1964. O Benfica venceu o Seixal por 10-0 e desde aí nunca mais ninguém marcou dez golos sem resposta no principal escalão do futebol português. Até este domingo. Até Grimaldo, Seferovic duas vezes, João Félix, Pizzi, Ferro, Rúben Dias, Rafa e Jonas duas vezes. Até Bruno Lage e o Benfica que goleou o Nacional por 10-0 no Estádio da Luz e conquistou três pontos que o colocam a apenas um da liderança e do FC Porto, mas que são muito mais do que isso. Há 55 anos que ninguém ganhava por 10-0 na Primeira Liga. Mas esses são apenas os primeiros números a retirar do Benfica-Nacional deste domingo.

Começamos por Grimaldo. O lateral esquerdo espanhol inaugurou o marcador logo aos 30 segundos de jogo e fez o sexto golo da temporada — nesta que é já a sua época mais concretizadora — e o terceiro nos últimos quatro jogos do Benfica. Agora Seferovic: o melhor marcador do Benfica tem 13 golos e já marcou tanto em duas épocas na Luz como em quatro no Eintracht Frankfurt e na Real Sociedad (23), para além de que apontou 10 golos nos últimos 11 jogos. Segue-se João Félix, já que o jovem português marca há três jogos consecutivos e já leva nove na conta pessoal. Rúben Dias marcou nos últimos dois jogos e Ferro estreou-se a marcar no dia em que também se estreou a titular na equipa principal encarnada. E Jonas, o inevitável Jonas que voltou à competição 38 dias depois de se lesionar em Portimão e bisou, igualando Félix como terceiro melhor marcador do Benfica.

O Benfica de Bruno Lage aumentou ainda a vantagem enquanto equipa da Primeira Liga com mais golos marcados (57), mas não conseguiu superar o registo de Rui Vitória, que em 2015/16 viu os encarnados apontarem 59 golos nos primeiros 21 jogos que fez na Luz. Só com o jogo deste domingo, o Benfica de Lage marcou o equivalente a metade dos golos que tinha marcado em todos os jogos que fez desde que o ex-treinador da equipa B substituiu Vitória e leva já oito vitórias em nove jogos, 30 golos marcados e nove sofridos. A título mais pessoal, Lage continua a ser um de apenas três treinadores do Benfica que venceram os seis primeiros jogos no Campeonato (a par de Eriksson e Baroti, ambos nos anos 80).

Na flash interview, logo após o final do jogo, o treinador encarnado tinha pouco para dizer. “O que se pode dizer? Fizemos um bom jogo, evolução do jogo e do treino. Sentimos desde o primeiro minuto que a equipa estava presente e que íamos jogar bem. O que nos deixa satisfeitos é a continuidade e estarmos presentes em jogo”, disse Lage, acrescentando ainda que uma das coisas de que mais gostou na goleada deste domingo foi a forma como os jogadores encararam tudo “com normalidade”. “É um resultado expressivo que pode ficar na história destes jogadores, mas o que me deixa satisfeito é a continuidade, termos calma a fazer as coisas coisas, evoluir e acreditar no processo. Sinto que os jogadores estão nesse caminho.”

Bruno Lage, que após o fecho do mercado de transferências respondeu às críticas sobre a ausência de reforços com a garantia de que “os reforços estavam no Seixal”, na formação encarnada”, voltou a cimentar essa ideia e explicou que “agora é dar-lhes oportunidade de crescer neste patamar”, referindo-se principalmente a Ferro e Florentino Luís. “Eram dois miúdos que estavam preparados, quando houvesse oportunidade de os puxar, para treinarem a este nível. Pouco a pouco vamos dando oportunidade. Da mesma forma que vi Florentino a fazer desarmes, também vi o Jonas com 34 anos a recuperar bolas, toda a gente a trabalhar, construir com qualidade, chegar ao golo e criar oportunidades. Satisfeito com os mais novos e mais velhos. Mérito total aos jogadores, são eles que fazem história”, afirmou o técnico encarnado, que deixou ainda uma palavra ao Nacional e a Costinha.

“Uma palavra ao Nacional, porque também já estive do outro lado, porque as coisas quando assim acontecem…golo no primeiro minuto, há um descontrolo emocional. Eles têm consciência de que têm mais valor do que apresentaram hoje. É dar continuidade ao trabalho que têm feito”, disse Bruno Lage.

Do outro lado, Costinha assumiu por completo a responsabilidade da derrota pesada e falou em “humilhação”. “Foi um jogo péssimo da minha equipa e uma belíssima exibição do Benfica. A única coisa que tenho a dizer, em primeiro lugar, é pedir desculpa a todos os nacionalistas. Não é uma situação normal na minha carreira. Os adeptos têm toda a razão em criticar naquilo que quiserem criticar. Hoje fomos uma péssima equipa, não conseguimos colocar em prática aquilo que trabalhámos e se não conseguimos isso, a culpa é minha. O campeonato não acabou hoje, mas foi uma humilhação. Não foi só a equipa do Benfica que jogou muito bem, nós jogámos muito mal e principal responsável sou eu”, garantiu o treinador da equipa madeirense, que com esta derrota está apenas um ponto acima da zona de despromoção da Primeira Liga e sofreu ainda a pior derrota da sua história.