Primeira Liga NOS

Bruno, o ministro que contou meia parte da verdade sobre o Estado da Nação (a crónica do Sporting-Sp. Braga)

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Sporting venceu Sp. Braga (3-0) e conseguiu jogo mais consistente da era Keizer. A cinco dias do Estado da Nação em Alvalade, Bruno Fernandes, com um golo e uma assistência, contou parte da verdade.

Bruno Fernandes inaugurou o marcador pouco depois da meia hora de jogo, num livre direto sem hipóteses para Tiago Sá

AFP/Getty Images

Quando um clube tem uma mensagem para passar, pode acontecer uma de três coisas: 1) faz um comunicado, que é divulgado por todos os meios; 2) coloca alguém, por norma o líder máximo, a falar em termos públicos; 3) anuncia uma conferência, para o dia seguinte ou mesmo para horas depois. Este sábado houve uma quarta versão sobre a possibilidade que deixou mais dúvidas do que certezas na altura da publicitação: na próxima sexta-feira, ou seja quase daqui a uma semana, haverá uma espécie de balanço do que se passou desde setembro no Sporting, naquilo que foi descrito como “a verdade sobre o Estado da Nação”.

Percebe-se o porquê. Depois do triunfo na Taça da Liga, os leões voltaram ao carrossel de emoções divididas. Apenas uma semana depois, aqueles que tinham sido considerados heróis na final frente ao FC Porto já tinham a máscara de vilões pela forma como perderam na receção ao rival Benfica. Na passada quinta-feira, a derrota com o Villarreal na primeira mão dos 16 anos de final da Liga Europa funcionou como gatilho para mais críticas, mais lenços brancos, mais assobios. É a habitual espiral autofágica tão característica e comum ao clube verde e branco, com divisões demasiado evidentes e que ficam expressas em vários pequenos pormenores do topo Sul onde estão as claques à bancada central, onde costumam estar os sócios mais antigos. Com ou sem razões para isso (se é que alguma vez pode haver razões para tal), o Sporting voltou a ser o seu principal adversário. E hoje tinha, além de si, um opositor muito difícil que lhe poderia fechar por completo as contas em relação ao Campeonato.

Sem margem de erro, os leões conseguiram uma das exibições mais consistentes da era Keizer. Aliás, provavelmente foi mesmo a mais consistente, tendo em conta as fragilidades defensivas que acompanhavam as goleadas em série quando o holandês assumiu o comando da equipa leonina (que esta noite não existiram, com o conjunto verde e branco a voltar a estar um jogo sem sofrer qualquer golo). E que contou de novo com o brilho do primeiro-ministro de um governo que anda ciclicamente em remodelação de ambições (Bruno Fernandes), desta vez com o presidente dos golos (Bas Dost) a aparecer também para sublinhar 90 minutos de afirmação do Sporting. O internacional português, coadjuvado com o goleador que chegou aos números de Dyego Sousa na liderança dos melhores marcadores, contou meia parte da verdade sobre o Estado da Nação – a parte que mostrou que nem tudo é assim tão mau no futebol e no clube leonino; agora, daqui a cinco dias, chegará a outra parte.

Bas Dost voltou a bisar num jogo, naquela que foi uma das melhores exibições na era Keizer (PATRICIA DE MELO MOREIRA/AFP/Getty Images)

Ficha de jogo

Sporting-Sp. Braga, 3-0

22.ª jornada da Primeira Liga

Estádio José Alvalade, em Lisboa

Árbitro: Jorge Sousa (AF Porto)

Sporting: Renan Ribeiro; Ristovski, Coates, Tiago Ilori, Borja; Gudelj, Wendel (Doumbia, 82′), Bruno Fernandes; Diaby (Raphinha, 79′), Acuña e Bas Dost (Luiz Phellype, 70′)

Suplentes não utilizados: Salin, André Pinto, Jefferson e Francisco Geraldes

Treinador: Marcel Keizer

Sp. Braga: Tiago Sá; Marcelo Goiano, Bruno Viana, Raul Silva, Sequeira; Claudemir, Fransérgio; Ricardo Esgaio (Wilson Eduardo, 46′), João Novais (Ricardo Horta, 69′); Paulinho (Ryller, 75′) e Dyego Sousa

Suplentes não utilizados: Marafona, Ailton, Eduardo e Trincão

Treinador: Abel Ferreira

Golos: Bruno Fernandes (33′) e Bas Dost (50′, g.p. e 68′)

Ação disciplinar: cartão amarelo a Ristovski (40′), Wendel (47′), Claudemir (48′), Gudelj (75′), Renan Ribeiro (82′), Fransérgio (83′), Luiz Phellype (83′) e Raul Silva (85′)

Em sentido contrário, o Sp. Braga, aquela equipa que como quem não quer a coisa lá anda colada aos lugares cimeiros à espreita de uma aberta para conseguir ficar mais próximo do título, voltou a falhar num jogo grande, tal como já acontecera na Luz com o Benfica (6-1). Desde o início da época, o plantel minhoto valorizou 42% e passou para os 91,2 milhões de euros, algo impensável há uns anos, mas esse é apenas mais um pormenor que não basta para escalar a pequena grande diferença para os dois primeiros classificados do Campeonato. E esta noite chegou uma das piores exibições da época.

