Já pensou em comer um bacalhau com broa em cima de um tabuleiro de plástico em pleno centro comercial? Talvez não. Desde dezembro que no Nova Arcada, em Braga, isto é possível. Tudo começou na cabeça de Luciene Moreira, uma brasileira natural do Rio de Janeiro, neta de portugueses e a viver em Braga há quatro anos. Apesar de sempre ter trabalhado na área das telecomunicações, Luciene adora comer e por isso há três anos abriu um franchising da hamburgueria bracarense De Gema. Dessa experiência surgiu a vontade de ter um restaurante próprio, cujo nome espelhasse uma expressão bem portuguesa. “Sou apaixonada pela vossa gastronomia e por isso queria algo gourmet, mas com base no paladar português”, revela em entrevista ao Observador.

Como as suas ideias eram mais do que muitas, chegou à conclusão de que precisava de um chef de cozinha para a orientar e ajudar. “Mas não podia ser um chef qualquer, teria que conhecer muito bem a cozinha nacional.” Enviou um e-mail ao chef Cordeiro, ou chefe, como prefere ser tratado, a desafiá-lo e recebeu um telefonema do próprio. “As coisas às vezes são mais simples do que parecem.”

Oferecer pratos tipicamente portugueses, “com um toque gourmet na confeção e na apresentação”, num centro comercial era a principal missão e foi necessário um ano de testes e provas até chegar ao resultado final. “O objetivo era trazer um conceito que não existisse. Optámos pelo bacalhau, que é nosso, e os ribs, as famosas costelinhas de porco ou de vaca que há em qualquer churrasqueira, mas que aqui são trabalhadas de forma diferente. São ingredientes com os quais eu gosto de trabalhar”, explica José Cordeiro ao Observador.

A cidade de Braga inspirou-o durante todo o processo, afinal “é a única cidade do país que tem o nome dela num prato de bacalhau”, mas também a proximidade com Espanha e com as suas raízes transmontanas. Exemplo disso é o entrecosto de porco grelhado regado com molho transmontano, “feito à base de azeite, alho, especiarias e limão, que não se quer nem muito doce nem muito picante”.

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Cozinhar num centro comercial é uma experiência a que o chef não está habituado, pois exige uma preparação diferente. “Para cozinhar os lombos de bacalhau, por exemplo, temos de ter loiças novas para acelerar processos de cozedura. Criamos uma campânula que tapa o bacalhau e o grelha na totalidade. Temos de estar preparados para servir várias doses, no sábado saíram quase 200.”

“Em Portugal estamos habituados a comer o bacalhau na mesa do restaurante, numa grande travessa e com guardanapos de pano”, no novo Se Calhar… “o serviço é rápido, como os hambúrgueres, mas feito na hora”. Bacalhau à cebolada, à tiborna, ribs confitado às ervas, asas de frango com molho teriyaki, quiches, saladas frias ou com legumes assados fazem parte de uma carta fixa, onde serão introduzidas algumas invenções do chef permanente Jonathan Julião, como a francesinha de bacalhau lançada esta semana.

A ideia é multiplicar o conceito do restaurante para a rua e “no futuro para outras cidades”. “Sinto falta de uma sala com um ambiente mais intimista, onde eu possa falar com os clientes, receber o seu feedback”, confessa Luciene. Quem também nos falou do futuro foi José Cordeiro, que em 2019 assume “apostar no norte do país a 500%”. Sem poder ainda revelar tudo, avança ao Observador que pretende abrir negócios no Porto, onde tem o restaurante Porto Sentido e a marisqueira The Blini, em Vila Nova de Gaia, e no Gerês. “A base será portuguesa, mas vou explorar novos conceitos de street food e outros com toques da cozinha asiática, da qual eu gosto muito.”

O Se Calhar… fica no piso 2 do Nova Arcada e funciona domingo e de segunda a quinta, das 10h às 23h, sexta e sábado, até às 00h. @Octávio Passos/Observador