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Um, dois, três, quatro, cinco, seis… não, não estamos a falar da goleada do Benfica frente ao Nacional. Até porque a contagem, por enquanto, fica mesmo no número seis. Por enquanto. Seis é o número de tenistas portugueses que, a partir de hoje, passaram pelo Top 100 do ranking mundial de tenistas do ATP (Associação de Tenistas Profissionais). O motivo? Pedro Sousa bateu hoje à porta da prestigiada lista e deixaram-no entrar, mesmo sem sair de casa. O tenista português está a recuperar de uma inflamação no cotovelo direito, mas beneficiou da eliminação de Marcos Baghdatis nos quartos-de-final do Open Sud de France, que estava mesmo atrás no ranking. Aos trinta anos, Pedro entra assim, finalmente, na elite do ténis mundial. Uma idade tardia e um percurso longo, já com muitas histórias.

Pedro Sousa torna-se o sexto português a entrar no top 100 do ténis mundial

A saga começou em 1991, era Pedro uma criança. O pai, o treinador e promotor Manuel de Sousa, conhecido no mundo do ténis por “Manecas”, tratou de passar a sua paixão ao filho logo desde pequeno. Uma aposta ganha: “Eu tenho dois filhos. Um casal, uma menina e um menino. E pus os dois a jogar ténis no mesmo dia, aqui na minha escola”, diz Manuel. A escola a que se refere é a do CIF, Clube Internacional de Foot-ball, uma associação histórica do desporto lisboeta. Fundado em 1902, mantém o ténis desde essa data, sendo uma das modalidades que mais sócios agrega. “Manecas” é o responsável pela escola de ténis do clube, já desde o tempo em que um Pedro Sousa de três anos pegava na raquete pela primeira vez.

Mas se o primeiro contacto foi feito cedo, cedo surgiu também uma “luta” que durou até ao início da adolescência: ténis ou futebol? “Ele sempre foi gostando de ténis e sempre se sentiu entusiasmado. Mas como qualquer miúdo português, houve sempre ali outra coisa e a questão era ténis ou futebol? Até certa altura andou ali indeciso sobre para que lado cair, mas lá para os 12 anos acabou por escolher o ténis”. A escolha não impediu Pedro, contudo, de manter a sua paixão pela outra modalidade — e pelo clube do coração: em 2015, em plena ronda do qualifying do Estoril Open e no final do segundo set frente a Victor Hanescu, Pedro usou uma paragem para ir à casa de banho… como desculpa para saber do resultado de um Benfica-FC Porto, que estava a decorrer. No fim, Pedro ganhou, mas os encarnados não conseguiram melhor do que um empate a zero, num jogo que ficou marcado pelo confronto entre Lopetegui e Jorge Jesus.

Pedro, com 20 anos, em ação no Estoril Open, precisamente contra João Sousa, o melhor português de sempre

O futebol, porém, ficou mesmo só aí, nas paragens. O foco estava no ténis. Com 18 anos, em 2006, chegou aos quartos-de-final do torneio de juniores de terra batida do Roland Garros, tendo até eliminado o líder do ranking. Na altura era o número 35 do ranking mundial da categoria, o que lhe permitiu subir ainda mais. Tanto que quase saiu de Portugal. “Ele teve vários convites para treinar lá fora. Fez até uma experiência de um mês na academia do Bolletieri, mas acabou por voltar”. Pedro Sousa começava a construir uma carreira totalmente feita em Portugal.

Pedro Sousa num recorte de jornal, no início da carreira, quando ainda era júnior

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Nesta altura era ainda o pai o treinador, o que era desafiador. Havia obstáculos pelo meio, como numa qualquer relação de pai e filho, mas no final o resultado foi positivo: “Às vezes era complicado, mas durante 10 anos estivemos sempre unidos. Eu sempre acreditei que ele ia conseguir chegar aqui!”. A crença passou depois para as mãos de Rui Machado. O antigo tenista, um dos seis portugueses que chegou ao Ranking ATP 100, é agora treinador e acompanha Pedro no Centro de Alto Rendimento do Jamor, onde a seleção treina. Tanto ele como Manuel concordam numa premissa: a culpa da entrada tardia de Pedro no Top 100 foi das lesões: “O Pedro foi fustigado por lesões durante toda a carreira. Mesmo sendo um atleta que atingiu a maturidade mais tarde, as lesões afetam sempre o rumo da carreira”, diz Rui. Já o pai, Manuel, que acompanhou ainda mais de perto a carreira, reforça que as lesões tornam o percurso do filho ainda mais exemplar: “As pessoas não sabem por que é que ele passou. Veem que ele é muito descontraído, que não gesticula muito, e acham logo que é pouco empenhado. Não era qualquer tenista que ultrapassava aquilo que ele ultrapassou”.

O certo é que conseguiu. Tarde ou cedo. Agora, o foco está no futuro, apesar da idade. Rui Machado diz-nos que, em média, a carreira de um tenista, atualmente, dura até aos 34 anos. Pedro tem 30. “A carreira do Pedro ainda não acabou, atenção!”, alerta Rui, acrescentando que “a meta, agora, é tentar chegar onde chegou o Nuno Marques, que conseguiu ser o 86º melhor do mundo”. Para isso, Rui e Manuel apontam os pontos a melhorar: o serviço e o jogo de rede. O primeiro, provavelmente, pela menor importância do serviço em terra batida, terreno predileto de Pedro. Os pontos fortes já lá estão, com Pedro a ser “acima da média na pancada esquerda e direita” e com “muitas soluções ofensivas no fundo do court”.

Este ano, Pedro já participou num Grand Slam, no Australian Open. Na foto, um serviço frente a Alex de Minaur

Pedro Sousa poderá não ter todo o tempo do mundo para corrigir as fraquezas, mas terá tempo suficiente para aspirar a algo mais. Ele e todos os jovens que agora começam e que podem, segundo Rui Machado, olhar para o lisboeta como um exemplo: “Esta entrada do Pedro no Top 100 só signifca que o ténis português está vivo. E que os tenistas que só treinam em Portugal têm todas as hipóteses do mundo para vingar”. Por enquanto já o conseguiram fazer seis portugueses: Nuno Marques, Frederico Gil, Rui Machado, João Sousa, Gastão Elias e agora Pedro Sousa.