Título: “Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai”
Autora: Jenny Erpenbeck
Editor: Relógio d’Água
Páginas: 280

Acontece por vezes, ao lermos um livro, ao vermos um filme, ao visitarmos uma exposição ou ao ouvirmos uma banda, não sermos capazes de compreender o que nestes nos interessa ou desinteressa ou, pior ainda, não encontrarmos aí nenhum elo de ligação com o que estamos habituados a ver, ler ou ouvir ao ponto de nos vermos incapacitados de produzir discurso sobre os objectos em causa. Uma boa e inteligente solução para este problema, ainda que pouco em voga, é ficar em silêncio. Uma outra alternativa é a de procurar em outros textos produzidos acerca de tão estranhos objectos uma qualquer forma de acesso a estes, que de alguma maneira os ilumine ou que pelo menos reduza a estranheza que nos causaram.

Vem isto a propósito do mais recente romance de Jenny Erpenbeck, Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai, um romance descrito num artigo do New York Times como sendo acerca da identidade internacional da Europa dos nossos dias e do desafio constituído pela crise de refugiados a essa mesma identidade, sendo considerado pelo The Guardian como “um alerta aos leitores, para que se tornem mais atentos e, se possível, mais humanos”. Não estando em disputa a dimensão do problema, a tragédia que este envolve ou a necessidade urgente de uma resposta acolhedora por parte da Europa, a verdade é que crises geo-políticas e humanitárias deste tipo parecem de alguma forma grandes de mais para serem abordadas sob a forma de um romance.

A denúncia política que encontramos no romance é clara e feita nos termos certos, sem diabolizar os alemães (não encontramos uma única personagem que possa ser descrita sob nenhum ponto de vista como nazi ou sequer como eleitora do AfD) nem beatificar os refugiados, que em mais do que um momento se mostram particularmente mal-agradecidos para com a generosidade do protagonista, Richard, um professor universitário recentemente aposentado que encontra por acaso um protesto de refugiados na Alexanderplatz e se aproxima desta comunidade, ajudando-a de forma abnegada, sendo ainda assim perto do fim roubado por um dos jovens que tão generosamente ajudara. Ao fazê-lo, Erpenbeck quer mostrar que ajudar estes homens e mulheres não depende dos méritos que estes eventualmente tenham, mas com a mais elementar noção de caridade.

As promessas feitas no início do livro ficarão assim por cumprir, regressando apenas de forma breve e travestida através de repetições de imagens fortes como a do rapaz no fundo do lago, ou da comparação desta crise humanitária com o que se viveu na Alemanha após a Segunda Guerra ou da dificuldade de se pagar um passe de transportes quando se está impedido de trabalhar e se recebe um subsídio de trezentos euros, dos quais mais de metade são enviados para as famílias em África. Estas repetições não são nunca exploradas ou desenvolvidas em paralelo à narrativa, mas apenas recuperadas tal e qual como surgiram pela primeira vez na história, o que rapidamente se torna exasperante. A melancolia que Erpenbeck tão bem introduz no começo do romance voltará a surgir apenas mais uma vez, quando se descreve a passagem de ano a que Richard vai com um amigo em casa da namorada deste, algumas décadas mais nova. Todavia, esta cena (tal como, imaginamos nós, a própria festa) é arruinada pelo mau gosto da DJ que decide passar o lamentável “We Are The Champions”.

O problema de Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai não está, como importa esclarecer, na escolha de nele se tratar a crise de refugiados, mas antes na opção de colocar essa crise no centro do romance, fazendo das personagens meras setas a apontar para a Líbia, para a Nigéria e para o Gana. O romance tem uma escala demasiado grande, tem demasiadas pessoas cujo rosto não temos maneira de decorar porque dar vida às personagens não implica contar os eventos traumáticos por que estas passaram. Disso, ocupa-se o jornalismo. Ao procurar apenas alertar os leitores “para que se tornem mais atentos”, Erpenbeck transforma-se numa mera repórter das histórias que lhe foram contadas, demite-se do seu papel de escritora, prescinde de moldar de acordo com o seu mister os rostos de refugiados que conheceu em Berlim e prefere deixar que sejam as personagens a escrever o seu próprio livro, com resultados pouco interessantes, como disso é aliás exemplo a atabalhoada conversa com que Eu Vou, Tu Vais, Ele Vai acaba.

Finalmente, a escolha de uma escala tão grande faz com que Erpenbeck muitas vezes não seja capaz de formular acerca das situações que surgem no livro mais do que lugares-comuns cuja pertinência não sabemos bem qual seja, como “o nome dela ainda está vivo, só a pessoa a quem o nome pertence é que não” (p. 145), “depois transpõem a soleira, mas o que é interior e o que é exterior?” (p.207) ou a frase que Erpenbeck considerou tão fundamental que a isolou e repetiu em duas páginas seguidas, que estão de resto em branco: “para onde vai uma pessoa quando não sabe para onde há-de ir?” Não sabemos.

João Pedro Vala é aluno de doutoramento do Programa em Teoria da Literatura da Universidade de Lisboa