Marcel Keizer regressou à fórmula vencedora de Santa Maria da Feira, com Ristovski e Borja nas laterais; o habitual meio-campo formado por Gudelj, Wendel e Bruno Fernandes; e Diaby e Acuña no apoio mais direto a Bas Dost – pelo menos no papel, porque as dinâmicas viriam a apresentar uma realidade de disposição em campo bem diferente. Também Abel Ferreira não quis mexer na sua equipa, mantendo a dupla atacante formada por Paulinho e Dyego Sousa (depois de muito se ter falado sobre a possibilidade de Wilson Eduardo voltar à equipa) e lançando João Novais como médio mais encostado à esquerda para dar outro critério de passe e meia distância, em vez do fantasista Ricardo Horta. No entanto, e ao contrário do que aconteceu nos outros dois encontros com os minhotos (Campeonato e Taça da Liga), os leões conseguiram assumir as rédeas do encontro desde início, tendo apenas a tremideira do costume na defesa aos oito minutos quando Ricardo Esgaio, na sequência de um lançamento lateral desviado na área, recebeu ao segundo poste mas atirou desenquadrado por cima da baliza de Renan Ribeiro.

[Clique nas imagens para ver os melhores momentos do Sporting-Sp. Braga em vídeo]

Depois, o Sporting cresceu. Ou melhor, materializou o domínio com a criação de finalizações dentro e fora da área, perante uma série de erros atípicos do Sp. Braga em termos defensivos, na transição e em organização. Ao todo, foram três oportunidades em pouco mais de quatro minutos: primeiro foi Bas Dost a rematar ao segundo poste após jogada de envolvimento que terminou com cruzamento rasteiro de Ristovski (15′); depois foi Bruno Fernandes a atirar de fora da área para nova defesa segura de Tiago Sá (17′): por fim, foi Wendel, médio brasileiro que raramente arrisca a meia distância, a tentar também de longe para mais uma intervenção do jovem guarda-redes bracarense, que protestava muito com os companheiros de equipa (19′).

Havia duas nuances nos posicionamentos da equipa do Sporting na primeira meia hora que faziam diferença na forma como o Sp. Braga ia tendo dificuldades em travar as ações ofensivas da equipa verde e branca: por um lado, o desenho quase a três defesas, com Borja a ficar mais por dentro e a dupla Ristovski-Acuña a dar largura pelas laterais; por outro, além do já habitual jogo de fora para dentro de Diaby, a colocação de Dost ligeiramente mais recuado do que Bruno Fernandes. O conjunto de Marcel Keizer controlova dessa forma o encontro, tendo apenas como único calcanhar de Aquiles os erros nas transições defensivas que nunca foram aproveitados pelos minhotos (além de uma “brincadeira” de Renan que por pouco não saiu cara…). Faltava ainda assim o golo que materializasse esse ascendente, que chegaria mais uma vez pelo suspeito do costume.

Bruno Fernandes tinha marcado de livre direto ao Benfica, na Luz, para a Taça de Portugal. E também no jogo seguinte, em Santa Maria da Feira, a contar para o Campeonato. Como não há duas sem três, em apenas quatro encontros (pelo meio houve a derrota com o Villarreal), o médio apontou mesmo mais uma bola parada com sucesso, num remate por cima da barreira com ângulo fechado quando a falta parecia pedir o pé esquerdo de Acuña (33′). Com isso, o internacional português igualou os 21 golos de Balakov e Osvaldo Silva numa só época, tornou-se o primeiro jogador a marcar dois livres diretos nesta edição da Primeira Liga e igualou também os 11 golos apontados no último Campeonato. Uma época de sonho entre alguns pesadelos coletivos.

Ao intervalo, Abel Ferreira mexeu. O facto, por si só, não surpreendeu; a forma como decidiu fazê-lo, isso sim, não era bem aquilo que se pensava. Wilson Eduardo entrou para o lugar de Ricardo Esgaio, numa tentativa de dar outra dinâmica ofensiva ao lado direito do ataque, mas era no centro do terreno que estava a principal dificuldade, com Fransérgio demasiado sozinho nessa zona com Claudemir e também numa noite em que nada corria lhe bem – numa grande arrancada de Diaby, Raul Silva não conseguiu travar o maliano, o médio brasileiro falhou também esse objetivo e seria Claudemir, a meias com Bruno Viana, a derrubar o avançado já na área, para uma grande penalidade bem transformada por Bas Dost (50′). Pouco depois, Bruno Fernandes voltou a ganhar espaço para testar de novo a meia distância mas o remate saiu um pouco ao lado (58′).

Os bracarenses, que nunca estiveram propriamente bem em campo, acusaram em demasia o segundo golo, continuaram a cometer os mesmos erros (e mais alguns) e, quando Abel Ferreira se preparava para lançar em campo Ricardo Horta à procura de algo diferente nas movimentações ofensivas, acabaram por sofrer o terceiro golo: já depois de mais uma boa oportunidade para Bas Dost (66′), Bruno Fernandes aproveitou uma distração adversária num lançamento lateral, ganhou espaço na linha de fundo para fazer o cruzamento atrasado e o holandês apareceu na zona da pequena área a encostar para o 3-0 (68′), sentenciando o marcador de um jogo que caiu depois a pique entre substituições e entradas mais duras que valeram muitos amarelos.

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