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Ciclismo

Selfies, cachorros quentes e um beijinho a mais. A realidade de uma etapa da Volta ao Algarve

A Volta ao Algarve, que termina este domingo, é uma prova com direito a centenas de pessoas a assistir. Esta é a reportagem de uma etapa – com selfies, cachorros quentes e beijinhos a mais à mistura.

O sprint final é sempre o momento mais antecipado de uma etapa de ciclismo

Na última década, principalmente em Portugal, os jogadores de futebol foram fechados numa espécie de redoma. Raramente dão entrevistas, não falam sem ser nas flash interviews ou nas controladas conferências de imprensa e não dizem mais nem menos do que aquilo que está programado. Algo como o que aconteceu no final de dezembro no The Guardian, quando o suíço Shaqiri marcou os dois golos da vitória do Liverpool frente ao Manchester United e no dia seguinte deu uma entrevista ao jornal inglês, é praticamente impensável em Portugal. A política de proteção e pouca exposição dos atletas, contudo, ainda não chegou por inteiro às modalidades. A não ser nos três principais clubes portugueses.

A 45.ª edição da Volta ao Algarve arrancou esta semana, em Portimão, terminando este domingo. Cerca de meia hora antes da partida, centenas de pessoas enchiam a zona ribeirinha da cidade algarvia, entre habitantes locais, turistas apanhados de surpresa pelo aparato ou fãs confessos de uma ou outra equipa de ciclismo. Os autocarros das equipas, que estavam alinhadas umas a seguir às outras, motivavam a curiosidade habitual dos que por ali passavam e tentavam – através do vidro da frente, das janelas laterais ou até do vidro de trás – espreitar o possível para o interior dos veículos. Os elementos do staff, ocupados com a manutenção das bicicletas e a preparação dos carros de apoio, são o foco de grande parte da atenção dos mais atentos já que, até ali, não se avista qualquer ciclista.

Pouco a pouco, os atletas começam a deixar o interior dos autocarros e a dar os últimos retoques nas respetivas bicicletas, nas garrafas de água que transportam e nos snacks que levam nas bolsas que as camisolas têm nas costas. À medida que os ciclistas começam a surgir, as pessoas que passeavam pela marginal de Portimão concentram-se principalmente à volta de três equipas: a W52-FC Porto, o Sporting/Tavira e a Team Sky, o grupo britânico que inclui Chris Froome, vencedor do Tour de France por quatro ocasiões, e que vai perder o patrocínio no final deste ano. A cadeia de televisão Sky vai deixar de patrocinar aquela que é a equipa de ciclismo mais bem sucedida da última década (oito vitórias nas quatro grandes voltas) e o facto de esta ser a última vez que o grupo mais famoso dos últimos anos no mundo do ciclismo visita o Algarve – pelo menos com o nome que o tornou reconhecido por todos – atrai muitos daqueles que foram assistir ao arranque da prova algarvia.

Ao contrário do que acontece na maioria das modalidades, no ciclismo os atletas ficam à mercê de adeptos, fãs e apoiantes assim que se colocam em cima das bicicletas para percorrer os curtos metros até à linha da meta. Nesse espaço de tempo, muitos abordam os vários ciclistas de várias nacionalidades e pedem autógrafos ou a já clássica selfie, para lá da típica palmada nas costas e do imprescindível “força, pá!”. Neste momento de convívio entre fãs e atletas, o arrastar às modalidades daquilo que é usual no futebol torna-se evidente: se todos os ciclistas de todas as equipas, portuguesas ou não, param e acedem com sorrisos e naturalidade aos pedidos dos adeptos, os das equipas ligadas ao FC Porto e ao Sporting mantêm-se na redoma futebolística que agora parece ser a prática do ciclismo. Os elementos da equipa técnica, aos quais se juntam dirigentes e responsáveis dos dois clubes, encarregam-se de tornar o percurso dos ciclistas até à meta o mais protegido possível, sem abordagens exteriores ou intervenções não programadas (ainda que não tenham conseguido evitar todas as interpelações).

O português Tiago Machado, da equipa Sporting/Tavira, foi um dos ciclistas abordados por fãs e nem o apertado controlo da equipa conseguiu evitar a interpelação

Na reta onde dentro de alguns minutos os 168 ciclistas de 24 nacionalidades diferentes iriam começar uma das etapas da prova que durou cinco dias e que é, ao contrário do que seria expectável, mais importante para o ciclismo mundial do que a Volta a Portugal, Rosa Mota é antes da partida o principal foco de atenção de adeptos e também de jornalistas, que aproveitam a presença da campeã olímpica para trocar algumas palavras, fazer perguntas e até tirar a fotografia da praxe. O acumular de ciclistas naquela zona obriga à dispersão e aumenta a sensação de alvoroço. O sinal sonoro é acompanhado pela voz do speaker, que dá início à etapa e provoca uma maré de aplausos e assobios que acompanham os primeiros metros percorridos pelo pelotão. Lá vão eles e lá vai toda a gente, já que a zona ribeirinha demorou escassos minutos a ficar vazia e as centenas de pessoas que lá se encontravam deixaram a área ao mesmo tempo que os autocarros das equipas, que dali viajaram para o local marcado para o final da etapa.

