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Os partidos prometem que não vão existir intocáveis na nova Comissão de Inquérito à recapitalização e à gestão da Caixa Geral Depósitos, cuja criação foi esta quinta-feira discutida em plenário no Parlamento. Mas à esquerda e à direita os alvos definidos são diferentes, num habitual passa-culpas: “Isto não foi mais cedo por vossa causa”, “o vosso governo foi pior” ou um “a culpa é do governador”. À direita, PSD e CDS garantem que ninguém está imune ao escrutínio, mas avisam que não vão permitir “ódios de estimação”. À esquerda, o Bloco pede, como ponto de partida, a demissão do governador do Banco de Portugal e o PCP desconfia que está em curso um plano para a privatização da CGD. Para o PS, a culpa de não haver uma auditoria mais cedo é de Passos Coelho.

O coordenador do PSD na Comissão de Orçamento e Finanças, Duarte Pacheco, começou por dizer que o que se passou na Caixa Geral de Depósitos foi “uma autêntica vergonha” e questiona: “Como é possível terem estado a brincar com uma instituição de todos?”. O PSD exige por isso saber que ações ruinosas foram essas, “quem foram os beneficiários”, “quem participou”, “quem foram os auditores”, “se houve pressão política sobre a Caixa para que fossem concedidos créditos ruinosos” e ainda qual a “postura do supervisor“.

Apesar disso, PSD e CDS avisam que não pode haver um tiro-ao-governador que retire a pressão de outros responsáveis. Duarte Pacheco defendeu que inquérito tem de ser feito “doa a quem doer” e que “não pode haver condenações pré-feitas, nem ódios de estimação”. O deputado do PSD diz que a bancada social-democrata não vai “aceitar bloqueios nem que se escolham focar em responsáveis parciais para que os verdadeiros responsáveis fiquem isentos de responsabilidade”. E veio a primeira invocação divina: “Vamos conseguir apurar responsabilidades, Deus queira que sim“.

O vice-presidente do CDS, João Almeida, destacou que gostaria que o inquérito tivesse sido feito há dois anos, quando a comissão chegou ao fim sem que os partidos se entendessem e com fortes protestos da minoria de direita. Ainda assim, o centrista diz que ainda há “tempo de exigir responsabilidades a todos que as têm.” E reforça: “A todos”. João Almeida avisa, no entanto, que o CDS não vai “contribuir para ajustes de contas ou ataques direcionados”, numa clara alusão ao cerco da esquerda a Carlos Costa: “Esta comissão de inquérito também será sobre o Banco de Portugal, mas não é só sobre o Banco de Portugal. Se fosse, muitos administradores da CGD que tiveram responsabilidades”, passariam incólumes pelo inquérito.

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O Bloco de Esquerda, através da deputada Mariana Mortágua, exige que a comissão de inquérito apure a quem “serviram os prejuízos” que não serviram os interesses do banco. É preciso apurar, defende a deputada, se os créditos ruinosos são “resultado de incompetência ou de pressões políticas ou pressão de grupos privados”. E logo veio o ataque a Carlos Costa.

Mariana Mortágua lembra que o Banco de Portugal (BdP) é o “banco dos bancos” e que Carlos Costa “deixou de ter condições para ser governador a partir do momento que o BdP disse que não iria analisar a idoneidade do seu governador, o que significa que dos ex-administradores da CGD há um que não é avaliado como os outros, o que cria um conflito de interesse”. Para a deputada, “se a condição para que se avalie a idoneidade [de Carlos Costa] é deixar de ser governador, que deixe de ser governador”.

Já o vice-presidente da bancada do PS, João Paulo Correia, destacou que só é possível esta comissão de inquérito acontecer “por determinação do atual Governo” e que se não houve auditoria antes foi porque o Governo de Passos Coelho nunca a quis pedir. João Paulo Correia disse ainda que os “portugueses querem saber que créditos foram concedidos e reestruturados, contrariando o parecer de gestão de riscos da CGD” e “se houve intervenções dos anteriores governos”. Na resposta, Duarte Pacheco voltou a fazer nova invocação divina: “Se não houve auditoria mais cedo foi porque vossas excelências chumbaram a auditoria que PSD e CDS propuseram, Deus saberá porquê“.

O deputado do PCP Duarte Alves diz que a auditoria demonstra que houve uma “aproximação dos critérios da CGD ao da banca privada” e insiste que a comissão não era oportuna: “Nunca os bancos privados tiveram três comissões políticas numa legislatura”. Duarte Alves lembrou que a responsabilidade pelos créditos ruinosos é de gestores da Caixa, que foram figuras de “proa do PS, PSD e CDS” e “também dos dois governadores indicados pelos dois partidos”, numa alusão não só a Carlos Costa, mas também a Vítor Constâncio.

Para o PCP a intenção de PS, PSD e CDS é “distribuir acusações de quem tem mais culpa”, mas também “usar esta comissão de inquérito para atacar o banco público e fortalecer a banca privada e permitir a entrada de privados no banco público”. Os comunistas avisam: “O PCP não dá para este peditório.”