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Venezuela

Venezuela. Quando o café levou a um ultimato a Caracas

Foi há um século, mas o paralelismo faz-se a vários níveis. Em 1902, a Venezuela esteve isolada das principais potências mundiais quando decidiu suspender o pagamento da dívida externa.

Trabalhador de petrolífera mostra um exemplar da Constituição venezuelana durante um protesto

NUNO VEIGA/LUSA

Ninguém, em toda a Venezuela, guardará memória desses dias. Mas o país vive uma certa reedição da crise de 1902. Hoje, são as acusações de atropelo à democracia a justificar o isolamento de Nicolás Maduro. Há mais de 100 anos, foi a queda no preço do café a deixar Caracas isolada e num braço-de-ferro que envolveu os principais países europeus e os Estados Unidos.

O jornal espanhol El Mundo mergulhou nos livros de história e encontrou primeiras páginas que podiam — algumas sem qualquer alteração — ter sido escritas nestas semanas de crise. Títulos que falam sobre “o conflito na Venezuela”, artigos que abordam a “atitude dos Estados Unidos na questão da Venezuela”, um momento em que se dá conta do “bloqueio à Venezuela” e outro em que o mundo relata os passos de uma “Revolução na Venezuela”. Podia ser hoje, mas foi há mais de um século. Motivo para essa crise inicial: a decisão do Presidente Cipriano Castro de suspender o pagamento da dívida externa depois de uma queda abrupta do preço do café.

Os pontos de contacto entre os dois momentos da história venezuelana não ficam por aqui. Naquele ano de 1902, o café estava no centro da crise. Em 2019, e ainda que de forma mais subliminar, é o petróleo — responsável por 98% das exportações do país — um dos fatores de instabilidade. À superfície, no entanto, a crise venezuelana reveste-se hoje de uma capa política e de atentados ao Estado de direito. O artigo do El Mundo recorda ainda, nesse paralelo entre os dois momentos históricos, um país que já então estava politicamente polarizado.

Nesse contexto, o general Cipriano viu-se obrigado a tomar uma decisão quando o preço da sua principal fonte de rendimento, o café, sofreu uma forte desvalorização.

A Venezuela só era superada pelo Brasil na produção desse produto. E, explica o El Mundo, com uma guerra civil em curso, a forma que o líder do país encontrou para manter as divisas dentro de fronteiras foi suspender o pagamento da dívida aos credores. Alemanha e Grã-Bretanha, principais financiadores da Venezuela, não gostaram — e avançaram com um bloqueio à navegação na costa do país, uma forma de o pressionar a recuar e a retomar o pagamento da dívida.

Juntam-se a Itália, Holanda e Espanha. No final desse ano, a Venezuela estava isolada. E a tensão subiu de tal forma que, a 20 de janeiro, a povoação de San Carlos sofre um bombardeamento contínuo, durante oito horas, da embarcação alemã SMS Vineta. Morreram 25 pessoas sem que houvesse, sequer, uma declaração formal de guerra contra Caracas.

E os Estados Unidos? Onde entra o grande “império” nesta história? Esse é o ponto de rutura entre as duas páginas da história do país.

Nesse episódio de início do século XX, Washington surgiu como um elemento pacificador. O Presidente, Theodore Rooosevelt, lançou, primeiro, o aviso de que nenhum navio de guerra europeu seria autorizado a entrar por águas consideradas exclusivas dos Estados Unidos. E, já no início de 1903, assinou com as potências europeias os tratados que puseram termo ao conflito.

Há um século, a crise durou um ano. Agora, ninguém tem a certeza de por quanto tempo mais o conflito se vai arrastar — e se é possível evitar uma guerra civil na Venezuela.

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