A zona da marginal onde fica a reta da meta está ainda vazia à hora de almoço. Os restaurantes, esses, estão cheios: o staff das equipas, os adeptos da Volta e os elementos da organização juntam-se aos já habituais turistas e enchem os estabelecimentos ribeirinhos. Enquanto Fabio Aru, Enric Mas e Wout Poels, três dos corredores que surgiam como os principais candidatos à vitória, assistem à tentativa de fuga de dois atletas da portuguesa Efapel, a área que circunda a meta vai ficando colorida por pessoas, patrocínios, autocarros de equipas, camiões para a imprensa e a habitual plataforma que serve de pódio. E se muitos dos curiosos optam por ver a chegada da etapa a poucos metros de distância, outros escolhem a perspetiva – o topo do Mercado Municipal, onde funciona um bar, vai ficando repleto de adeptos na varanda, seduzidos pela vista panorâmica para a reta da meta.

A progressão do pelotão vai sendo acompanhada pela voz do speaker, que explica de forma entusiasmada que faltam 15.000 metros para a meta, 10.000 metros para a meta, 5.000 metros para a meta: nunca em quilómetros, sempre em metros, o que vai causando alguma confusão entre aqueles que estão já encostados às barreiras de proteção. Quem vai faturando é um pequeno estabelecimento que vende cachorros quentes, que sem barulho nem grande marketing vai atraindo um e outro interessado pela simples força do cheiro que as salsichas libertam enquanto são cozinhadas. O aproximar dos ciclistas traz também muitos belgas, apoiantes acérrimos da Deceuninck-Quick Step, antiga equipa de Michał Kwiatkowski, polaco que venceu a Volta ao Algarve em 2014 e 2018 e este ano não integrou a comitiva da Team Sky que viajou até Portugal.

Os ciclistas cumprimentaram-se e conviveram antes do início da etapa

A sete quilómetros da meta, o speaker dá conta de que uma queda no pelotão deixou vários pilotos atrasados ou mesmo fora da etapa. A reação das centenas de pessoas presentes no local onde tudo culmina é de preocupação mas também de tristeza; se muitos ficaram de fora, poucos vão participar no sprint final pela vitória. Na hora de cortar a meta, são cerca de 20 os ciclistas que aceleram na derradeira reta: o aproximar dos atletas, em alta velocidade, provoca o habitual burburinho, as palmas, as mãos a bater nos placards publicitários que adornam as baias de proteção. O vencedor tira as mãos do guiador e levanta os braços, festejando a vitória na etapa. Mas ninguém sabe quem ele é. Quando o speaker anuncia um nome estrangeiro, a reação é generalizada. “Quem?” ou “como?” ou “como é que ele se chama?”. Mas de pouco ou nada importa quem ganhou. A festa está feita, a etapa acabou e nem uma queda monumental pelo meio estragou a emoção do sprint.

No final da etapa, os participantes continuam a chegar à medida que os minutos passam e a algazarra é tanta que entre ciclistas e carros de apoio passam jornalistas, adeptos e turistas. A confusão é total e a alegria dá lugar às buzinas de carro e ao caos, dada a inexistente organização do espaço onde os ciclistas se concentraram no fim do percurso. Pelo meio, a multidão diverte-se a apontar os estragos da queda a sete quilómetros da meta, entre equipamento rasgado, pernas feridas ou braços em sangue. O vencedor sobe ao pódio para receber o habitual ramo de flores, abrir a indispensável garrafa de champanhe e dar os beijinhos da praxe às raparigas que entregam o prémio. O atleta, por ser holandês, está habituado a dar três beijinhos e não os portugueses dois: fica pendurado com as duas raparigas e o momento gera gargalhadas e brincadeiras entre as pessoas que assistem.

O sol já está tímido, os ciclistas já recolheram aos autocarros e a multidão desaparece. Quando o vencedor abre o champanhe, já a organização da Volta ao Algarve tira baias, publicidade, cartazes e insufláveis. Afinal, é tempo de arrumar tudo e cumprir caminho: a próxima etapa é já no dia seguinte.

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