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Foi uma ascensão meteórica. No espaço de um mês, Juan Guaidó tornou-se presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, a 5 de janeiro. 18 dias depois, declarou-se presidente interino do país. Um pouco por todo o mundo, foram rapidamente surgindo as declarações de apoio a Guaidó: desde os Estados Unidos, Colômbia ou Brasil, à União Europeia, com países como Espanha, Portugal ou França a reconhecerem o recém-autoproclamado Presidente interino da Venezuela.

Nada aconteceu por acaso. A subida do líder do partido Vontade Popular foi estudada ao pormenor, e muito preparada. O responsável por esse papel tem um nome: Leopoldo López, 47 anos, um dos principais rostos da oposição venezuelana, e atualmente em prisão domiciliária, em Caracas.

Esta segunda-feira, o calendário marca cinco anos desde que aquele que é considerado o mentor de Juan Guaidó está preso. Leopoldo López foi acusado de ser o responsável pelas violentas manifestações, em fevereiro de 2014, contra o presidente Nicolás Maduro, que provocaram 43 vítimas mortais e mais de 3 mil feridos.

López acabou por ser condenado a uma pena de prisão de quase 14 anos, mais precisamente, 13 anos, 9 meses, 7 dias e 12 horas de prisão. A acusação do Ministério Público indicava uma série de crimes, como associação criminosa, instigação à delinquência e intimidação pública. Mas quem é este homem que continua a alimentar o sonho de vir a ser Presidente da Venezuela?

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López: um principais rostos da oposição venezuelana

Nasceu em Caracas, a 29 de Abril de 1974, e é familiar, ainda que distante, de Simón Bolívar, político e militar venezuelano que liderou a independência do domínio colonial espanhol. Estudou nos Estados Unidos, onde se formou em Economia e Políticas Públicas, segundo conta o The Guardian. Quando regressou à Venezuela, co-fundou, em 1992, o partido político Justiça Primeiro, com outros conhecidos políticos, Julio Borges e Henrique Capriles.

Mais tarde, em 2007, motivado por disputas internas, abandonou o partido e fundou o Vontade Popular, partido de centro-esquerda, que pertence à Internacional Socialista. Antes disso, em 2000, López foi eleito presidente da câmara de Chacao, com 51% dos votos, re-eleito em 2004, e em 2008 foi impedido por Chávez de se recandidatar. Em 2002, chegou a ser acusado de envolvimento no golpe de Estado contra Chávez do poder.

A fevereiro de 2014, López foi preso depois de liderar vários protestos contra o sucessor de Chávez à frente dos destinos da Venezuela, Nicolás Maduro. Foi enviado para a prisão de segurança máxima de Ramo Verde, em Caracas, onde chegou a estar oito meses na solitária.

Em 2017, foi transferido para prisão domiciliária, o que permitiu que López comunicasse diretamente com outros membros do partido, incluindo Juan Guaidó – que preparou para ser um dos protagonistas da batalha pela legitimidade política da Venezuela.

Nesse momento ganha relevo, Lilian Tintori, a mulher de López. Campeã de kitesurf da Veneuzela, concorrente num reality-show de sobrevivência numa ilha deserta, ex-jornalista, fazia a ponte entre o marido e as figuras da oposição, para se certificar de que permanecia o contacto entre as duas partes.

Ao Guardian, Tintori contou que quando o marido se encontrava na prisão, ele a enviou no seu lugar para falar com outros líderes políticos. “Eu transmitia-lhe as mensagens. Foi como a Vontade Popular se tornou tão unida”. Já com o marido em prisão domiciliária, Tintori continua a marcar presença no lugar de López nos encontros com líderes e diplomatas por todo o mundo.

López como possível candidato à liderança da Venezuela?

Segundo conta o The Guardian, foi Leopoldo López quem garantiu que Guaidó estaria na liderança da Assembleia Nacional da Venezuela, quando Maduro iniciasse o seu segundo mandato no início de janeiro deste ano como Presidente.

Citado pelo jornal britânico, o recém-nomeado embaixador venezuelano nos Estados Unidos, Carlos Vecchio, contou que o movimento em curso começou a ser levado a cabo quando decidiram  “não participar nas eleições fraudulentas de maio”. E o movimento avançou em todo o mundo “no sentido de que ninguém reconhecesse a legitimidade de Maduro no dia 10 de janeiro”.

E o movimento  não pretende abrandar, muito menos agora. Numa entrevista ao diário espanhol ABC, a mulher de Leopoldo López afirmou que o marido “está muito seguro de cada passo que dá e da sua responsabilidade como venezuelano. Tem a capacidade de unir e de se juntar ao movimento de Guaidó”.

Não só de se juntar a Guaidó como também de uma possível candidatura à presidência da Venezuela. Na mesma entrevista, Lilian Tintori afirmou que “seguramente” Leopoldo López “tomará a decisão de se apresentar como candidato”. Isto se conseguirem “eleições livres”.

Nesse sentido, Vecchio, escolhido por Juan Guaidó para representar o país em solo norte-americano, tem explicado que o objetivo é “conseguir que mais gente declare não só que Maduro é ilegítimo”, mas ainda que “reconheça o também líder da Assembleia Nacional como o Presidente interino legítimo”.

Para isso, adiantou ao The Guardian que tem trabalhado com figuras em Washington, como o senador republicano Marco Rubio ou o senador democrata Bob Menendez. Os membros do partido venezuelano Vontade Popular mantêm ainda contacto com diplomatas de 175 embaixadas localizadas na capital americana.