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Depois de Portugal ver dois dérbis de Lisboa em quatro dias, Espanha recebia um clássico e um dérbi de Madrid também em quatro dias. Na passada quarta-feira, o Real Madrid visitou o Camp Nou e o Barcelona para a primeira mão da meia-final da Taça do Rei e este sábado era tempo de ir até ao Wanda Metropolitano e encontrar o Atl. Madrid para a Liga espanhola. A imprensa desportiva do país, da Marca ao As e passando pelo Mundo Deportivo, explicava que, quer o jogo terminasse com uma vitória de uma das equipas ou mesmo com um empate, o grande beneficiado deste sábado seria apenas um: o Barcelona.

Os catalães, isolados na liderança do Campeonato com 50 pontos, tinham mais seis do que o Atl. Madrid e mais oito do que o Real Madrid, o que significava que a perda de pontos de qualquer uma das equipas da capital era também uma escorregadela de um dos perseguidores. Após o clássico da quarta-feira passada, que terminou empatado a uma bola, Solari apostava no mesmo trio ofensivo que foi titular em Barcelona, com Vinícius, Benzema e Lucas Vázquez e Bale no banco, lançava Casemiro no onze para render o lesionado Marcos Llorente e Reguilón voltava a ser opção inicial na esquerda da defesa, em detrimento do brasileiro Marcelo. Isco, desta vez, nem sequer constava do lote de convocados — segundo o boletim clínico merengue, o espanhol queixou-se de dores nas costas durante a semana. Do outro lado, Simeone não tinha o maestro Koke devido a lesão e lançava no ataque a dupla perigosa formada por Griezmann e Morata.

Morata que, curiosamente, protagonizava um dos três reencontros desta tarde. O avançado espanhol, reforço de inverno do Atleti nesta temporada, defrontava o clube que representou durante sete temporadas (em dois períodos distintos); do outro lado, Thibaut Courtois, titular na baliza do Real, encontrava o clube onde deu nas vistas de 2011 a 2014; e, nos bancos técnicos, Solari reencontrava na equipa técnica de Simeone muitos antigos colegas de equipa do River Plate e da seleção argentina e o próprio treinador do Atl. Madrid, que o orientou já numa fase final da carreira, no San Lorenzo.

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Se a equipa de Solari visitava o Wanda Metropolitano naquela que será uma das melhores fases da temporada, com cinco vitórias consecutivas antes do empate a meio da semana com o Barcelona, a de Simeone recebia o Real Madrid depois da primeira derrota para o Campeonato em cinco meses, aos pés do Betis de William Carvalho (1-0). Tal como tinha acontecido no clássico de quarta-feira, o Real Madrid entrou no jogo de forma mais pressionante, com um poder de recuperação de bola impressionante e uma transição defesa-ataque feita quase sempre através da largura e do corredor esquerdo, onde Vinícius voltou a estar sempre irrequieto e perigoso. Numa primeira parte onde Modric esteve sempre mais discreto, Kroos parece cada vez mais entendido com o brasileiro ex-Flamengo e lançou a velocidade do extremo em inúmeras ocasiões durante o primeiro tempo. Apesar do sorriso que nunca consegue esconder dentro das quatro linhas, Vinícius vivia este sábado um dia difícil: o avançado formado no Flamengo passou vários anos no Centro de Treinos que ardeu esta sexta-feira e onde morreram dez jovens da formação do clube brasileiro e lembrou isso mesmo no Twitter, ao escrever que “só de lembrar as noites e dias” que passou no local, “é de arrepiar”.

O golo do Real Madrid apareceu aos 16 minutos e no seguimento de um canto que o árbitro da partida decidiu repetir. Canto batido na direita, Sergio Ramos ganhou o duelo aéreo a três defesas do Atl. Madrid e Casemiro aproveitou uma bola perdida e meio metro de espaço para se lançar num pontapé de moinho e bater Oblak. O golo sofrido mobilizou o meio-campo dos colchoneros e Correa, o homem mais próximo do corredor, começou a procurar com mais intensidade a profundidade de Griezmann e Morata. A vantagem dos merengues durou menos de dez minutos e durante esse tempo o Atleti soube reduzir o espaço entre os blocos e reagir melhor à perda da bola, com uma pressão alta orquestrada por Partey e que abria linhas de passe para lançar o ataque. O empate surgiu assim mesmo, com uma recuperação de bola de Correa sobre Vinícius logo depois da linha do meio-campo: o argentino descobriu rapidamente Griezmann em desmarcação entre os centrais do Real e o francês, com uma classe assinalável, bateu Courtois com um remate rasteiro. O árbitro ainda esperou pela decisão do VAR, devido a uma eventual falta de Correa sobre Vinícius, mas acabou por validar mesmo o empate.

