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Wabi sabi. O que aprendemos com a sabedoria japonesa para uma vida perfeitamente imperfeita

Não confundir com o famoso tempero utilizado na culinária, apesar de os ensinamentos que se seguem também terem origem nipónica. Eis a arte de aceitar a imperfeição e um teste à filosofia japonesa.

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Sabe quando está a meio de um jogo com os amigos e alguém decide mudar as regras de repente? É mais ou menos isso que começamos por sentir em 2019, depois de passarmos os últimos anos a tentar reproduzir lições escandinavas. Houve um tempo, não muito distante, em que a sabedoria jorrava dos países nórdicos e quem não se vergasse aos mantras minimalistas era maximamente apedrejado pelo rebanho. Foi a era do hygge, rapidamente ultrapassado pelo lagom, e ainda mais cilindrado pelo pantsdrunk — isso foi quando os dinamarqueses perceberam que no fim de contas beber sozinho em casa pode ser mais produtivo que aprender a tricotar ou regar plantas ou passar um serão à lareira (quantos de vós têm lareira?).

À velocidade com que as novidades nos chegam, é humanamente impossível seguir o ritmo das filosofias de vida e outras inspirações para o quotidiano. Mas, na verdade, elas nem têm que andar desirmanadas. É tudo uma questão de equilíbrio, até porque os preceitos oriundos do Báltico não desapareceram do nosso mapa — o que há é outras coordenadas a explorar.

Por estes dias, o fenómeno Marie Kondo não é um caso isolado. Uma breve busca no site da Amazon por wabi sabi devolve mais de duas mil entradas, com livros para todos os gostos, e muitos deles até já têm barbas. Episodicamente, um ou outro lançamento devolve-nos a esta corrente, que visa aplicar os princípios estéticos de uma cultura secular como a japonesa na transformação de diferentes áreas da nossa vida. A par do frenesim da arrumação, está hoje reforçado o número de títulos que convidam à reflexão em geral, e muitos deles inspirados no wellness japonês, em particular.

Entre reservas e incentivos à leitura, comparamos dois títulos acabados de chegar ao mercado nacional e resumimos a aprendizagem.

Wabi Sabi — Sabedoria Japonesa para uma Vida Perfeitamente Imperfeita

Beth Kempton é mestre em Língua Japonesa, nasceu no Reino Unido, viveu e trabalhou vários anos no Japão, “a sua segunda casa”, teve aulas de fabrico de papel japonês, arranjos florais, cerâmica, fabrico de painéis japoneses, caligrafia, Cerimónia do Chá e tecelagem (ufa) e assina Wabi Sabi — Sabedoria Japonesa para uma Vida Perfeitamente Imperfeita (Nascente, 14,93 euros).

Kempton enuncia pelo menos 3 princípios que prometem ajudar  “a aplicar o wabi sabi à sua vida”. E claro que por esta altura já se interrogou sobre o conceito, que para os mais alheados por ser facilmente confundido com wasabi ou yaki soba. Ou uma mistura de ambos, consoante a fome. “Traz-me aí o wabi sabi”. “Queres mais wabi sabi?”. “Onde é que está o wabi sabi?” “Quem mexeu no meu wabi sabi?”. Adiante.

À primeira vista, dir-se-ia que quanto mais longínqua for a origem das lições, mais força elas parecem ter. Porquê confiar nas palavras do pai ou da mãe se algures do outro lado do mundo há alguém a desmistificar com estrondo uma das maiores crenças do mundo? “A perfeição é um mito”, lê-se na contracapa. E esta, eihn?

É natural que um leitor menos paciente dê por si a desistir da compra, até porque ao longo de 255 páginas, a autora retira uma série de lições da cerimónia do chá que estão ao alcance da pedagogia num clã português minimamente civilizado: ser generoso, praticar o bem, aprender a lidar com o fracasso, nutrir a resiliência. E depois há outra questão. Uma coisa são recomendações para melhorar a vida, outra são ordens. E ninguém gosta de receber ordens, mesmo que visem melhorar a sua vida. “Cuide de si, goste de si, sinta-se mais feliz”. Ouviu as frases anteriores em altos berros ou como se estivessem escritas em letras maiúsculas? Facto: a piada começa a desbotar um bocadinho quando os ensinamentos se confundem com o serviço militar.

Num mundo tremendamente visual, o livro prescinde das imagens e dispensa grandes cuidados estéticos. É certo que não devemos julgá-los pelas suas capas, mas o leitor arrisca perder-se num mar de letras que mais parece um guia de gestão dos anos 90, ou uma cartilha bem intencionada mas excessivamente teórica, com um embrulho que não convence por aí além — a edição original soou mais apelativa.

