No meio dos montes do Afeganistão aparecia, no início de 2016, uma bonita história de um jovem adepto de futebol. De repente, as redes sociais foram inundadas pela fotografia de uma criança afegã que, por não ter dinheiro para comprar uma camisola de Leo Messi, criou uma a partir de um saco de plástico com as cores da Seleção argentina de futebol. A criatividade e atitude do rapaz (co)moveu o mundo, com os media a fazerem de tudo para encontrar a identidade da criança.

Essa acabou por ser confirmada uns dias depois, pelo tio do menino à BBC: chamava-se Murtaza Ahmadi e tinha cinco anos. O pai, Arif, contou que as fotografias foram tiradas pelo seu filho mais velho e que aquela “camisola” era a melhor oportunidade de Murtaza ter uma de Messi, visto não terem dinheiro para mais. “Ele gosta realmente do Messi e de futebol. Não nos é possível comprar-lhe uma camisola, sou um mero agricultor. Por isso, os miúdos decidiram usar o plástico”, contava na altura o pai Arif à BBC, alimentando a esperança de o filho poder, um dia, ter uma camisola verdadeira do jogador e, com sorte, até conhecê-lo.

As duas coisas acabaram por acontecer e uma delas logo no mês seguinte. Em fevereiro de 2016, Murtaza recebia, através da UNICEF – patrocinadora do Barcelona e associação por quem Messi dá a cara como embaixador – uma camisola da seleçãoaArgentina. Esta verdadeira. O jogador não esteve presente na entrega, mas, em dezembro desse ano, o inevitável aconteceu e o menino afegão lá conheceu o seu ídolo, num jogo que o Barcelona realizou no Qatar. Foi, inclusive, de mão dada com Messi até ao meio-campo, imortalizando outro momento viral ao não sair do relvado a pedido do árbitro, como pode rever no tweet abaixo.

Foi o melhor dia da vida do pequeno Murtaza e tudo parecia estar a correr bem depois da realização de um sonho. Mas rapidamente as coisas mudaram de sentido. Estamos agora em 2019 e o jovem Murtaza ainda é um menino, mas já com nove anos e outra maturidade. As camisolas de Leo Messi estão agora guardadas, tal como o sonho do afegão de poder ser jogador de futebol. O motivo? Vive escondido de todos e mal sai de casa devido a ameaças vindas de grupos talibãs. Veem-no como um alvo, assumindo que o astro argentino ofereceu elevadas quantias de dinheiro à família.

“Desde o dia em que o Murtaza se tornou famoso, a vida da nossa família tornou-se muito difícil”, diz Shafiqa, a mãe. “Não só os talibãs, mas também outros grupos começaram a pensar que éramos ricos e que o Messi nos tinha dado muito dinheiro, o que não é verdade. Por causa disso, tivemos de tirar o Murtaza da escola, ele corria demasiado perigo”. Um dia de sonho que se converteu numa vida de pesadelo, até para o quotidiano da criança, como explica a CNN. “Não posso sair de casa, a minha mãe não me deixa sair porque tem medo. Brinco só dentro de casa com um amigo”, confessa Murtaza.

Limitações que, para além de influenciarem a vida do menino, impedem-no igualmente de seguir o seu sonho de ser futebolista. “Quero sair deste país porque aqui só há guerra. Nem posso sair de casa com a camisola do Barcelona vestida porque tenho medo. E era disso que gostava, de a vestir e poder jogar lá com o Messi”, diz Murtaza.

Murtaza com a camisola autografada por Messi, oferecida pela Unicef e pelo jogador. Hoje não a pode vestir na rua, com medo

Por enquanto, a criança e a mãe estão a viver sozinhos em Kabul, uma prova das muitas voltas que as suas vidas já deram desde que Murtaza conheceu o jogador argentino: Kabul não é a terra-natal da família, mas tiveram de se mudar para lá desde que os talibãs invadiram a vila onde moravam. Ainda mais sendo o rapaz um alvo especial. Murtaza e a mãe seguiram assim para Bamyan e, depois, para a capital Kabul. O pai, Afiz, ficou em Jaghori, onde moravam, a proteger a casa. Nunca mais o viram. Com o desespero, resta agora à mãe Shafiqa fazer um último apelo a quem, em tempos, tanta felicidade deu ao filho: “O que mais queria era que o Messi pudesse ajudar o Murtaza a sair daqui e a ter futuro”.