Óscares

A vitória dos “invisíveis” e “as cicatrizes de uma nação”. A política que passou pelos Óscares

Imigração, muros e raça foram temas polémicos que deram à 91ª cerimónia dos Óscares algum cariz político. Spike Lee, Alfonso Cuarón, o chef José Andrés e o congressista John Lewis foram protagonistas.

Spike Lee fez um longo discurso sobre os seus antepassados escravos e a avó que lhe chamava 'Spikeypoo'

AFP/Getty Images

É subtil, chega-nos entre piadas e sorrisos para a câmara, mas está lá — sempre esteve. A cerimónia dos Óscares é um dos programa mais vistos no mundo e isso torna-a palco apetecível para os artistas e técnicos de cinema que querem passar a sua visão, demonstrar o seu descontentamento. A cerimónia deste ano não foi diferente e, apesar de ter sido uma das mais mortiças dos últimos tempos, teve os seus momentos importantes de intervenção política. Spike Lee, um dos vencedores de estatueta e conhecido reivindicador nato, foi o protagonista do maior de todos.

Por adaptar o livro de memórias de Ron Stallworth em “BlacKkKlansman”, Lee ganhou a ambicionada estatueta e tirou logo do bolso, ainda caminhava para o palco, um longo papel amarelo. “A palavra de hoje é ironia. A data, dia 24. O mês, fevereiro, que por acaso não só é o mais curto do ano como também é o Black History Month [nos calendários norte-americanos]. O ano, 2019. O ano, 1619. História, a história dela. 1619. 2019. Há 400 anos os nossos antepassados foram roubados do Norte África e trazidos para Jamestown, na Virgínia. Escravizados. Os nossos antepassados trabalharam as terras e construiram este país”, atirou de rajada, de voz trémula, o célebre realizador de Brooklyn, em Nova Iorque.

Logo de seguida, o mesmo Spike Lee reforçou a sua narrativa de homenagem aos antepassados falando de algo mais concreto, um exemplo pessoal, a sua avó. “Ela viveu até aos 100 anos, tirou um curso na Spellman College e tudo isto tendo em conta que a sua mãe tinha sido escrava. A minha avó, que guardou 50 anos de cheques da Segurança Social para pôr o seu primeiro neto — ela chamava-me ‘Spikeypoo’ — na Morehouse College e na New York University de cinema. NYU!”

Por esta altura, a folha de papel de Spike parecia estar a terminar, mas ainda houve tempo para olhar para o futuro, para as eleições de 2020, mais concretamente. “Perante o mundo, esta noite, eu vanglorio os nossos antepassados que ajudaram a construir este país e a transformá-lo naquilo que é hoje juntamente com o genocídio dos seus povos nativos. Se todos nos conectarmos com os nossos antepassados, teremos amor e sabedoria. Reconquistaremos a nossa humanidade. Será um momento poderoso. […] As eleições de 2020 estão aí ao virar da esquina, vamos mobilizar-nos e ficar no lado certo da história. Fazer a escolha moral entre o amor contra o ódio.”

Mal se começou a falar desta 91ª celebração em Hollywood surgiram logo novidades (não políticas,mas lá chegaremos). Primeiro foi a conversa de se introduzir uma nova categoria dedicada aos “filmes populares”, os blockbusters que muitas vezes passam despercebidos ao olhar mais exigente dos espetadores. Depois houve o episódio com o apresentador Kevin Hart que era para ser o cicerone mas viu o seu passado a proibir-lhe a proeza. Resultado? Pela primeira vez em 30 anos, a cerimónia dos Óscares não ia ter apresentador (a última vez que tal aconteceu foi em 1989). Até à última hora muitas dúvidas mantiveram-se mas tudo dissipou-se logo no início do certame, quando Tina Fey, Amy Poehler e Maya Rudolph subiram ao palco para fazer rir e meter o dedo na ferida política pela primeira vez. “Um pequeno update para as pessoas que possam estar confusas: Não vai haver anfitrião esta noite, não vai haver categoria de filme popular e o México não vai pagar pelo muro”, foi desta forma que Maya Rudolph lançou a primeira pedra.

