pediatria na urgência devia ter pelo menos dois médicos e que nem isso está a ser assegurado.

É uma situação complexa e grave e pode levar a que o Garcia de Orta não consiga assegurar a urgência 24 horas e sete dias por semana. Pode ter de encerrar à noite”, indicou à Lusa.

Miguel Guimarães considera que durante a noite a situação é mais complicada, porque durante o dia o serviço de urgência pode contar com ajuda do serviço de pediatria do hospital caso seja necessária uma intervenção adicional.

“Será mais sensato constituir as equipas tipo com os médicos que existem e haver períodos em que não há urgência pediátrica, sendo as crianças referenciadas para outros hospitais com pediatria”, argumentou.

O bastonário lembra que “quem assume sempre a responsabilidade pelo serviço é o médico” e comenta que ao longo dos anos “as coisas vão emagrecendo” em termos de recursos e que as pessoas vão aceitando trabalhar em condição que não são adequadas. “A probabilidade de existir alguma complicação ou erro é maior”, adverte, acrescentando que o Ministério da Saúde não tem resolvido as “deficiências graves” de recursos humanos nos hospitais.

No entanto, o presidente do conselho de administração do Hospital garante que a equipa vai crescer. “O reforço de meios temos conseguido por duas vias. Uma é o reforço do corpo clínico permanente e a outra o recurso a prestadores de serviços. No caso do reforço clínico permanente as coisas estão bem encaminhadas, já conseguimos dois médicos que esperamos que iniciem funções nos próximos dias e espero também que o próximo concurso nacional nos permita também ter mais três médicos. Conseguimos também no mercado mais 10 novos prestadores de serviços, aliás, três dos quais cedidos pelos cuidados de saúde primários, que estão nestes últimos dois meses a integrar as nossas escalas”, explicou.

Para Joaquim Ferro, a diminuição da afluência ao hospital deve passar por uma maior aposta e sensibilização de que os cuidados de saúde primários têm qualidade para atender situações de urgência de baixa complexidade.

“Temos que apostar mais na sensibilização da população de que o problema da doença aguda pediátrica, menos complexa, tem resposta nos cuidados de saúde primários e nós temos estado a trabalhar com a Administração Regional de Saúde (ARS) de Lisboa e com o Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) de Almada e Seixal no sentido de ter uma melhor resposta, uma melhor disponibilidade para que os utentes com crianças com situações de urgência de baixa complexidade possam ser atendidos nos centros de saúde”, referiu.

Só que os enfermeiros do ACES de Almada e Seixal encontram-se em greve no atendimento complementar aos fins de semana e feriados, desde 1 de dezembro, devido à “atitude inflexível” da direção executiva, que determinou que este serviço fosse “prestado no horário normal de trabalho”, o que poderá estar a causar uma maior afluência ao hospital Garcia de Orta.

Porém, Joaquim Ferro insistiu que, “não só em período de greve, mas também fora”, é preciso que a população “esteja mais sensibilizada” de que existem boas condições nos centros de saúde. “A população pode estar tranquila relativamente à qualidade desses cuidados porque as crianças são tão bem atendidas nos centros de saúde como são no hospital. Temos a certeza disto porque muitos desses médicos também trabalham connosco, muitos foram formados por nós e temos uma articulação estreita, sabemos que essa qualidade existe”, afirmou.