Entre as 16 equipas que esta sexta-feira foram a sorteio em Nyon, na Suíça, para acertar os jogos dos oitavos de final da Liga Europa, existiam três categorias não oficiais pré-concebidas: os “tubarões”, os brindes e os ditos intermédios. Na primeira, cabiam Arsenal, Chelsea, Inter e Nápoles; na segunda, entravam Rennes, Slavia Praga e Krasnodar; e na terceira estavam equipas como o Sevilha, o Valência e o Villarreal. E o Dínamo Zagreb. A equipa da capital da Croácia, sem ser “tubarão” mas sem ser propriamente pêra doce, será o oponente do Benfica, o único clube português ainda em competição na Liga Europa, nos oitavos de final.

A equipa orientada por Nenad Bjelica, antigo médio internacional pela seleção da Croácia que teve o período áureo da carreira ao serviço do Betis, é a atual campeã croata: voltou a conquistar o Campeonato (e a Taça) na passada temporada, após o Rijeka se ter sagrado campeão em 2016/17, interrompendo assim uma série de onze anos consecutivos em que a Liga croata pertenceu ao Dínamo. Mas se, internamente, a equipa da capital croata cimentou uma hegemonia inegável que lhe garante o estatuto de clube mais conhecido e reconhecido da Croácia, na Europa as coisas não têm corrido tão bem.

Depois de na temporada passada ter caído nos 16 avos de final da Liga Europa, o Dínamo Zagreb alcançou esta quinta-feira a melhor campanha europeia desde 1997/98. Nessa época, há mais de 20 anos, os croatas conseguiram chegar à terceira ronda da antiga Taça UEFA e só caíram com os espanhóis do Atl. Madrid. Daí para cá, o Dínamo nunca mais conseguiu chegar para lá das fases de grupos da Champions ou da Liga Europa (tendo ainda sido eliminado nas rondas de qualificação diversas vezes) e fez história no ano passado, quando conseguiu apurar-se para os 16 avos. Repetiu a façanha esta época e somou pontos ao feito histórico esta quinta-feira, quando virou a derrota sofrida na República Checa, com o Viktoria Plzen, na primeira mão, e venceu por 3-0 em casa, carimbando assim a passagem aos oitavos de final.

O segundo lugar no Campeonato croata na temporada passada garantiu a presença na 2.ª pré eliminatória da Liga dos Campeões, onde o Dínamo ultrapassou o Hapoel, e a vitória perante o Astana colocou a equipa de Bjelica no playoff de acesso à liga milionária, onde acabou por cair frente aos suíços do Young Boys. Na Liga Europa, os croatas venceram o Grupo D (onde também estavam Fenerbahçe, Spartak Trnava e Anderlecht) com 14 pontos e qualificaram-se então para os 16 avos de final. Na Croácia, o Dínamo Zagreb está atualmente na liderança isolada do Campeonato com 54 pontos, mais 14 do que o Osijek, que é segundo.

O mercado de verão de 2018 foi particularmente duro para o Dínamo: a equipa perdeu a referência ofensiva e o melhor marcador da época passada, o argelino Hillal Soudani, para o Nottingham Forest, e ainda cedeu o lateral Borna Sosa ao Estugarda, a promessa Ante Coric à Roma e o central Benkovic ao Leicester (este último garantiu um importante encaixe financeiro de 14 milhões de euros). Para colmatar as saídas, entraram o central Emir Dilaver (ex-Lech Poznan), o médio Mislav Orsic (ex-Ulsan Hyundai) e ainda outro médio, Lovro Majer, que até aqui atuava no Lokomotiva. Esta é também a primeira temporada completa de Nenad Bjelica, já que o treinador só chegou ao clube em maio de 2018 – pouco depois de sair do comando técnico dos polacos do Lech Poznan. Bjelica foi o escolhido para substituir Mario Cvitanović, que colocou o lugar à disposição após duas derrotas consecutivas, e conquistou o Campeonato, a Taça da Croácia e a Taça da Liga apenas semanas depois de chegar ao Dínamo.

A temporada 2017/18, apesar de ter sido o ano da reconquista do título nacional, foi caótica a nível institucional. Em junho de 2018, o antigo diretor executivo e conselheiro do Dínamo, Zdravko Mamic, foi condenado a uma pena de prisão de seis anos e meio por corrupção – numa investigação que envolvia, principalmente, as transferências de Luka Modric e Dejan Lovren para o Tottenham e para o Lyon. No mesmo dia, o clube reagiu via comunicado e disse estar “chocado” como veredito e “acreditar firmemente” que Mamic e os restantes condenados são inocentes. O antigo dirigente, que tinha entretanto emigrado para a Bósnia, não assistiu à sentença final e garantiu que não voltará à Croácia; permanece a viver no país vizinho, em liberdade, e o Governo bósnio já afirmou que não vai extraditar Zdravko Mamic.

Benfica e Dínamo Zagreb não se encontram desde 2004, ano em que ficaram sorteados no mesmo grupo da Taça UEFA. Na altura, os encarnados venceram por 2-0 em casa (com um golo de Sokota à antiga equipa e outro de Simão Sabrosa) e apuraram-se para a fase seguinte no segundo lugar e em igualdade pontual com o Estugarda; o Dínamo, por sua vez, ficou em penúltimo e terminou ali a campanha europeia daquele ano, que seria também a época em que o Sporting acabaria por chegar à final da competição, perdendo o troféu em Alvalade para o CSKA. Antes disso, croatas e portugueses defrontaram-se apenas na primeira ronda da Taça das Taças de 1980/81: depois de um empate sem golos em Zagreb, o Benfica venceu por 2-0 na Luz, com golos de Nené e César, e passou à fase seguinte (só seria eliminado nas meias-finais, pelo Carl Zeiss Jena da Alemanha).

A viagem do Benfica à Croácia traz ainda à memória um momento triste para o clube. Em setembro de 1994, os encarnados deslocaram-se até Split para defrontar o Hadjuk, em jogo a contar para a fase de grupos da Liga dos Campeões. Depois de um empate sem golos durante os 90 minutos, três adeptos encarnados acabaram por morrer num despiste em Espanha. O acidente criou uma ligação entre os dois clubes que se mantém até hoje: em agosto de 2017, durante um jogo com o Desp. Chaves, a claque encarnada exibiu uma enorme tarja onde se lia “Blato zivi vjecno”, Blato viverá eternamente, em português. A mensagem era uma referência a Ivan Mate Blaževic, adepto do Hadjuk Split que tinha sido assassinado dias antes.

A história abona a favor dos encarnados – nunca perderam e nunca sofreram golos com o Dínamo Zagreb – e o sorteio ditou que o Benfica jogue a primeira mão fora, a 7 de março em Zagreb, e a segunda em casa, a 14 de março (assim como aconteceu com o Galatasaray).