Bibi Ferreira, atriz e cantora brasileira com ascendência portuguesa, morreu durante a tarde desta quarta-feira no apartamento onde morava na zona sul do Rio de Janeiro, confirmou ao Globo a filha, Tina Ferreira. Tinha 96 anos e estava afastada dos palcos desde setembro passado, depois de ter passado 20 dias internada num hospital.

Além de atriz e cantora, Bibi foi também apresentadora e compositora. Atuou várias vezes em Portugal, onde dirigiu vários espetáculos no Parque Mayer, em Lisboa, e celebrou Amália. O jornal brasileiro chama-lhe “um dos maiores fenómenos artísticos do país” e a “diva dos musicais brasileiros”.

Abigail Izquierdo Ferreira, que ficaria conhecida como Bibi Ferreira, nasceu no Rio de Janeiro em 1922. Filha do ator carioca Procópio Ferreira e da bailarina espanhola Aída Izquierdo Ferreira, subiu pela primeira vez a um palco com apenas 24 dias de idade, substituindo uma boneca que desaparecera dos adereços, pouco antes do início da peça Manhãs de Sol, escrita por seu padrinho, Oduvaldo Viana, e protagonizada pela cantora Abigail Maia, sua madrinha, de quem herdara o nome. Nunca mais parou.

Aos três anos, entrou num espetáculo em que cantava zarzuelas em espanhol, integrada na companhia Revista Espanhola Velasco, onde a mãe trabalhava como bailarina. Em 1936 estreou-se no cinema, no filme “Cidade-Mulher”, de Humberto Mauro, em que cantou o samba “Na Bahia”, de Noel Rosa e José Maria de Abreu. Participou também em óperas e bailados, e chegou a  integrar o Corpo de Baile do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, antes de ir estudar para Londres, onde se dedicou às artes dramáticas.

Musicais como My Fair Lady, O Homem de La Mancha, Alô, Dolly, Gota d’Água destacam-se no seu percurso. Edith Piaf, Amália Rodrigues e Frank Sinatra foram personalidades com quem se cruzou e que homenageou.

Em 1941, estreou no Brasil a peça cómica La Locandiera, de Carlo Goldoni, protagonizando Mirandolina. Três anos depois, fundou a sua própria companhia, na qual fez Sétimo Céu. Bibi deu aulas de interpretação e direção no Teatro Duse e na Fundação Brasileira de Teatro, no Rio de Janeiro, na década de 1950. Em 1957, levou o seu reportório de revista para Portugal, apresentando no Teatro Variedades do Parque Mayer Horas Felizes e no Maria Vitória Curvas Perigosas.

No ano seguinte, continuou no Parque Mayer para protagonizar três comédias no Teatro Maria Vitória, entre as quais Com o amor não se brinca e, em 1959, no mesmo teatro, protagonizou dois sucessos: Encosta a cabecinha e chora… e Tudo na Lua. Taco a taco, de novo no Maria Vitória, em 1960, foi a última peça que a atriz representou no Parque Mayer.

Bibi voltou ao Brasil em 1960 e começou a trabalhar com a televisão, em tele-teatros como o que apresentava no programa “Bibi ao Vivo”, da TV Tupi. Na década seguinte, em plena ditadura militar, dirigiu Maria Bethânia e Ítalo Rossi, Paulo Gracindo e Clara Nunes, no musical Brasileiro, Profissão: Esperança, levado à cena no Rio de Janeiro.

Em 1975, estreou Gota d’Água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, pelo qual recebeu os prémios Molière e Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA), ao interpretar Joana. “Deus lhe pague”, onde contracenou com Walmor Chagas e Marília Pera, entre outros, foi outro dos espetáculos que representou, mas foi Piaf, a vida de uma estrela de canção, estreado em 1983, o espetáculo mais conhecido de Bibi Ferreira.

Na década de 1990, voltou ao palco com Brasileiro, Profissão: Esperança e a um musical dedicado à cantora francesa. Em 1996, foi homenageada no Prémio Sharp de Teatro. Três anos depois dirigiu a Carmen, de Bizet. Bibi vive Amália foi a peça escrita pelo português Tiago Torres da Silva que Bibi Ferreira protagonizou numa homenagem a Amália Rodrigues, em 2001, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, e numa digressão pelo Brasil.

A última participação de Bibi Ferreira no grande ecrã, foi a fazer de si própria, em “O teatro na palma da mão” (2011), de Flávio Rangel. Na televisão, participou na mini-série “Marquesa de Santos” (1987), de Wilson Aguiar Filho, personificando a rainha Carlota Joaquina.

Em novembro de 2012, apresentou-se de novo em Lisboa, num espetáculo integrado no Ano do Brasil em Portugal, no qual interpretou temas variados de repertório brasileiro, sem esquecer de novo as canções de Amália. Fez a digressão de despedida em 2017, Bibi, por toda a minha vida.

Ao longo da carreira, recebeu perto de 30 prémios, entre os quais, por quatro vezes, o principal galardão para teatro de imprensa do Brasil e, por duas vezes, o prémio Molière, do seu país. “Nunca pensei em parar, essa palavra nunca fez parte do meu vocabulário, mas entender a vida é ser inteligente”, escreveu a atriz nas redes sociais, quando anunciou o fim da carreira, acrescentando que se orgulhava muito do que tinha feito e agradecendo a todos os que a acompanharam ao longo de uma carreira de nove décadas.