No novo "monumento" do Porto a comida é de ir ao céu. Só falta mesmo a estrela

A Avenida dos Aliados ganhou um novo hotel de cinco estrelas, o Maison Albar Le Monumental Palace, e com ele veio também um restaurante de fine dining que promete vir dar luta à Michelin.

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O que interessa saber

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Nome: Maison Albar Le Monumental Palace
Abriu em: Novembro de 2018
Onde fica: Avenida dos Aliados, 151, Porto
O que é: O mais recente hotel de cinco estrelas do Porto onde mora o incrível restaurante gastronómico do chef Julien Montbabut
Quem manda: O grupo Paris Inn Group
Quanto custa: Estadia no hotel entre os 300€ e 800€; Preço médio da refeição no espaço fine dining ronda os 120€
Uma dica: Deixe-se se levar pelas sugestões da equipa de sommeliers, eles serão os sherpas ideais na exploração de uma carta rica em referências nacionais e estrangeiras.
Contacto: 227 662 410
Horário: De terça a sábado, das 19h30 às 23h30
Links importantes: FacebookInstagramSite

A História

Em poucos meses, a vida de Julien Montbabut mudou completamente. O parisiense de 35 anos sempre dedicou a sua vida ao mundo da cozinha, até há pouco tempo era detentor de uma estrela Michelin na capital francesa (o sonho de tantos chefs profissionais, franceses e não só) e, se alguém lhe dissesse que acabaria por ir parar ao coração da cidade do Porto, em Portugal, “nunca acreditaria”. Foi no final de uma excelente refeição no restaurante de fine dining do novíssimo hotel Maison Albar Le Monumental Palace que o mesmo Julien se sentou à mesa para conversar com o Observador.

“Estava tudo bom?”, perguntou várias vezes. Era difícil esconder o nervosismo de quem começou há pouco tempo numa nova aventura, mas afinal de contas, isso era perfeitamente normal. “Nunca tinha vindo ao Porto quando me convidaram para vir para cá, conhecia pouquíssimo da vossa comida tradicional”, explica. Contudo, a curiosidade e o espírito aventureiro deste homem que começou a sua carreira no imponente Pavillon Ledoyen (na altura do chef Christian Le Squer, o primeiro a conquistar três estrelas Michelin nessa casa), fê-lo dar um tiro no escuro.

Abdicou do seu restaurante em Paris, o Le Restaurant que apesar de não ter o nome mais criativo do mundo era orgulhoso detentor de uma estrela Michelin, e mudou-se para terras lusas acompanhado da família — Joana Thöny, a mulher (e chef pasteleira) e os dois filhos. “Foi como recomeçar do zero, tive de conhecer pesquisar muito, conhecer muitas coisas novas, familiarizar-me com o produto Português”, explicou o cozinheiro. Felizmente, pelo que contou, a mudança tem-se revelado “muito positiva”, já está perfeitamente enturmado e até já consegue um domínio do português falado impressionante, tendo em conta o pouco tempo de “prática” que já teve — ajuda muito obrigar a sua equipa de cozinha a falar o máximo de português possível, por exemplo.

O chef Julien Montbabut chegou ao Porto com vários anos “de Michelin” na bagagem.

O Espaço

É impossível falar deste restaurante sem primeiro dar umas luzes sobre o hotel onde ele mora. A história desta unidade hoteleira está intimamente ligada ao icónico Café Monumental, estabelecimento inaugurado em 1930 que rapidamente ganhou fama internacional. A partir da sua inauguração começou a ser conhecido como o maior café do país e um dos mais luxuosos de toda a Península Ibérica, muito por culpa de coisas como as 24 mesas de bilhar que tinha à disposição dos seus clientes ou da grande sala de concertos onde diariamente, assim reza a lenda, tocavam duas orquestras ao vivo.

O passar do tempo foi atirando este enorme e central edifício de fachada gótica para o esquecimento, até que ele apareceu no radar do empresário Mário Ferreira — da Douro Azul —  que, o comprou em novembro de 2013 ao Banco Espírito Santo, já com a ideia de o transformar num hotel. Uns anos mais adiante, depois de ultrapassados vários problemas de orçamento e sucessivos atrasos, o improvável acontece: A poucos dias da obra ficar totalmente concluída, o grupo francês Maison Albar chega-se à frente para comprar o projeto de Ferreira — o jornal Público afirma que o grupo hoteleiro terá oferecido cerca de 500 mil euros por cada quarto, sendo que o edifício tem 76, no total, o que dá uma quantia de cerca de 38 milhões de euros.  O empresário aceitou e é assim que nasce esta luxuosa novidade.

O estilo art deco predomina em todo o restaurante – e hotel também.