E aspetos convincentes? Calma, também os há. Os conselhos mais sábios são muitas vezes os mais simples. E às vezes ajuda mesmo ter alguém que os compila por nós para que nunca os percamos de vista. Os japoneses têm um provérbio célebre: “caia sete vezes, levante-se oito”. É bonito, se for na grande área do adversário e o árbitro assinalar penalty sem pestanejar. Não pensem que esta alusão ao futebol é gratuita. O prefácio do livro de Kempton está entregue a Hidetoshi Nakata, que jogou na série A italiana e na Premier League inglesa e cuja vida, diz ele, melhorou muito graças a estas lições. Nada como ir a jogo para tirar todas as teimas.

Bem-Estar Kintsugi — A arte japonesa de alimentar a mente, o corpo e o espírito

Também com raízes nipónicas, Candice Kumai dá-nos Bem-Estar Kintsugi — A arte japonesa de alimentar a mente, o corpo e o espírito  (Casa das Letras, 17,01 euros), um manual que procura a receita do equilíbrio, ou as receitas, já que wabi-sabi é apenas a ponta do icebergue quando falamos de rituais. A avaliar por este volume, deve reservar espaço para ensinamentos como o Gamn (Viver com grande resiliência), o Eiyõshoku (Nutrir o seu corpo), o Ki o tsuket (Aprender a cuidar), o Gambatte (Dar sempre o seu melhor), o Kaizen (Melhorar continuamente), o Shikata ga nai (Aceitar o que não pode ser resolvido), o Yuimaru (Cuidar do seu círculo interior), o Kansh (Cultivar a gratidão sincera), e o Osettai (Ser útil aos outros, recebendo dádivas).

Digamos que num passado não muito distante poucos de nós acordavam de manhã com dilemas desta natureza: como reaquecer e guardar tempura; que riqueza há na kabosha (antes de mais, perceber o que é kabosha) ou omo fazer udon ao estilo cali? De repente, a vida ganhou sabor com uma explosão de miso, tahini, couve kale, e uma pitada de gengibre (pelo sim, pelo não, ponha sempre gengibre em tudo). E a verdade é que a nossa mesa cresceu em diversidade com a abertura de espírito. Comer o mundo é uma das formas mais genuínas de o conhecer, bem como as suas gentes. Ninguém está livre de contactar com um certo folclore e exibicionismo gastronómico mas no final, o nosso estômago ganhou em democracia, e livros como este refrescam-nos a memória.

Para não dizer que há algum esmero numa edição mais legível e bonitinha, povoada por imagens de pratos para pôr em prática, que são aliás o fio condutor da obra — há que dizer que Kumai tem um site/blogue que transpira coolness e é considerada a “golden girl” do bem-estar. Vai poder espevitar o seu receituário com cookies de matcha, taças de kabosha glaceada com miso, bolos de batata dice e curcuma, brownies de chocolate negro e feijão azuki; ou okayu, o equivalente à canja de galinha, o “prato a comer quando se está em baixo”, feito pelas mamãs japonesas. Tudo com um ar bastante instagramável.

Candice conjuga o sumo teórico com uma narrativa mais pessoal, recuperando episódios familiares e outras referências que aproximam o leitor — por mais afastados que estejamos de um prato de udon com laivos californianos. Nem todos temos como amigo um sensei octogenário na pensínsula de Noto, mas Kumai consegue fisgar a nossa atenção ao explicar como se enrola arroz, ao debitar as propriedades da matcha, ou a usar a regra da máscara de oxigénio nos aviões para sintetizar a ideia de generosidade.

Não pense que nos deixamos seduzir às cegas pelo conteúdo e formato que fica a matar no balcão da cozinha. Primeiro que tudo, convém ter a capacidade de ler nas entrelinhas, em especial quando lhe disserem para “cuidar do seu próprio jardim” (não será pera doce para a generalidade das pessoas que cultivam o seu modesto t1 no subúrbio). A páginas tantas, a autora conta como perguntou à sua amiga Yoshiko, de 88 anos, qual o segredo dos habitantes de Okinawa, a ilha apelidada de Havai japonês. “O melhor é estar sempre feliz”. Claro que sim. E assim de repente lembramo-nos de muitas outras preferências:

“O melhor é a raspadinha ter prémio”,

“O melhor é não ter contas para pagar”

“O melhor é nunca adoecer”.

Bom, o melhor por agora é dar uma oportunidade e relativizar, talvez a orientação mais universal, e a mais sensata. Até porque se algo correr mal, já sabe que a vida não é perfeita. E que provavelmente pagou para lhe contarem isso.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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