Outro dos momentos mais fortes da noite foi protagonizado, curiosamente, por um político, quando o congressista John Lewis apresentou o pequeno trailer sobre o “Green Book” — que acabaria por vencer o Óscar de Melhor Filme — a história de um músico afro-americano (Mahershala Ali) que, no início dos anos 60, vai fazer uma digressão pelo sul racista dos EUA e arranja um guarda-costas/motorista branco (Viggo Mortensen). “Eu posso testemunhar que o retrato pintado [por este filme] desse tempo e espaço na nossa história é bem real”, afirmou o congressista. “Está gravado na minha memória: homens e mulheres negros, nossos irmãos e irmãs, tratados como cidadãos de segunda, ameaçados por criar as suas famílias ou sustentarem-se, espancados e por vezes mortos pelo simples crime de tentar viver uma vida com dignidade. A nossa nação ainda carrega as cicatrizes desse tempo, e eu também”, replicou ainda, para um anfiteatro completamente em silêncio e debaixo do peso das palavras proferidas.

Amandla Stenberg, jovem atriz de 20 anos que acompanhou Lewis nesta breve apresentação, também teve oportunidade de juntar as suas palavras às do político e ativista: “As personagens de ‘Green Book’ gradualmente destruíram os muros que existiam entre elas, transformando-se um ao outro durante esse processo. Como o filme demonstra, qualquer viagem que possa servir para nos abrir os olhos e suavizar o coração deve ser feita.” O congressista acabou mesmo por ter a última palavra ao atirar com a frase: “Novos ou velhos, quero encorajar-vos a serem participantes ativos nessa viagem.”

A relação entre o México e os EUA tem-se deteriorado a um ritmo acelerado desde que Donald Trump assumiu a presidência e o muro na fronteira que o empresário tanto apregoou durante a sua campanha eleitoral está na ordem do dia, de tal forma que esteve no centro da polémica e recente paralisação do Governo Federal dos EUA. Ficou claro que, logo à partida, “México” seria um possível tema quente bem como a sensível questão da imigração que lhe é associado. Se dúvidas disso ainda restassem Javier Bardem dissipou-as totalmente mal subiu ao palco, acompanhado por Angela Bassett, para revelar o vencedor do Óscar de Melhor Filme Estrangeiro — ironicamente conquistado por “Roma”, a obra de Alfonso Cuarón sobre a infância do realizador no México. “Não há muros nem fronteiras que consigam conter a genialidade e o talento”, atirou o ator em espanhol logo no início da sua intervenção.

Há um ano, muito à boleia das revelações chocantes do até então recém-formado movimento #MeToo, várias atrizes exteriorizaram o seu apoio a esta causa no formato dos pins desenhados por Arianne Phillips — nos Globos de Ouro, por exemplo, vestiram de preto. Este ano, porém, as referências ao empoderamento feminino foram parcas e surgiram — associadas ao tema da imigração, lá está — pela voz… de um chef de cozinha. José Andrés é espanhol, nasceu nas Astúrias, mas há muito que vive e trabalha nos EUA, nova casa que o ajudou a transforma-se num autêntico fenómeno, de tal forma que até está nomeado para receber o Prémio Nobel da Paz este ano. Foi ele que, acompanhado pelo ator sul-americano Diego Luna, apresentou o filme “Roma” valorizando a importância desta obra que “nos relembra a compreensão e compaixão que todos nós devemos às pessoas invisíveis das nossas vidas: imigrantes e mulheres, eles fazem a humanidade andar para a frente.”

Finalmente, já quase no fim da cerimonia, o homem que todos esperavam que dissesse alguma coisa acabou mesmo por dizer. Alfonso Cuarón, o realizador mexicano de “Roma”, era quem melhor estava posicionado para falar sobre um dos temas da noite: é mexicano e fez um filme sobre a discriminação latente no México que o viu nascer. Depois de receber de Guillermo del Toro (outro mexicano, curiosamente) o Óscar de Melhor Realizador, Alfonso fez os seus agradecimentos e tirou os óculos para ler o texto que já tinha preparado, onde agradece à Academia por “reconhecer um filme centrado na mulher imigrante, uma dos 70 milhões que existem em todo o mundo que não têm qualquer tipo de direitos de trabalho.” O realizador que já tinha ganho o mesmo galardão pelo filme “Gravity”, em 2013, descreveu “Roma” como sendo um filme que mostra as pessoas que normalmente são empurradas para o fundo dos cenários “numa altura em que estamos a ser encorajados a olhar para o outro lado” e continur a ignorá-los.

Discursos inflamados e demonstrações à parte, aquela que terá sido a maior afirmação política perante o status quo complicado que parece estar para ficar no seio da sociedade norte-americana foi a vitória de Cuarón, o mexicano, imigrante, “bad hombre” (como Trump chamava aqueles que vinham do sul) que, este domingo, conquistou um dos mais importantes galardões do mundo artístico ocidental.

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