Cruzando as probabilidades que se chegaram a ver em algumas casas de apostas norte-americanas com as previsões dos media e o esforço da organização dos Grammys em evitar a sub-representação de mulheres nas nomeações deste ano, calculava-se já que dificilmente o Grammy de “álbum do ano” não premiaria, nesta 61ª edição dos grandes prémios da indústria musical norte-americana, Dirty Computer de Janelle Monáe ou Golden Hour de Kacey Musgraves — dois dos oito álbuns nomeados. A decisão pendeu para Golden Hour e Kacey Musgraves recebeu na noite de domingo (madrugada de segunda-feira em Portugal), na arena Staples Center, em Los Angeles, a estatueta mais ambicionada dos também chamados “Óscares da música”, tornando-se a grande vencedora da noite.

Não tendo uma notoriedade semelhante à de anteriores vencedores — basta pensar que os últimos três a conquistar o galardão de “Melhor Álbum do ano” foram Bruno Mars, Adele e Taylor Swift –, a vitória da cantora de country-pop de 30 anos refletiu o impacto que Golden Hour, o seu quarto álbum de estúdio de originais, teve na imprensa norte-americana (figurou em múltiplas listas de “melhores álbuns do ano”).

A vitória do disco de Kacey Musgraves em detrimento de outros álbuns com maior alcance mediático, radiofónico e internacional como Scorpion, do rapper e cantor Drake, Invasion of Privacy, de Cardi B e Beerpongs & Bentleys, de Post Malone, marca o regresso dos prémios Grammy à distinção de discos que reuniram algum consenso na crítica. Isto depois de em 2018 o Grammy de “Álbum do Ano” ter sido atribuído a 24KMagic de Bruno Mars, em detrimento de um disco que aliou como raramente acontece consenso entre críticos e uma massa enorme de ouvintes: DAMN., do rapper Kendrick Lamar.

Além de “Melhor Álbum do Ano”, Kacey Musgraves venceu ainda Grammys para “Melhor Álbum Country”, “Melhor Performance Country a Solo” — pelo tema “Butterflies” — e “Melhor Canção Country” com o tema “Space Cowboy”.

Mais do que surpreendente ou inusitada, a vitória de um rapper e cantor nas categorias de “Canção do Ano” e “Gravação do Ano” dos Grammys foi histórica: foi a primeira vez que um tema rap venceu qualquer uma das categorias. O tema responsável pelo feito foi “This is America”, de Childish Gambino — a persona artística do rapper, cantor, argumentista e ator Donald Glover –, uma canção política que se tornou viral em todo o mundo também graças a um vídeo amplamente elogiado e elucidativo de como o racismo e a segregação social são ainda feridas abertas da sociedade norte-americana.

Além de dois dos mais importantes Grammys generalistas, Childish Gambino venceu ainda com “This Is America” uma estatueta para “Melhor Canção Rap/Cantada” e outra “Melhor Vídeo Musical”.

Drake e Kendrick Lamar, os derrotados. Será mesmo?

Ninguém tinha recebido tantas nomeações quanto eles, mas a noite esteve longe de ser gloriosa para qualquer um dos dois.

Nomeado para oito prémios Grammy, Kendrick Lamar não só não venceu nenhum dos galardões generalistas mais importantes para os quais estava nomeado — “Álbum do Ano”, “Canção do Ano” e “Gravação do Ano” — como apenas venceu um, na categoria menor e exclusiva a rappers e cantores “Performance Rap”, graças ao tema “King’s Dead”. A canção “All the Stars”, que gravou com a cantora de R&B SZA, acabou por não merecer qualquer distinção da associação que organiza os Grammys e reúne os grandes profissionais da indústria musical norte-americana.

Drake não teve um resultado muito diferente: nomeado para sete prémios Grammy, incluindo os três generalistas mais desejados, venceu apenas na categoria “Melhor Canção Rap”, com o tema “God’s Plan”.

