Quando o português Fernão de Magalhães provou, em 1519, que a Terra era esférica, através da viagem de circum-navegação, estaria longe de pensar que, exatamente 500 anos depois, ainda haveria seres-humanos a discutir qual a forma do planeta. Mas a verdade é que há. Não são muitos, mas cada vez mais a teoria de que a Terra é plana ganha força — e apoiantes da ideia. Só a Flat Earth Society — a mais conhecida associação defensora da teoria — já tem mais de 500 sócios, enquanto que a Flat Earth Conference — conferência de discussão do tema — recebeu 650 ativistas. Foi precisamente nesse evento que a Texas Tech University realizou um estudo sobre esta convicção, chegando a uma conclusão: o YouTube é o principal “culpado” pela difusão daquela tese.

Os investigadores estiveram presentes nas últimas duas edições do evento — em 2017, em Raleigh, na Carolina do Norte, e em 2018, em Denver, no Colorado. O objetivo era estudar os comportamentos de alguns dos elementos presentes. Para isso foram escolhidos, na última edição e aleatoriamente, 30 defensores da teoria. Dos trinta, 29 identificaram qual o principal motivo para se converterem à ideia da terra ser plana: mudaram de opinião depois dos vídeos sobre a teoria publicados no YouTube, a maior plataforma online de difusão de vídeos.

Um dos momentos da conferência Flat Earth, realizada em Denver, no Colorado

Não é difícil acreditar no poder do site: basta uma pequena pesquisa para sabermos que o YouTube disponibiliza, em apenas 0,97 segundos, cerca de 10 milhões de resultados para vídeos com os termos “flat earth”. Mas voltemos ao estudo. Porquê o YouTube? Asheley Landrum, líder da pesquisa, diz que grande parte dos inquiridos começou por recorrer àquela plataforma de vídeos simplesmente para… poder gozar com a teoria e desmontá-la. Depois, porém, acabou por se render aos argumentos. Algo que, segundo a investigadora, é até justificável: “Os algoritmos do YouTube ajudam a que se acabe na ‘toca do lobo’, apresentando informação mais forte a utilizadores que são mais suscetíveis de ser manipulados. Há muita informação útil no site, mas também muitos dados errados”, disse Landrum na apresentação dos resultados, na Associação Americana para o Avanço da Ciência, em Washington.

Um dos vídeos mais vistos, por exemplo, o  “200 proofs Earth is not a spinning ball” — em português “200 provas de que a Terra não é uma bola giratória” — mostra o porquê do sucesso do YouTube para a divulgação da teoria. Segundo Landrum, o vídeo é poderoso porque “apresenta argumentos que chamam a atenção de pessoas com os mais diversos tipos de mentalidade, desde religiosos, fãs de teorias ou adeptos da ciência”.

Por considerar que o YouTube, por si só, não está a fazer nada de errado, Asheley Landrum faz um apelo aos utilizadores — que, afinal, ao fazerem upload de vídeos daqueles estão a enganar tantos outros — especialmente os que são seus colegas do ramo científico. Landrum pede para usarem os seus talentos na criança de vídeos cientificamente corretos: “Não queremos que o YouTube esteja cheio de vídeos com razões para a Terra ser plana. Precisamos é de outros vídeos que digam o porquê dessas razões não serem reais”.