O PCP faz-se pequeno a ele próprio. Estamos aqui nesta sala quando podíamos estar na Casa do Povo a discutir isto. E garanto-vos que teriam sala cheia”. A observação foi feita pelo tesoureiro da Junta de Freguesia de Apúlia e Fão, Manuel Melo. Eleito pelo PS — mas, entretanto, desfiliado do partido “também por culpa das decisões do dr. António Costa”, explicou —, o autarca fazia parte da plateia numa sessão de encontro dos deputados e eurodeputados comunistas com a comunidade de Apúlia, no concelho de Esposende, em Braga.

O tema da discussão não era, naturalmente, a auto-estima do PCP, mas sim as consequências que o avanço do mar está a ter sobre a costa daquela comunidade. A solução prevista é a de retirar as habitações e os restaurantes situados na orla costeira e deslocá-los para outra zona da freguesia. A medida, no entanto, não convence a população que se junta à voz de protesto dos proprietários dos restaurantes e à dos pescadores. Pedem que seja adotada outra solução, que se olhe para a possibilidade de combater o avanço do mar, sem que tenha de se deslocar habitantes.

O PCP decidiu ouvir as partes interessadas e dedicou parte do programa das jornadas parlamentares, que decorrem no distrito Braga até terça-feira, a esta questão. Depois de um curto passeio junto à linha do mar, o eurodeputado João Ferreira, o líder do grupo parlamentar do PCP, João Oliveira, e a deputada Carla Cruz, eleita pelo distrito, ouviram todos os que quiseram aparecer e falar. O espaço escolhido para o efeito foi um dos restaurantes na primeira linha do mar. Como se se tratasse de uma conferência, os três parlamentares sentaram-se numa mesa virados para uma plateia improvisada e para a qual as cadeiras disponíveis se revelaram insuficientes.

Durante mais de uma hora ouviram as queixas da população mas também de ambientalistas. Jorge Silva, da Associação Assobio, fez questão de constatar o óbvio: “O mar está a avançar”. Os habitantes de Apúlia, porém, não parecem estar totalmente convencidos de que a erosão da costa a que têm assistido seja, de facto, motivada pela subida do nível do mar. “A culpa é da ação humana”, retorquiu um pescador. “Também é. Mas não podemos negar que o mar está a avançar e que é preciso desocupar a linha da costa de forma estratégica e pensada”, sugeriu Jorge Silva. A afirmação indignou os habitantes de Apúlia presentes na pequena sala, que defenderam que as pessoas que vivem na zona costeira “têm direito a viver nas casas que construíram”.

Problemas reais e muito específicos da região a que os três parlamentares foram respondendo com números e diplomas. Com um tom mais formal, e num misto de prestação de contas e de explicação das dificuldades implícitas na tomada de uma decisão sobre este tema, tentaram acalmar as ânsias de quem vê o mar a avançar sobre Apúlia, sem que possa intervir na solução.

Lembraram “os vários projetos de resolução” que apresentaram nesta legislatura e prometeram continuar a lutar por uma solução para este problema. “Somos apenas 15 deputados em 230”, disse ainda João Oliveira, tentando justificar a razão pela qual a discussão não tem estado na agenda. “E três em 21”, completou João Ferreira, recordando o número de representantes comunistas no círculo nacional para o Parlamento Europeu. As respostas não convenceram totalmente, já que os deputados foram interrompidos algumas vezes pela plateia, que queria respostas mais taxativas.

Em ano eleitoral, o PCP optou por deixar de lado as arruadas e as visitas a grandes feiras. Preferiu um modo mais didático, quase como se fosse uma conferência de imprensa. Um formato que trouxe um ar formal a este contacto com o eleitorado. “Não damos a legislatura por fechada”, explicou João Oliveira, dando a entender que há trabalho a fazer e justificando assim o estilo escolhido. Já ao início da tarde, na Casa da Juventude de Barcelos, o mesmo grupo tinha estado reunido com produtores de leite, num formato idêntico.

Esta opção não satisfez todos os presentes. À saída do restaurante que fez as vezes de sala de conferências, uma habitante de Apúlia comentava que o PCP só tinha ido àquela freguesia “para fazer política e aparecer nas televisões”, enquanto apontava para um apressado João Ferreira, que entrava no carro pedindo desculpa por, devido a questões de agenda, não poder ficar mais tempo.