As poucas estatuetas que levaram para casa poderão, contudo, não ser motivo de grandes dores de cabeça para qualquer um deles. Antes da 61ª cerimónia da entrega dos Grammys, a organização revelou que os dois — assim como Childish Gambino — recusaram atuar na noite passada na arena Staples Center, em Los Angeles. E Drake ainda somou a essa recusa um discurso corrosivo sobre a necessidade que um músico ou rapper não deve ter de vencer um Grammy para se sentir validado enquanto artista.

Cardi B, Lady Gaga e Bradley Cooper também venceram Grammys

Se Childish Gambino conquistou duas estatuetas em categorias para as quais estavam nomeados rappers e cantores como Drake, Kendrick Lamar & SZA e Post Malone e ainda o tema “Shallow”, de Bradley Cooper e Lady Gaga, a distinção de Grammy para melhor álbum de rap foi entregue a Cardi B, cujo disco Invasion of Privacy superou concorrentes como Daytona, de Pusha T, Astroworld, de Travis Scott e Swimming, do falecido Mac Miller. Ainda no hip-hop, Pharrel Williams venceu o prémio de “Melhor Produtor do Ano”, superando o também nomeado Kanye West, que assinou as batidas instrumentais de álbuns dos rappers Pusha T e Nas e de um álbum que ele próprio editou em 2018, intitulado Ye.

Na categoria de “Melhor Álbum de R&B”, a vencedora foi Gabriella Wilson, autora do projeto musical H.E.R., que lançou no último ano um álbum homónimo. A cantora, instrumentista e compositora venceu ainda o Grammy para “Melhor Performance R&B” com o tema “Best Part”, gravado com Daniel Caesar. Já o prémio para melhor canção R&B foi entregue à britânica Ella Mai.

A britânica Dua Lipa foi distinguida com o importante Grammy para “Artista Revelação” — superando a já mencionada H.E.R. e a cantora Jorja Smith — e Ariana Grande venceu o prémio para “Melhor Album de Pop Cantada” pelo disco Sweetener. No campo da música de dança, os franceses Justice venceram o Grammy para “Melhor Álbum de Música de Dança/Eletrónica” (com Woman Worldwide), enquanto no rock Chris Cornell venceu postumamente o Grammy de “Melhor Performance Rock” com “When Good Does Bad”, St. Vincent venceu o prémio de “Melhor Canção Rock” com Masseducation e os Greta Van Fleet ganharam o Grammy de “Melhor Álbum Rock” com From the Fires.

O tema “Shallow”, de Lady Gaga e Bradley Cooper, venceu dois Grammys, nas categorias “Melhor Performance Pop em Duo ou em Grupo” e “Melhor Canção Escrita para os Meios de Comunicação Visuais”. A esses dois troféus Lady Gaga acrescentou um outro de “Melhor Performance Pop a Solo”, com o tema “Joanne (Where Do You Think You’re Goin’?)”.

Willie Nelson venceu o Grammy para “Melhor Álbum Pop Tradicional Cantado” com My Way, Beck conquistou o Grammy de “Melhor Álbum de Música Alternativa” com Colors e os Carters, isto é, Beyoncé e Jay-Z, venceram o galardão de Melhor Álbum Urbano Contemporâneo com Everything is Love.

Os vencedores do Grammy para “Melhor Álbum New Age” foram os Opium Moon (com um disco homónimo editado em 2018) e no jazz os grandes vencedores foram Cécile McLorin Savant (“Melhor Álbum de Jazz Cantado”) e The Wayne Shorter Quartet (“Melhor Álbum de Jazz Instrumental”).

Na música de raiz norte-americana, Brandi Carlile venceu na categoria de “Melhor Álbum de Americana” com o disco By The Way, I Forgive You, os The Travelin’ McCourys venceram na categoria de “Melhor Álbum Bluegrass” com um disco homónimo, Buddy Guy venceu o prémio para “Melhor Álbum Tradicional de Blues” com o disco The Blues Is Alive and Well e os Punch Brothers venceram na categoria de “Melhor Disco de Folk” com o álbum All Ashore. Os restantes premiados podem ser encontrados aqui.