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Do ‘trono de sinhá’ ao showcase de Caetano. Diretora da Vogue Brasil demite-se depois de celebrar os 50 anos com festa alusiva à escravatura

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A polémica estalou quando Donata Meirelles resolveu celebrar os seus 50 anos com uma festa temática com uma recriação com ares colonialistas, e que contou com inúmeros famosos na lista.

Donata rodeada de elementos da associação de baianas de Acarajé

Uma data redonda, uma celebração de arromba ao longo de três dias, e um tema festivo muito pouco consensual. A polémica estalou quando Donata Meirelles, socialite e diretora criativa da Vogue Brasil, decidiu assinalar os seus 50 anos num ambiente que mais pareceu saído do enredo de “Escrava Isaura”, com direito a “trono de sinhá” e outros motivos de interesse para selfies. O cenário deste encontro de sexta-feira passada foi o Palácio da Aclamação, em Salvador, Bahia, onde os convidados podiam tirar fotos ao lado de mulheres vestidas de escravas e com abanadores nas mãos, entre outras referências da iconografia colonial potencialmente incómodas. E em dois tempos, aquilo que pela anfiriã foi visto como uma “celebração da negritude”, incendiou as redes e acabou batizado de “colonialismo recreativo”.

Segundo a Veja, o evento contou com a presença de inúmeros famosos, e incluiu um mini concerto de Caetano Veloso no primeiro dia de celebrações. Donata, que usou um vestido Maison Valentino, terá mesmo contado com uma mensagem em vídeo enviada pela ex-presidente dos EUA Bill ClintonÀs redes sociais, no rescaldo de um acontecimento com proporções cada vez mais épicas, chegavam os comentários que acusavam Meirelles de racismo e uma nostalgia fora de prazo. “Escravizar nem de brincadeira”, escreveu no Instagram a cantora Elza Soares, uma das vozes mais críticas, e que recriou uma foto inspirada na festa para censurar a recriação histórica, acompanhada de uma longa mensagem que recua aos tempos em que jogadores cariocas “passavam pó de arroz no rosto para entrarem em campo, já que não ‘pegava bem’ ter a pele escura”.

Esta terça-feira, chegaria, por fim, o comunicado da Vogue Brasil a dar conta do afastamento de Donata, que terá pedido a demissão face ao burburinho, cada vez mais ruidoso. Na nota de esclarecimento, a publicação diz lamentar “profundamente” o sucedido, enquanto a diretora criativa segue o seu caminho no Instagram, entre fotos ao estilo postal e imagens de Prozac.

Mas a história está longe de ficar por aqui, e as implicações no rescaldo bateram mesmo à porta das protagonistas menos voluntarias da festa. A Folha revela como alguns elementos da Associação de Baianas de Acarajé , que esteve envolvida na figuração, tem sofrido vários ataques online, algo que as levou mesmo a efetuar queixa na polícia.  Internautas terão chegado a perguntar “quanto cobravam para levar chibatadas”, apenas uma das acusações de que foram alvo depois de surgirem na foto mais comprometedora de todas, aquela em que a aniversariante surge ladeada pelas duas baianas, instalada na sua “cadeirinha de carregar”.

Como seria de esperar, o escândalo reacendeu um tema naturalmente sensível e uma ferida a milhas de sarar. Antropólogos como Hélio Menezes, partilharam a sua perplexidade, enquanto a historiadora antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz apontou para o silencioso e invisível “racismo estrutural” que prevalece enraizado na cultura brasileira. À plataforma feminina do UOL Universa, e através da assessoria da Vogue Brasil, Donata tentou esclarecer o assunto. “Nas fotos publicadas, a cadeira não era a de Sinhá, e sim de candomblé, e as roupas não eram de mucama, mas trajes de baiana de festa. Ainda assim, se causamos uma impressão diferente dessa, peço desculpas. Respeito a Bahia, sua cultura e suas tradições, assim como as baianas, que são Patrimônio Imaterial desta terra que também considero minha e que recebem com tanto carinho os visitantes no aeroporto, nas ruas e nas festas. Mas, como diria Juscelino, com erro não há compromisso e, como diz o samba, perdão foi feito para pedir”.

“No Brasil, terra onde a escravidão é romantizada, tem muitos artistas que vivem tranquilamente como se por nada fossem responsáveis ou com nada se responsabilizassem. Artistas que convivem com cenários coloniais com uma naturalidade espantosa, como ficou nítido recentemente na festa de Donata Meirelles, chefe da revista Vogue, que achou de bom tom remontar o cenário colonial com mulheres negras vestidas de mucamas e brancos brindando suas taças e posando em tronos de candomblé – que para muitos eram tronos de sinhá. Donata é casada com o publicitário Nizan Guanaes, envolvido com a propaganda positiva de agrotóxicos a serviço da bancada ruralista, e ambos recepcionaram a elite política e artística do país, entre a qual parte que se diz engajada como Caetano Veloso, a família Gil, Regina Casé, entre outros.”. A opinião é de Brenno Tardelli, editor de Justiça na revista semanal Carta Capital.

Por outro lado, e para quem está habituado a privar com o casal Meirelles/Guanaes, há lições a retirar de uma clara “má interpretação” de toda esta recriação, com as suas inevitáveis consequências. “Ambos fazem parte da elite que ganha dinheiro, mas tem um olhar para o empoderamento comunitário. Nunca ouvi deles – nem remotamente – qualquer frase que me parecesse preconceituosa ou racista. Dias antes da polêmica festa, Nizan compartilhava o sonho de ajudar a bancar a vinda de Barack Obama para falar a movimentos negros na Bahia. O nome de sua agência, aliás, é África. O que ocorreu com Donata Meirelles, obrigada a pedir demissão da Vogue, serve como ensinamento. As imagens de sua festa de aniversário passaram a sensação de uma visão preconceituosa dos negros, como se reproduzisse a escravidão. (…) Não era isso o que Donata queria passar”, defende o jornalista Gilberto Dimenstein. “Era a festa em que estavam negros como Preta Gil. Ou grandes amigos de negros como Caetano Veloso, cujo parceiro na vida é Gilberto Gil. Mas a perceção que ficou: uma festa racista, numa cidade em que os negros são maioria, mas a elite é branca“, lê-se ainda na sua opinião.

De volta à Folha, Juliana de Albuquerque escreve sobre os “Artistas engajados e suas contradições”, refletindo sobre a participação de nomes como Caetano Veloso numa “numa festa com ares de Brasil Colónia”.

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