Se o golo do Real Madrid tinha motivado o Atl. Madrid, o mesmo aconteceu com o empate dos colchoneros, que voltou a impulsionar Kroos para terrenos mais avançados. Benzema, enquanto pêndulo do ataque, voltou a recuar para procurar jogo e iniciou as trocas de posição com Vázquez que na quarta-feira deixaram a defesa do Barcelona com a cabeça em água. O lance que acabou por dar origem ao segundo golo, porém, surgiu do outro lado, com uma arrancada de Vinícius pela esquerda: o brasileiro só parou quando derrubado em falta por Giménez. Ficam dúvidas sobre se a falta aconteceu dentro ou fora da grande área mas a verdade é que foi assinalada grande penalidade e na conversão, a cinco minutos do intervalo, o capitão Sergio Ramos não deu hipótese a Oblak. Na ida para o descanso, o Real Madrid era já apenas a segunda equipa a marcar dois golos no Wanda Metropolitano esta temporada e estava perto de se tornar a primeira a impor uma derrota caseira ao Atl. Madrid.

O Atl. Madrid voltou mais rápido e mais decidido do que o Real Madrid mas com o mesmo problema que tinha levado para o balneário: mesmo tendo mais bola, a espaços, tinha pouco critério nos últimos 30 metros de terreno, em contraste com a enorme sabedoria dos três homens mais adiantados dos merengues, que criavam perigo sempre que solicitados. O Atleti podia ter marcado ainda antes dos cinco minutos da segunda parte, com um bom remate de Griezmann depois de um ação deliciosa de Morata, e acabou mesmo por fazê-lo à passagem do minuto 53, por intermédio do avançado espanhol, mas o lance foi anulado por fora de jogo. Fica para a história e para a memória o grande passe de Giménez, a descobrir Morata em velocidade nas costas de Sergio Ramos, e o enorme chapéu do espanhol a Courtois, que só terminou dentro da baliza do Real Madrid. Não valeu mas foi bonito na mesma.

A equipa de Simeone passou a segunda parte à procura de um maior equilíbrio e de largos espaços temporais com posse de bola, com as entradas de Vitolo e Rodri para as saídas de Lemar e Correa, mas continuava a faltar ligação e acerto. Do outro lado, sem a velocidade de Vinícius, que entretanto saiu para entrar Gareth Bale, sem grande vertigem e sem necessidade de acelerar o jogo, o Real Madrid soube controlar e jogar de frente para a partida, com o encontro totalmente na mão: o terceiro golo e a pedra sobre o assunto surgiu quando faltavam 15 minutos para o apito final, com uma lição sobre jogo apoiado dada por Benzema e Modric e uma finalização exímia de Bale — que marcou o seu 100.º golo pelo Real Madrid. Vinícius, sem marcar nem assistir mas a conquistar a grande penalidade que deu o golo da vitória, foi (novamente) o melhor elemento dos merengues em campo e honrou a memória dos dez jovens jogadores que, tal como ele há uns anos, procuravam o sonho no Centro de Treinos do Flamengo.

O Atl. Madrid perdeu em casa pela primeira vez esta temporada, sofreu três golos em casa pela primeira vez esta temporada e caiu para o terceiro lugar do Campeonato, com menos um ponto do que o Real Madrid e a nove do Barcelona (caso os catalães vençam este domingo o Athl. Bilbao). Simeone soma duas derrotas consecutivas e Solari confirma a boa fase do Real Madrid, que parece que sente que a Liga dos Campeões está a recomeçar e coloca os motores novamente a carburar.