Quando recebeu o convite da RTP para participar no Festival da Canção como compositora, Surma — que tem Débora Umbelino como nome de batismo — perguntou: “Têm a certeza? A Surma no Festival da Canção?”. A multi-instrumentista e cantora de 24 anos, que cresceu em Leiria, tem tido um percurso ascendente na música independente nos últimos anos, em Portugal e internacionalmente. O mediatismo televisivo e a popularidade do Festival da Canção não lhe são os terrenos mais familiares, daí a estranheza com o convite. O júri do festival, contudo, validou o desafio: deu a pontuação máxima à canção “Pugna” e contribuiu para que Surma fosse uma das concorrentes apuradas para a final.

A RTP disse-nos para fazermos uma coisa nossa, ao nosso estilo, sem forçar um lado eurovisivo. Foi isso mesmo que fiz, fui Surma 100%. Estava com zero expectativas e estou muito chocada — positivamente — por o júri me ter dado 12 pontos. É muito gratificante, ainda estou a flutuar”, afirmou ao Observador, após o apuramento para a final.

Assumindo que começou a ver o Festival da Canção depois da “reviravolta” Salvador Sobral, que aconteceu depois de uma guinada da RTP quanto ao modelo definido para o concurso (os concorrentes passaram a ser, na sua larga maioria, escolhidos por convite direto), Surma contou como reagiu à pontuação do júri: “Fiquei mesmo branca e pálida, devo ter ficado em modo zombie porque não estava mesmo à espera”.

Para Surma, as características dos concorrentes e finalistas de esta edição do Festival da Canção mostram que “a RTP está a abrir muito a mente. Temos o NBC, a Mariana Bragada, os Madrepaz, temos o Conan [Osiris]… temos aqui uma parafernália de géneros musicais diferentes e acho que é isso que estávamos à procura. Sendo Surma, estar no Festival da Canção foi uma vitória muito grande para mim. É uma honra estar aqui”.

Estamos a ver o hype que o Conan [Osiris] está a ter, está a ser incrível. Acho que os portugueses estão a abrir a mente de dia para dia, com passos de bebé — mas é devagarinho que se vai ao longe. O Festival da Canção dá-nos liberdade de expressarmos aquilo que somos num festival desta dimensão. Óbvio que ganhar e ir a Israel era uma coisa mesmo incrível, mas nem gosto de pensar nisso. Vamos todos dar o nosso melhor em palco na final e logo se vê o resultado. Cada um pode representar Portugal, estamos com uma escolha mesmo muito forte”, referiu.

“Pugna”, o tema que compôs e interpreta no Festival da Canção, tem letra escrita por Tiago Félix e é a sua primeira canção cantada em português. Surma explica os motivos que a levaram a adotar a sua língua quotidiana neste concurso: “Aqui para mim só fazia sentido ter uma canção em português. É o Festival da Canção… essa foi a primeira coisa assente: tinha de ser em português, não podia ser em inglês nem mesmo em surmês [habitualmente canta palavras inventadas, murmúrios que servem para fins melódicos]. O Tiago foi uma peça essencial para este puzzle, fez uma letra incrível. Eu tinha rascunhos de letras mas eram péssimos, ainda não estou numa fase de escrever em português. Só cantar [nessa linguagem] já foi um desafio muito grande, mas estou a gostar de cantar em português, está a ser muito bom”.

Neste momento, paralelamente à participação no Festival da Canção, Surma está a compor o seu próximo álbum de originais, que vai suceder a Antwerpen. O disco anterior chegou a ser um dos 22 nomeados da associação IMPALA para melhor álbum europeu independente de 2017, tal como Party da neozelandesa Aldous Harding, Plunge da sueca Fever Ray, Ash das francesas Ibeyi e The Ooz, Semper Femina e I See You dos britânicos King Krule, Laura Marling e The XX, respetivamente. A associação acabou por premiar o álbum In My Head, das alemãs Gurr.