Lamine Sarr, Di Bella, Valente, Migliozzi, Cirigliano e Del Giudice. Todos jogadores do Pro Pescara, todos com idades entre os 16 e os 19 anos, e quase a totalidade da equipa que defrontou o A.C. Cuneo na 20.ª jornada da Terceira Liga italiana, a Serie C. Quase, porque o número mínimo de jogadores para começar uma partida de futebol é sete, portanto também teve de entrar em campo o massagista do clube: Picciarelli. Havia outro jovem anunciado na ficha de jogo, o vice-capitão Isufi, mas foi proibido de jogar por se ter esquecido dos documentos de identificação em casa. Entrou em campo na segunda parte para deixar o Pro Piacenza com oito jogadores, contra os 11 do adversário. Nessa altura a equipa já perdia por 17-0, e minutos depois voltaria a estar reduzida ao número mínimo: o massagista, incapaz de se auxiliar a si próprio, foi obrigado a deixar o campo por lesão.

O jogo acabou com uma vitória do Cuneo por 20-0, que deixa o Pro Piacenza  no último lugar do Grupo A da Serie C, com oito pontos em 20 jogos e a 12 pontos do penúltimo classificado. A posição implica a despromoção direta para a Serie D, o campeonato amador de que o Pro Piacenza saiu em 2014. O Cuneo aproveitou para duplicar os golos marcados na Liga – ia com 18 nos últimos 24 jogos – e chegar à condição ao 12.º lugar.

O fracasso na liga e a derrota história (em que Hicham Kanis, emprestado pelo Novara, aproveitou para se tornar o primeiro jogador de sempre a marcar 6 golos num jogo profissional em Itália) surgem durante de época marcada pelo desastre desde o início. Com salários em atraso desde agosto, como avança o The Guardian, o plantel e a equipa técnica entraram em greve. Sem jogadores, o Pro Piacenza não participou em quatro jogos seguidos, perdendo por falta de comparência. Mas se faltasse a cinco jogos seguidos o clube seria automaticamente expulso da Liga e por isso o Pro Piacenza levou a campo o mínimo legal, sete jogadores, para ter hipótese de permanecer na Terceira Liga e tentar uma improvável manutenção nos escalões profissionais. Sem treinador, o capitão de 19 anos, Cirigliano, também se tornou temporariamente na totalidade da equipa técnica.

O truque pode não valer de muito. O presidente da Serie C, Francesco Ghirelli, garante que o clube “quebrou as regras de desportivismo de forma flagrante”, sublinhando, à ANSA, que cabe aos organismos judiciais tomar uma decisão. O presidente da Associação Italiana de Jogadores, Damiano Tommasi, pediu explicitamente a despromoção do clube, acusando o Pro Piacenza de tentar “entrar no futebol profissional sem ter condições”, em declarações à Rai Sport.

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O Pro Piacenza deverá cerca de 500 mil euros aos funcionários e está sob investigação da Federação Italiana (a audiência está marcada para 11 de março). O clube foi fundado como o A.C.D. Pro Piacenza 1919 para jogar futebol amador nas competições distritais. Em 2013 fundiu-se formalmente com o Atletico BP Pro Piacenza, da Serie D, para criar o A.S.D. Pro Piacenza 1919. Venceria a Serie D nesse mesmo ano, qualificando para a temporada 2014-15 da Serie C, e chegando pela primeira vez a uma liga profissional de futebol. Antes ainda mudou de nome uma última vez, para A.S. Pro Piacenza 1919.

Mesmo com crescentes dificuldades económicas, o Pro Piacenza consegiu manter-se na Serie C com resultados variáveis. Em 2015 teve de ir aos playoffs para não ser despromovido. Em 2016 ficou a um ponto de chegar ao playoffs de promoção para a Serie B. No ano seguinte manteve-se na meia tabela (14.º lugar). Agora, mesmo que consiga recuperar competitivamente, pode ser excluído da liga por não apresentar condições financeiras. O Pro Piacenza é, desde 2018, propriedade da empresa tecnológica Sèleco.

As contas instáveis dos clubes italianos são um problema recorrente nos escalões profissionais mais baixos. Só este ano, quatro clubes desistiram da Serie C por falência: S.S. Fidelis Andria 1928, A.C. Mestre, A.C. Reggiana 1919 e L.R. Vicenza Virtus. Houve tantos problemas em organizar a Terceira Liga italiana que o início da competição foi adiado um mês pela Federação Italiana. No ano anterior tinham sido cinco equipas a falhar os requerimentos de estabilidade financeira: S.S. Maceratese, Mantova 1911 S.S.D, A.C. Riunite Messina 1947, Latina Calcio 1932 e Modena F.C.