Mais concretamente, o estilo predominante por estes corredores remete-nos ao imaginário art deco dos anos 20/30. Muitos espelhos, tecidos ricos, cores berrantes e grandes trabalhados encontram-se espalhados por todo o lado, tanto nos quartos como no lindíssimo restaurante do chef Julien. Se nas informações oficiais do Le Monumental Palace diz-se que “os corredores do hotel pretendem imitar o imaginário do Expresso do Oriente”, a sala de refeições deste restaurante de fine dining foi seguramente copiada a régua e esquadro das páginas de Agatha Christie, dos trechos onde descreve o luxuoso vagão restaurante do fatídico comboio.

É logo a seguir à receção que aparece o acesso à sala de refeições — umas portas grandes em ferro preto e vidro. Lá dentro, no piso térreo da enorme divisão (há uma espécie de mezzanine onde se serve o pequeno-almoço), surgem os sofás brancos, os pequenos candelabros dourados e o mobiliário de apoio ao serviço em tons escuros.

A Comida

A comida francesa continua a ser sinónimo de refinação e alta gastronomia. Há umas boas décadas, o movimento da nouvelle cuisine potenciou ainda mais uma cultura alimentar já por si muito rica e isso foi-se perpetuando pelo mundo inteiro — quem não suspiraria, em plenos anos 70/80, se lhe dissessem que tinha um cozinheiro francês a preparar-lhe o jantar? Curiosamente, com o desenvolvimento gastronómico de Espanha e dos países Nórdicos esse ascendente culinário foi desvanecendo, de tal forma que em Portugal, pelo menos, começou a ser difícil encontrar um restaurante francês de raiz e de boa qualidade. É no meio deste aparente marasmo que surge como um farol luminoso a cozinha do chef Julien.

Desengane-se quem estiver à espera apenas dos tradicionais e rústicos coques au vin ou ratatouilles — o que pode encontrar à mesa do Le Monument é bem mais que isso. “Portugal tem peixe e marisco incrível, soberbo, mesmo. Não podia não dar destaque a isso. Já com a carne a situação é diferente, acho que a França ainda está mais avançada que vocês e tudo o que uso aqui vem de lá. Gosto de pensar que faço uma comida que junta o melhor destes dois mundos”, afirmou o cozinheiro no final de um menu de degustação com quatro pratos e umas outras surpresas. Antes de avançarmos para o conteúdo do mesmo, convém sublinhar que a filosofia de menus de degustação, aqui, é ligeiramente diferente. “O cliente é que manda. Porque não poderia escolher os pratos que vai provar ao longo de um menu?”, questiona, retoricamente, Julien. É por isso que nesta opção de quatro pratos (85€ por pessoa, sem vinhos) é o cliente que escolhe quais é que eles são — o mesmo não se verifica no outro menu, o “Surpresas do Chef” que custa 105€ por pessoa e é composto por seis momentos.

A deliciosa corça com couve lombarda e molho pimenta.

Passando à comida propriamente dita: As hostilidades podem ser abertas com a recriação de um pot au feu (espécie de cozido tipicamente francês) onde uma mistura de foie gras, trufa preta laminada e uma série de mini-vegetais são combinados e devorados antes de chegar o aromático consomé que acompanha. Logo depois surge o pregado de mar, que vem embrulhado num fantástico molho com base de café e é servido com cogumelos de Paris, fazendo-se seguir por uma igualmente equilibrada e gulosa combinação de peixe galo selvagem com manteiga, abóbora e vermouth. Na secção da carne deparamo-nos com algo tão francês que devia vir com uma boina e uma baguete: corça, um parente afastado do veado que é caçado em solo gaulês e chega-nos ao prato com um fortíssimo molho de zimbro, couve lombarda e molho “Poivrade”. É no momento das sobremesas, porém, que surge a parte mais misteriosa da refeição. Se escolher a “Surpresa da Joana”, uma referência à chefe pasteleira, tenha em consideração que vai precisar de algum espaço extra no estômago. Para não estragar o momento, termina aqui a explicação dessa guloseima.

Julien é o primeiro a admitir clara e diretamente que quer uma estrela Michelin — “Porque o hei de negar se todos sabemos que é a maior distinção que um cozinheiro pode ganhar na sua carreira?”. Quebrando com a falsa modéstia do “ah, se vier logo se vê”, o chef Montbabut é claro com os seus objetivos e é bem provável que os consiga alcançar. Com uma qualidade indiscutível no plano gastronómico que é perfeitamente acompanhada pela atenciosidade e profissionalismo do serviço, não há como não olhar para o restaurante de fine dining do Le Monumental Palace como um forte candidato aos tão ambicionados astros. Terá de manter o foco que demonstrou até agora e manter-se fiel a esta mistura de influências que aparenta estar a funcionar bem. O resto? É esperar para ver.

“Cuidado, está quente” é uma rubrica do Observador onde se dão a conhecer novos restaurantes.

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